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Cunhary Informa nº 27
Uma publicação da Rede Mulher de educação
Editora: Vera Vieira
Colaboração: Moema Viezzer, Denise Carreira e Ziza Hassegawa
Tiragem: 3.000 exemplares
Apoio: Novib/Holanda
UNIR-SE PARA RESGATAR O OLHAR FEMININO NO AVANÇO DA SOCIEDADE
Que juntem-se a nós todos os homens do planeta pela conquista de igualdade nas relações sociais entre ambos os sexos. A sociedade só tem a ganhar!
Mas o que pensam os homens sobre o tema, nesta significativa data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher?
O Cunhary quis registrar suas opiniões nesta edição comemorativa, tentando diversificar os entrevistados. Todos eles vieram somar forças neste movimento por um mundo mais justo e igualitário.
O dinamismo da sociedade depende de relações de gênero equilibradas
Marcelo Grondin, canadense, 71 anos, é latinoamericanista, com formação em filosofia, antropologia e economia social, entre outras. Há mais de trinta anos dedica-se ao desenvolvimento sócio-econômico e cultural, tendo atuado na Bolívia, México, República Dominicana, Haiti, Canadá e Brasil. Após quinze anos de vida missionária, casou-se e teve duas filhas. Recentemente mudou-se para Toledo, no Paraná, para gozar da merecida aposentadoria, mas acabou sendo contratado pela Unioeste como diretor de relações internacionais. Em seu depoimento ele analisa e fala de sua vivência na luta pelo equilíbrio das relações sociais entre homens e mulheres.
"Comecei a atuar na promoção da mulher, desde o tempo em que era missionário na Bolívia. Entre 62 e 66, nas paróquias dos centros mineiros, organizamos 28 grupos de mulheres e nas reuniões semanais abordávamos diversos aspectos, como a questão da igualdade e do equilíbrio familiar. Havia muito machismo no pessoal das minas, mas avançávamos muito. Organizamos uma cooperativa com 180 mulheres - principalmente viúvas e mães solteiras - que compraram uma fábrica têxtil que iria falir, transformando-se num projeto bem-sucedido. Organizei também um grupo de quinze assistentes sociais para trabalhar no campo junto às mulheres que eram muito humildes, analfabetas, e que trabalhavam durante o dia com o marido na terra e depois em casa.
Mas, foi em 1975, no México, onde estava exilado, que a questão da mulher despertou muito mais forte em mim. Isso aconteceu por ocasião da Primeira Tribuna Internacional da Mulher, quando minha esposa, Moema Viezzer, encontrou Domitila, uma dona de casa das minas da Bolívia, e apoiei Moema na pesquisa que resultou no livro "Se me deixam falar..." - depoimento de Domitilia, traduzido para vários idiomas. De lá para cá, o que mais me convenceu e influenciou do movimento de mulheres em minha vida diária e em meu trabalho como perito em desenvolvimento foi a análise das "Relações de Gênero", iniciada pelas feministas de Sussex, na Inglaterra.
Eu acho que a mudança de comportamento do homem depende muito do ambiente social em que vive. Meus pais, com 14 filhos, sempre nos deram bom exemplo, com igualdade de direitos e nunca houve violência. Éramos bastante pobres por causa da crise mundial de 1929 que afetou o Canadá. Meu pai era taxista e minha mãe tinha um pequeno restaurante. A família toda trabalhava. Nunca vimos meu pai se comportar como macho prepotente. Evidentemente onde predomina a cultura do pai provedor - e por ser provedor tem todos os direitos -, além da pressão do ambiente que obriga o homem a ser macho para ser bem considerado pelos amigos, é difícil mudar, porque é uma questão de cultura. E demora muito para se mudar questões culturais profundas.
São necessários vários mecanismos para alterar essa situação. Eu acredito em educação, mas ela deve caminhar junto com as leis. No Canadá, quando um homem bate numa mulher e vai preso, quando sai sente muita vergonha. Vai pensar duas vezes antes de repetir o que fez. As mulheres precisam contar com leis e com mecanismos eficientes de aplicação. Fica mais fácil avançar nos países onde os mecanismos são mais fortes, tanto no aspecto legal, quanto de mídia, de organização e senso de cidadania.
