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praxis do Serviço Social (Unisinos) junto a mulheres em São Leopoldo Clair Ribeiro Ziebell Wladinéia Freitas Consul |
A inserção do Serviço Social junto a grupos de mulheres e organizações comunitárias
em São Leopoldo vai completar dez anos. O Serviço Social Extensão à Comunidade,
hoje vinculado à Pró-Direção de Ensino, Pesquisa e Extensão do Centro de Ciência
Humanas desta Universidade, surgiu em 1995
[1]a
partir de uma demanda específica de agentes sociais (assessores de ONGs, Igrejas
e outros) vinculados a comunidades da periferia de São Leopoldo. A partir desse
desejo e da possibilidade de a Unisinos, através do trabalho de extensão, ampliar
os espaços de interlocução com a comunidade, fomos delineando a nossa proposta
de trabalho com as mulheres. Essa proposta manteve o objetivo inicial, que era
assessoria à organização comunitária nas duas vilas de onde partiram as reivindicações,
mas priorizando como sujeitos as mulheres. Isso aconteceu em 1991, época em
que a professora responsável pela implantação do Serviço afastou-se para estudos
de pós-graduação, assumindo eu, professora Clair, a responsabilidade de continuar
o trabalho.
Neste texto buscamos registrar a
evolução da proposta, que manteve a concepção profissional crítica que marcou a
implantação do serviço e a vinculação do Serviço Social às organizações
comunitárias e aos movimentos sociais, buscando o seu fortalecimento. Priorizamos as
mulheres por serem elas as que se sobressaíam nos movimentos sociais na zona norte de
São Leopoldo, área onde implantamos o Serviço, na época abrangendo os bairros Campina
e Parque Mauá. Atualmente, assessoramos grupos de mulheres de outros bairros e vilas,
tanto na zona norte como na zona sul da cidade.
A finalidade do Serviço é a
formação profissional dos(as) alunos(as) do Curso de Serviço Social, num esforço de
articular ensino e extensão mediados pela realidade social. Essa realidade, cujas
mudanças e transformações operadas no tecido social repercutem diretamente no cotidiano
das classes populares, é um desdobramento da Questão Social mais ampla. Essa é
caracterizada pela desigualdade social, que atinge, sobremaneira, as mulheres que se
mobilizam no seu enfrentamento.
Nesse tempo, fomos nos inserindo em
seu dia-a-dia, conhecendo os espaços por onde transitam, descobrindo subjetividades,
compartilhando esperanças e também incertezas. Essa descoberta da realidade da mulher
foi acontecendo a partir de uma opção metodológica clara: as formas sociais de
organização já existentes na comunidade deverão servir de base à organização
educativa (FAUNDEZ, Antônio, 1991:60). Tal opção tem a ver com a nossa
compreensão, que acreditamos deva ter a extensão universitária, de que não compete à
universidade assumir programas ou prestar assistência, mas, sim, prestar assessoria,
possibilitando, assim, a constante formação de educadores numa relação de colocar-se a
serviço dos grupos populares, buscando a troca entre saberes e, no decorrer de tal
processo, a construção do novo conhecimento, reconhecendo, também, a importância de
uma relação com a sociedade civil que fortaleça seu caráter público.
Uma leitura do movimento das
mulheres e suas expectativas quanto ao Serviço Social
Num primeiro olhar, quando de nossa
inserção na Vila Campina, localidade de onde se originara a demanda para a Universidade,
e, mais tarde, no Parque Mauá, já era possível perceber que as mulheres assumiram a
maioria dos trabalhos sociais nessas comunidades.
Lentamente, fomos descobrindo as
formas de organização das mulheres que mais se destacavam, e ainda se destacam, os
chamados grupos de mulheres. Esses grupos têm em média de dez a quinze pessoas e giram
em torno das necessidades básicas, como: alimentação (fornos comunitários), educação
(creches comunitárias, trabalhos com adolescentes, lutas por mais e melhores escolas...),
atividades artesanais (confecção de acolchoados, tapetes, roupas) e projetos
alternativos comunitários.