Sem dúvida, o movimento feminista é uma grande revolução deste século, no sentido de que há uma mudança progressiva de estrutura da sociedade: a mulher se desatacando no mercado de trabalho, a estrutura familiar é outra, assim como o comportamento mútuo no aspecto do homem e da mulher. Agora, acho que ainda existem vertentes radicais e até extremistas, principalmente no movimento americano que se centra na luta sobre certos diferi-tos individuais das mulheres, que acaba se tornando mais forte do que a luta por mudanças nas relações homem/mulher nas estruturas da sociedade. Teve o lado muito positivo, porque despertou a reação dos homens. Mas para mim não corresponde à realidade da sociedade, que é o encontro do macho e da fêmea e a necessidade de se caminhar juntos para a normalização das relações de gênero. A sociedade é mais viva e mais dinâmica, quando homem e mulher se relacionam em condições equilibradas.
Talvez, por ter trabalhado tantos anos em desenvolvimento sócio-econômico, sou anti-educação e anti-conscientização levadas de maneira isolado, sem produção que traga dinheiro para casa. As pessoas precisam primeiro comer, vestir-se, ter um teto para morar. Todo movimento que esquece isso, para mim é muito perigoso. Admiro muito o Paulo Freire, mas a minha crítica na utilização de seu método é exatamente por ter esquecido isto. Quando se olha hoje para os resultados, conclui-se que o método Paulo Freire de conscientização teve muito impacto na classe média, que o utilizou para dar aulas e trabalhar a conscientização política, mas pouco alterou as condições de vida das classes populares.
A minha hipótese é a de que os movimentos de promoção popular são feitos por gente de classe média, que vem do exterior, tem sua profissão e come muito bem. Suas necessidades básicas estão solucionadas e o interesse maior é o aspecto da educação. São projetos que respondem às suas necessidades próprias e não às necessidades reais das populações pobres a quem se dirigem. Por isso esquecem os projetos de geração de renda, que são fundamentais para a população pobre. Claro que é muito difícil para as pessoas da classe média que estão em projetos de desenvolvimento situar-se nessa perspectiva porque não basta um conhecimento através de pesquisa, mas uma mudança de valores. Pelo ACDI (Agência de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional), no Canadá, eu trabalhei dando palestras para cooperantes de todas as idades e profissões, que iam trabalhar em desenvolvem-to em diversos países, procurando explicar como é que se tinha que entrar na cultura local e detectar as necessidades de base. No máximo, 20% dos cooperantes entram realmente nessa perspectiva. Acho que seria desumano esperar mais do que isso, porque é difícil sentir fome quando a gente come três vezes ao dia.
A violência contra a mulher é muito maior do que se fala, do que mostram as pesquisas, principalmente no âmbito doméstico, tanto a física, quanto a emocional e psicológica. Eu acho que só vai melhorar quando a mulher tiver um poder econômico mais significativo. Como hipótese, eu acharia que os casos de violência são mais pressentes quando a mulher não trabalha fora. Aí fica difícil sair dessa situação, porque ela precisa do apoio financeiro do marido e também por não querer perder os filhos. O que está melhorando muito é a convicção de que o entendimento entre os dois sexos numa relação de equilíbrio é benéfico para os dois. Penso que as novas gerações, as pessoas com menos de trinta anos, estejam caminhando para isso com mais tranqüilidade.
A religião contribui muito com a questão da subordinação feminina. Toda religião judaico-cristã é machista, é a figura masculina que prevalece. Por quê se diz o Pai Nosso e não a Mãe Nossa? Para os incas, o ser supremo é simbolizado pelo homem e pela mulher, e tudo na natureza é homem e mulher. O catolicismo se inspirou profundamente em São Paulo, que dizia "que as mulheres sejam submetidas a seus maridos...". Até bem pouco tempo, a Igreja tolerava o prazer sexual da mulher somente nos casos em que geraria fia-lhos. Sua função era meramente reprodutora. O prazer era proibido, era pecado. A mãe era mártir e a maior honra era sofrer pela família. Toda essa polêmica em torno do aborto legal, no caso de colocar em risco a vida da mãe, é porque pelos ensinamentos bíblicos não havia dúvida de que se salvaria a criança e deixaria a mãe morrer. Isso é um absurdo! Hoje, penso que a Igreja tenha uma influência menor. No Canadá, a Igreja não pina-ta mais nada, não influi no comportamento, porque existem somente 10% de católicos praticantes. Os Estados Unidos estão divididos. Na América Latina é bem forte a interferência e a visita do papa ao Brasil mostrou isto.
Nessa árdua luta por relações equilibradas de gênero, o mais importante é tomar consciência de que à medida que se progride numa relação de respeito mútuo, mais se dinamiza um ao outro, vive-se mais feliz e atinge-se um grau maior de realização. Não gosto muito da palavra igualdade. Acho que devemos ir mais longe, numa relação de dinamismo mútuo, com respeito. E isso se alcança através da convicção de que cada qual tem seus direitos como ser humano e é no ato de compartilhar que a gente encontra a felicidade."
As mudanças no ambientalismo e no ambiente doméstico
Marcos Sorrentino, 40 anos, cinco filhos, casado pela terceira vez, sempre trabalhou com educação ambiental e política florestal. É professor da USP, no campus de Piracicaba. Foi fundador do Instituto Ecoar pela Cidadania, onde atualmente coordena o programa Educ-Ação Ambiental, voltado para as populações atingidas por enchentes nas zonas Norte e Leste da cidade de São Paulo. Tem nítida convicção de que o movimento de mulheres e o ambientalista são movidos por ações comuns. A libertação da mulher e da natureza vêm junto com o resgate do princípio feminino. No âmbito profissional, tem claro que a questão de gênero está atada ao cotidiano. No campo doméstico, tem muitas dúvidas...
"Já na década de 70, quando participava do movimento estudantil e ambientalista, a gente tinha uma postura extremamente propícia para a inserção das questões feministas. Nós já tentávamos reformular a postura tradicional, machista, conservadora, dominadora, destrutiva que imperava nas nossas formações. Isto acontecia na busca de novas relações com nossas colegas, com as árvores, com os espaços em geral. Na Associação para a Proteção Ambiental de São Carlos, da qual fui um dos criadores, em 77, haviam mulheres que traziam elementos da cultura feminista para dentro do ambientalismo. Entretanto, era uma aproximação por sintonia, não havia uma discussão programática e ideológica sobre a importância do ambientalismo estar trabalhando junto com entidades de gênero. Isso vai se tornando mais claro no final dos anos 80, quando várias das reivindicações e demandas colocadas pelos dois movimentos apontavam para uma luta comum. No processo preparatório parra a Rio 92, por convite de Moema Viezzer, a gente começou a trabalhar em conjunto para o evento. Desde então, passou a ser algo orgânico, racional, uma cobrança do cotidiano. Eu me lembro, por exemplo, que na minha dissertação de mestrado em 87, eu não me cobrava no sentido de estar escrevendo levando em conta a ótica de gênero. Já na tese de doutorado, em 94, eu me percebia constantemente revisando meus textos, não só na questão da linguagem ("a humanidade" ao invés de "o homem"), mas procurando substituir discursos claramente masculinos. Eu percebo que isso muitas vezes é assumido de forma acanhada, só pra ser politicamente correto. Apesar de entender a resistência inicial das pessoas, acho importante bater nessa tecla de que podemos escrever e pesquisar de forma diferente, porque acaba criando uma outra cultura. Quem faz piadinhas sobre isso, até de forma ingênua, no fundo está estimulando a manutenção da cultura machista e prepotente.
No campo pessoal, no dia a dia da relação familiar eu já não tenho essa certeza toada. Eu acho que eu ainda mantenho muito da cultura, dos vícios da minha própria formação. É muito difícil para o homem trabalhar isso. Eu procuro no mínimo ser honesto com minha companheira e meus filhos, pedindo que apontem meus comportamentos denotativos dessa cultura. Não é fácil trabalhar essa questão e só consigo avançar à medida em que minha companheira e meus filhos assumam essa luta também.