As participantes desses grupos, em
sua maioria, são donas de casa, ou do lar, como em geral são denominadas as
mulheres que não exercem sistematicamente outras atividades, ou que não estão inseridas
no mercado formal de trabalho. Algumas têm outras ocupações, porém sem vínculo
empregatício. São na maioria migrantes e vêm do interior do Rio Grande do Sul, Santa
Catarina e Paraná. Algumas cidades do RS de onde procedem as mulheres são: Santo
Antônio da Patrulha, Nonoai, Sobradinho, Arroio do Meio, Tenente Portela, Palmeira das
Missões, entre outras. Há, no entanto, uma heterogeneidade na composição dos grupos,
desde a variação das idades (de adolescentes até mulheres beirando a terceira idade)
até diferenças de objetivos e interesses.
O espaço onde as mulheres
concretizam suas atividades sociais ainda é, predominantemente, o das igrejas. A
predominância é ainda o espaço da Igreja Católica, seguida da IECLB (Igreja
Evangélica de Confissão Luterana no Brasil). Outras crenças se fazem presentes, mas com
outro tipo de atuação, ainda centrada no culto.
A igreja faz parte da
experiência coletiva do bairro. É, ao mesmo tempo, uma
presença familiar, parte da cultura desta população e um ponto de referência que
articula as experiências, dando-lhes sentido (LOBO, Elizabete, 1991:222).
Existem alguns grupos autônomos,
com personalidade jurídica própria e que, via de regra, fazem alguma prestação de
serviço, como um grupo de mulheres que mantém duas creches comunitárias. Nesses grupos,
também se percebe fortemente a religiosidade. Outra forma de mobilização das mulheres
são os grupos voltados para a terceira idade. Alguns deles recebem apoio do NUTTI
UNISINOS ( Núcleo Temático da Terceira Idade).
São tantas mulheres: crianças,
adolescentes, adultas, idosas, que vivem, sofrem, avançam, recuam, porém que lutam, não
só pela sua sobrevivência e de suas famílias, mas que ousam lutar, também, pela
sobrevivência de sua comunidade e por uma sociedade melhor. São Luiza(s), Márcia(s),
Beatriz(es), Lúcia(s), Judite(s), Maria(s), e tantas outras. Enfim, são subjetividades
em um coletivo, cada uma com uma história pessoal, única, inconfundível e, ao mesmo
tempo, com a história de sua classe social, mas também marcadas por sua condição de
gênero e raça, seja isso consciente ou não.
A seguir, abordaremos algumas
situações com que fomos nos deparando e que fazem parte do cotidiano das mulheres. As
questões das mulheres giram em torno de problemas imediatos e ligados à sobrevivência,
como geração de renda, moradia, alimentação, saúde, e outros problemas referentes à
educação, como repetência e evasão. Outras situações são por conta das
relações estabelecidas na comunidade, como conflitos de lideranças, problemas ligados
à comunicação entre elas e tensões na relação com a escola e com as igrejas.
A cultura popular
se liga melhor à escala do tempo dos próprios Movimentos Sociais, o tempo imediato, o
tempo do visível. É, nesse sentido, mais adequada para explicar os fenômenos,
acontecimentos, desse tempo, que é o da escala do cotidiano, da sobrevivência, das
conseqüências imediatas da opressão, da exploração da injustiça (...) A
injustiça e a exploração não são, para os subalternos, teses ou princípios
inevitáveis, mas problemas reais (MARTINS, José de Souza, 1989:124).
Junto com essas
questões oriundas de seu cotidiano, surgiram as expectativas sobre o que o Serviço
Social e a Universidade poderiam fazer para responder às demandas emanadas dessa dura
realidade. Nos primeiros contatos, ficou-nos a impressão de que havia muita descrença na
atuação universitária.
Exemplificando melhor que questões
eram essas, relataremos um primeiro impasse que se referia à concepção das mulheres
sobre o Serviço Social e à nossa compreensão sobre a profissão. O entendimento das
mulheres sobre o Serviço Social passava pela concepção assistencialista e paternalista,
ou seja, uma pessoa boazinha, compreensiva e que devesse atuar como solucionadora de
problemas imediatos, como: encaminhamento de pessoas a instituições de assistência;
providência de alimentos, empregos, funcionando também como orientadora de trabalhos
artesanais e outras demandas emergentes. Como os grupos de mulheres se baseavam em
atividades de inter-ajuda e trabalhos artesanais, a demanda para o Serviço Social passava
pelo atendimento de tarefas como as citadas anteriormente.