É difícil não sobrar mais para a mulher. A impressão que eu tenho é que faço um milhão de coisas fora e que se a minha companheira volitar a lecionar, eu não vou abrir mão desse um milhão de coisas e vai acabar sobrando pra ela. A solução que eu vejo, é abrir mão de algumas atividades e tentar balancear o trabalho dentro de casa. Agora, é difícil, porque a gente se envolve de corpo e alma com um milhão de coisas. Na verdade, ela está abrindo mão. É preciso negociar. O básico é o diálogo na questão de gênero. É a partir dele que se abre espaço para a reconstrução das relações.
Eu já achei todas as datas comemorativas a maior babaquice. Depois, aprendi com minha mulher, que elas acabam por cumprir um papel de ritual, que é formador, contribuindo para a sensibilização das pessoas. A sociedade inteira fala sobre aquilo, você vê na TV o mundo inteiro comemorando. Então, deflagram alguns comportamentos que podem se multiplicar durante o ano inteiro, talvez a vida toda.
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher eu gostaria que fosse encarada mais de frente a questão da sexualidade, que é uma energia muito bonita que o ser humano dispõe. Eu acho que existe um barateamento muito grande da energia sexual. Ela tem que ser cultivada principalmente pelos jovens. Os adolescentes podem participar de uma nova humanidade, onde a questão da sexualidade seja vivida com plenitude e não se torne trauma. A sexualidade acaba sendo um objeto de consumo que você deseja veementemente, tenta conquistar com cajadada. É triste ver que meus filhos - como eu - estão submetidos a um processo empobrecido de descoberta da sexualidade. Eu gostaria que meus filhos fizessem a descoberta da vida sexual junto com pessoas que gostassem, que amassem. Ainda há um processo pobre e vil de comercialização da sexualidade. Acho que podemos contribuir para alterar isso."
Com a carroça na frente dos bois
Antônio Zarantonello, 53 anos, viveu grande parte de sua vida na roça de café, em Sertanópolis-PR, onde começou a trabalhar ainda criança e pôde cursar o primário. Em 1971, quando foi indicado pelos companheiros rurais pra fundar o sindicato da cidade, nem sabia o que era isso e achava que "seria bom por causa da assistência médica que chegaria com o dinheiro da contribuição, já que havia muita gente doente". Coordenou a micro-região Norte , chegou à diretoria da Fetaep-Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura do Estado do Paraná, onde, atualmente, é presidente em seu segundo mandato. Virou a mesa para implantar a CEMTRA-Comissão Estadual de Mulheres Trabalhadoras na Agricultura. A questão de gênero tinha batido forte um pouco antes, quando perdeu a mulher num acidente e ficou sozinho com os filhos. Tem um nova companheira, com quem divide a educação de três filhas e três filhos.
Quando fui eleito presidente da Fetaep, antes da posse, minha mulher foi acidentada e morreu em Curitiba, em 1990. Fiquei numa situação terrível, com filhos adolescentes, e comecei a perceber muitas coisas que nós homens não damos conta com relação à mulher. Eu comecei a ver meu filho chorando, e detalhes aparentemente pequenos que a mãe cuidava sempre de fazer ficaram nas minhas costas. Eu passei por uma situação de bastante reflexão e amadurecimento. Eu sempre fui um pouco sensível à questão da mulher, a respeitar, porque eu via minha mãe, irmãs, cunhadas, que trabalhavam dia e noite. Os homens costumavam dizer que as mulheres "ajudavam" a gente. Na verdade, elas madrugavam pra fazer as marmitas e preparar o café, depois iam para a roça. Quando todo mundo voltava pra casa, os homens já tinham encerrado seu trabalho, enquanto elas ainda tinham todo o trabalho de casa e eram as últimas que iam dormir. Sem contar que sobrava pra elas quando os filhos ou os pais adoeciam.