A concepção contemporânea da
profissão passa pela ruptura com esse modelo de atuação. Não nega a história da
atuação profissional marcada pelo assistencialismo ou a pertinência das demandas, mas
reflete e critica essa trajetória. Parte da compreensão do Serviço Social como
profissão inserida na divisão social e técnica do trabalho, que surge na sociedade
capitalista em sua fase monopolista, como um instrumento da classe hegemônica, não para
pensar sobre a prática, mas com caráter eminentemente interventivo. Essa primeira
questão, que tem como pressuposto a identidade do Serviço Social, propiciou que
refletíssemos junto com as mulheres as implicações resultantes de um e outro
entendimento. Não deixamos, contudo, de responder às demandas que nos eram colocadas,
optamos por repensar a atuação do profissional, junto com as mulheres, buscando formas
de intervenção que, mesmo passando pelo atendimento de uma necessidade imediata, não
parasse aí.
Dessa forma, iniciamos junto às
mulheres com quem atuávamos, e também junto às mulheres (professoras, estagiárias) que
compunham o Serviço Social de Extensão, a reflexão sobre a contradição da profissão,
que nasce não para pensar a realidade, mas para atuar sobre ela e os fatos que possam
ameaçar a estabilidade social. Profissão que, ao longo de sua ação, é
interpelada, questionada e pressionada por essa própria realidade a tomar posição. Nas
últimas décadas, favorecido pelo movimento social ascendente, o Serviço Social foi
consolidando a revisão de sua prática, redefinindo melhor sua identidade, assumindo seu
caráter contraditório, passando a articular-se e apoiar a luta das classes subalternas,
organizadas nos movimentos sociais populares. Para tanto, busca a competência técnica e
política necessária à nova posição, investindo na pesquisa e na formação
permanente.
A assessoria como práxis
fortalecedora do movimento popular
A partir da compreensão do Serviço
Social anteriormente esboçada, nossa intervenção junto às mulheres caracterizou-se
pela assessoria, entendida aqui como vinculação orgânica e investigação-ação
permanente. A prática profissional via assessoria propicia uma prática educativa,
concebida como:
Conjunto
socialmente determinado de atividades que visam a transformar as representações sociais,
conhecimentos, valorizações, sentimentos, com o objetivo de mudar a conduta social
(...) Por si mesma, toda prática educativa pretende transformar as visões de mundo
dos agentes sociais, com o objetivo de que ajam no mundo de um modo diferente
(PINTO, João Bosco, 1993:41)
Essa prática educativa
viabilizou-se com a inserção no cotidiano dos grupos de mulheres, em especial os grupos
ligados à Pastoral Social da Igreja Católica e Pastoral Popular da IECLB, na Zona Norte
de São Leopoldo.
A partir da inserção no cotidiano
dos grupos e das intervenções mais rotineiras, buscamos, estagiárias e profissionais
envolvidos na assessoria, em alguns espaços já existentes, a reflexão, o estudo e a
avaliação da atuação das mulheres e da nossa intervenção junto aos grupos. Alguns
desses espaços são reuniões mensais por área geográfica onde atuam as mulheres e os
encontros promovidos pela Cáritas Paroquial[2] .A esses somaram-se os encontros de mulheres (articulação
geral das mulheres de São Leopoldo em torno do 08 de março, com início em 1992) e, em
1996, o Espaço Cultural (Re) Pensando a Prática, cujo objetivo é a formação de
educadores populares, baseada na reflexão das problemáticas surgidas da prática e na
socialização de estudos e pesquisas afins.
Nesses espaços, predomina a
discussão em torno dos problemas enfrentados pelas mulheres, priorizando temas como
educação de crianças e adolescentes, afetividade e sexualidade, alcoolismo, violência
e desemprego. A reflexão sobre esses temas levou à necessidade de se refletir sobre a
insuficiência e ineficácia da realidade das políticas sociais em São Leopoldo, e a
própria afetividade da atuação das mulheres em relação às formas como vinham
enfrentando essa realidade. Aqui sentimos a necessidade de incorporar à reflexão a
categoria gênero.