Mas não dá pra negar que a gente é resultado de um processo educativo que levou os homens a ver as coisas de modo diferente, a ver na mulher uma inferioridade. Então, pra superar tudo isso, fruto de milhares de anos, não é fácil. Eu tenho certeza que esse episódio na minha vida marcou bastante, injetou em mim uma força maior de compreensão na luta interior de compreender realmente essa igualdade, esse direito que a mulher tem, e que a cultura quis provar o contrário. Eu senti isso na pele, quando minha mulher morreu num acidente de uma hora pra outra e eu fiquei com toda a carga em casa. Foi uma luta de muita reflexão, mexeu muito com meus sentimentos e meus valores para eu conseguir enfrentar a situação.
No movimento sindical, eu tenho feito um esforço tremendo no sentido de reconhecer o trabalho das mulheres. Se puder tirar pedras do caminho, eu tiro. Principalmente na nossa área, onde o atraso é maior, tem falta de escolaridade, muitas vezes a comunicação não chega. A mulher urbana tem sempre uma situação que leva a se desenvolver mais, até pelo meio-ambiente, enquanto que na roça a gente é mais matuto mesmo, menos politizado, então, demora mais para que haja esse desenvolvimento, principalmente da mulher.
Eu estou vendo o avanço com muita satisfação, porque chega a surpreender. Há 8 anos, na Fetaep, não se podia sequer falar que a mulher tinha direitos, quanto mais discutir o assunto. O pessoal era bem conservador e não admitia. E com a CEMTRA, que é coordenado por Jacy V.Perin, já existem várias coordenações regionais, com muitos encontros, cursos e seminários. Inclusive, nós ganhamos demais com a Rede Mulher de Educação, por ser-mos um ponto focal. O que temos ganho de subsídios com encontros, cursos, oficinas, não é brincadeira.
Hoje, os próprios presidentes de sindicatos que tinham um pé atrás com esta questão, puxam o carro, ajudam, caminham juntos. É uma grande evolução, mas, se durante muito tempo foi feito o contrário, não é de uma hora para outra que vai mudar completamente.
Eu acho que a violência contra a mulher no campo é ainda maior, porque o homem é mais machista. Muita mulher não pode nem falar alto, porque já é coibida, tem que estar submissa ao homem. Ainda tem homem que bate na mulher, quando ela volta do ginecologista e conta como foi o exame. Sempre que elas vão se consultar, eles só aceitam se for com médica. Aos poucos vai melhorando, com nossos cursos.
Hoje, há muita mulher em cargos de direção sindical e muitas delas dão de 10 a 0 nos homens. Elas enriquecem o movimento. Depois de tudo o que passei, eu não entendo a gente resistir à presença da mulher nas organizações, no poder. Juntos, a gente acerta muito mais.
Nunca vi uma mulher na sala de tortura
Hamilton Faria, 49 anos, casado, com formação em economia, sociologia e antropologia, é presidente do Polis - ONG voltada para a construção e formulação de políticas públicas na área urbana - e professor da FAAP, mas é movido pela poesia, tendo publicado quatro livros. Do mais recente, "Encântaros", ele nos brinda com o poema abaixo. Foi militante político, através do movimento estudantil. Ficou preso um ano e sofreu tortura. Muito tocado pela questão do feminino, faz questão de frisar que seus torturadores eram homens, cujas mulheres, com certeza, jamais souberam de suas práticas. Se tivessem conhecimento dessa barbárie, com certeza os abandonariam.
Acredita que a humanidade só vai avançar quando resgatar o olhar feminino.
Eu sempre tive um convívio muito intenso com as mulheres. Eu costumo dizer que no campo da literatura meu pai trouxe a palavra e minha mãe o sonho. Eu compreendi bem cedo o universo da mulher, talvez iniciando com a solidariedade à minha mãe, no sofrimento dela, criando seis filhos e com a cobrança de meu pai que nem sempre se mostrava muito contente. Depois eu vim a entender a tarefa dele, de manter dez bocas. Também aprendi muito com minhas irmãs mais velhas, minhas tias e namoradas. Eu me lembro que uma delas estava ameaçada de engravidar e quando a confirmação foi negativa, eu fiquei feliz, mas desconhecia todo o processo de fragilidade a que ela esteve submetida. A imagem da mulher sempre foi muito forte pra mim. Sua ausência nas salas de tortura na época da ditadura militar serviu para fortalecê-la ainda mais em minha mente.