Dessa forma, pouco a pouco fomos
legitimando nossa presença entre as mulheres, revertendo a expectativa inicial e
construindo uma compreensão da necessidade da atuação do profissional na perspectiva da
mediação dos direitos, tendo como pano de fundo a realidade das políticas sociais, hoje
cada vez mais políticas compensatórias e locais, tão ao gosto dos governos neoliberais
que pregam o Estado mínimo.
Buscamos uma metodologia inspirada
em Vicente de Paula Faleiros (1987): a metodologia da articulação. Em resumo, essa
consiste no agrupamento das reivindicações isoladas, advindas dos grupos de mulheres,
situando-as na realidade social mais ampla. É um processo realizado pela reflexão-ação
permanente junto às mulheres, visando ao fortalecimento das suas formas de organização,
pela busca de alternativas de sobrevivência e na luta por cidadania. Significa que, ao
intervir na realidade social das mulheres, procuramos não esquecer a relação das partes
com o todo, o que implica contribuir para essa vivência cotidiana das mulheres seja
entendida, também, em relação com a totalidade mais ampla em que se insere:
Na metodologia da
articulação a apresentação de um problema é apenas um dos pontos de partida para a
relação do particular com o geral, que se faz, ao mesmo tempo, através de uma relação
política entre o assistente social e a população (FALEIROS, Vicente de Paula,
1987:112).
A metodologia da articulação
implica que, como Universidade, também nos articulemos a entidades e organizações com
objetivos afins. Nesse sentido, já podemos dizer que há uma atuação em rede que
envolve os grupos de mulheres, o Comitê Leopoldense de Cidadania, onde hoje elas são as
principais protagonistas, o CECA (Centro Ecumênico de Evangelização e Capacitação), o
ASPA (Apoio e Solidariedade aos Portadores de HIV), a Cáritas, o CEDOPE (Centro de
Documentação e Pesquisa), os Conselhos Municipais, sempre que necessário, e outras
parcerias e apoios intra e extra Universidade, dependendo da demanda.
Com essa postura, o Serviço Social
busca construir, com as mulheres, novos consensos e concepções de mundo mais críticas,
já possíveis de se visualizar nos novos rumos traçados por elas, cada vez mais
convictas da necessidade de constituírem um amplo movimento em defesa das políticas
públicas. Isso é possível perceber no discurso de Clebes, representando as mulheres em
Sessão especial na Câmara Municipal, solenidade alusiva ao dia 08 de março deste ano,
ocasião em que entregaram um documento com as propostas dos grupos de mulheres em São
Leopoldo, como subsídio para o reforço e a implantação de políticas públicas de seu
interesse:
Meu nome é Clebes e participo
do Grupo de Mulheres do Loteamento Santo Antônio, localizado no bairro Campina, na zona
Norte. O que represento hoje, nessa tribuna, é um grupo bem maior, composto por mulheres
dos mais diversos pontos da cidade e das mais variadas realidades sócio-econômicas,
religiosas e políticas. A pesar dessas diferenças, nos reunimos no dia 8 de março, não
para comemorar, mas sim para discutir as nossas realidades e, a partir daí, elaborar um
documento com as reivindicações específicas das mulheres em cada vila representada
neste encontro, do qual participaram 130 mulheres (...).
A fala de Clebes contém elementos
que, anunciam a extrapolação da prática isolada de cada grupo, na direção de um
movimento mais amplo. Ao mesmo tempo, caracteriza esse movimento como plural, que
contempla as diferenças, mas que se une em torno dos problemas comuns e da reflexão
sobre a realidade social.
Com essa práxis, apostamos na
construção de uma nova cidadania, que, segundo Evelina Dagnino (1994), é nova por
ultrapassar a visão liberal de Cidadania. Para a autora, o novo conceito implica
estratégia política, estendendo-a como construção histórica, devendo o
seu conteúdo e significado ser buscado nos conflitos de determinado contexto histórico,
dependendo sempre da luta política. É uma compreensão ampliada de Cidadania, que
ultrapassa a conquista formal e legal dos direitos, constituindo-se numa proposta de
sociabilidade, construída de baixo para cima, sendo uma estratégia dos não-cidadãos,
dos excluídos. Concordamos com a autora também quando ela diz que essa ampliação do
conceito implica, igualmente, uma reforma intelectual e moral, e, portanto, construção
de nova hegemonia.
DAGNINO, Evelina (Org.). Os
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