Eu adoro ser poeta e acho que, na verdade, a poesia é em si uma fala feminina, a gente fala pelo lado feminino da alma. Sinto que há uma necessidade premente da feminização do mundo, da recuperação desse princípio, desse almar-se com o feminino. O homem tem que começar a compreender esse universo, para que haja um avanço da humanidade. São milhares de anos de patriarcalismo: a história é contada pelos homens, as revoluções são feitas por eles, a modernidade foi imposta por eles, os discursos são deles...
O que mais importa não é a emergência da mulher, mas do princípio feminino, que implica em novas relações com os outros, com a natureza e com a natureza interior. Pensar no desenvolvimento no feminino, é pensar em algo mais voltado para as comunidades, para a organização da vida cotidiana. O processo de globalização talvez seja a maior criação do masculino e depois disso já não tem mais nada. Enquanto os homens pensam nas grandes globalizações, a mulher está pensando numa qualidade de vida do cotidiano, do local para o global.
O ato de feminilizar o mundo não é o ato de enfraquecê-lo, mas de engrandecê-lo.
No âmbito das ONGs, eu acho que elas ainda estão muito fechadas ao discurso de gênero, não conseguem entender como seus projetos podem ter essa perspectiva. O movimento de mulheres teria que ganhar mais expressão, principalmente num trabalho maior com os homens. Também não tenho certeza de que o movimento feminista tenha superado sua herança do entendimento dos opostos, quer dizer, a afirmação das mulheres se dá pela negação do homem. Observo que estão faltando todas as características femininas, como a delicadeza, a generosidade, a amorosidade, o afeto, a compaixão, a intuição... É dessa forma que o movimento feminista vai penetrar em horizontes inatingíveis.
Eu acho que a literatura constrói o homem de maneira forte e a mulher como uma pessoa cheia de fragilidade. Entretanto, hoje, já há uma emergência de mulheres escritoras. Então, o nosso imaginário está sendo construído também pelas mulheres. A literatura feminina é algo muito visceral, um processo de resgate, de contemplação da natureza, de delicadeza, de rasgar-se inteira para constituir o verdadeiro ser.
FÊMINA
Quisera dormir no feminino
e acordar dizendo o mundo em fêmina
A sol A dia A mar Ah! Céu
Dulcíssimo o mundo se ergueria
de leve
por trás de um véu
leve
Amando palavras de açúcar
e plumas
minha levez
seria
maravilhosamente demais
Não sei se sou capaz
Então
pra não acabar o encanto
repousaria antes de falar
e após o amor me calaria
Mulher que sabe dar
Vem Vou dormir em paz
A mulher negra sofre dupla discriminação
O jornalista Flávio Carrança - 45 anos, casado, três filhos - tomou contato com a luta das mulheres, quando era ativista do Movimento Negro Unificado, na década de 70, época em que havia uma discussão muito intensa em todas as áreas.
Também editou a revista "Pode Crer" - idealizada por grupos de rap formados por jovens, no Geledés, uma organização feminista do movimento negro.
Acha que a mulher negra tem uma batalha dupla - a de gênero e a racial - e que existe, hoje, menos pressão social para que essas questões estejam presentes de forma mais constante na mídia, além da dificuldade que os movimentos têm de mudar a linguagem e sair do jargão militante.
Eu tive uma experiência de vida militante política muito precoce, ainda na adolescência, através do movimento estudantil. De uma maneira menos clara, já dava para perceber a questão de gênero, além da vivência cotidiana com minha irmã, que já era uma pessoa que tinha uma proximidade com o movimento de mulheres, apesar de não ser tão organizado naquela época. Discutia-se todas as questões políticas ligadas à situação do país e do mundo, assim como os problema raciais e de gênero, entre outros. Minha mulher também é jornalista e fez um programa feminino na TV Cultura. Então, havia uma preocupação com isso dentro de casa também, além do interesse pela informação.
Embora o mundo esteja mudando, ainda é hegemônica a forma de relacionamento em que a situação da mulher é de inferioridade. Então, há a opressão ideológica no sentido de você se acomodar e usufruir das vantagens da hegemonia. É uma questão de estar atento, de se ter o retorno no dia-a-dia das situações onde há o exercício da opressão. Eu procuro o equilíbrio, embora tenha que estar atento para não fraquejar, porque realmente é mais cômodo. Pela experiência de vida que eu tive, tenho essa consciência de saber que normalmente num relacionamento entre os dois sexos a tendência é a de se configurar uma situação de desigualdade onde quem sai perdendo é a mulher.
Na verdade, a situação da mulher negra na sociedade é parecida, com o agravante da questão racial. Acho que são os mesmos conflitos que uma mulher de qualquer raça passa, com o agravante de que a questão de gênero se soma a uma opressão de caráter racial.
A mídia tem o papel de contribuir para denunciar a existência de preconceitos e de situações de opressão. Geralmente, ela só se volta para essas questões nas datas comemorativas: no dia 8 de março, fala da mulher; no dia 20 de novembro - aniversário da morte de Zumbi -, lembra-se dos negros.
A mídia também está envolta na ideologia dominante. Não existe uma preocupação acentuada com a transformação dessas situações vinculadas ao cotidiano. Há alguns anos, quando havia uma vida político-militante mais intensa, com freqüência apareciam fatos que geravam aglutinação de gente em torno deles, exercendo uma pressão social no sentido de tornar aquelas questões mais presentes na mídia. Por outro lado, acho que existe uma dificuldade por parte dos movimentos, no sentido de tentar penetrar nos meios de comunicação de massa, numa linguagem que seja palatável pela mídia. Normalmente, é uma linguagem meio esbravejante, num jargão militante, que cria um certo distanciamento. Os movimentos deveriam partir para uma outra estratégia para conseguir a penetração nos meios de comunicação de massa.
Espero que os núcleos organizados continuem com suas lutas, pois eles são importantes formas de pressão em qualquer sociedade. Também gostaria que existis-se uma experiência acumulada das lutas que foram travadas através dos tempos, e que a consciência da necessidade de continuidade fosse transmitida através das gerações.
Entre as várias mulheres fortes que conheci, destaco a Sueli Carneiro - uma pessoa com uma vivência internacional do movimento negro, que está sempre presente nas discussões, e a Dulce Pereira, que também tem uma trajetória nessa luta.
Os espaços educativos vão além da escola
Sérgio Haddad, 48 anos, casado, um filho e uma filha, tem formação em economia e sociologia da educação. Divide seu tempo como secretário-executivo da Ação Educativa - ONG que trabalha com a temática de educação e juventude - e lecionando história e filosofia da educação, no programa de pós-graduação da PUC. Considera fundamental a educação sexual e de gênero nas escolas, mas acha que os/as professores/as estejam despreparados. Em sua opinião, as pessoas apostam na escola como um espaço salvador e se esquecem que uma quantidade imensa de jovens está em crise de identidade com a escola. Também acha que a parcela que cabe à escola é pequena perante a força educativa da sociedade, como os meios de comunicação, e a influência sofrida com a perda de espaços de formação, como os rituais comunitários.
Não há um programa específico de gênero na Ação Educativa. O tema foi pautado há dois anos, por sugestão de organismos internacionais que nos financiam. A avaliação mostrou que internamente era uma questão que não era tratada de maneira específica e que, principalmente por trabalharmos com educação, deveríamos tecer o recorte de gênero em nossos projetos. Passamos a incorporar essa variável em nossas atividades de pesquisa. Sob o ponto de vista da participação da mulher internamente, a questão é tratada de forma muito prática, porque as mulheres daqui são muito fortes e competentes, como a Vera, a Maria Clara....
No plano pessoal, acho que é uma questão entre aquilo que você acredita e o seu universo cotidiano. A tradição cultural está enraizada. A gente passa o tempo todo tentando organizar, influir, mudar o olhar e padrões, num contexto mais global da própria cultura, buscando os canais para intervir. Eu faço parte da primeira geração de brasileiros da minha família, onde o homem teve um papel importante como provedor. No entanto, meu pai morreu quando eu tinha 13 anos, e a minha mãe assumiu o traia-lho e a formação de três filhos, tornando-se uma figura muito forte para mim. Isto fez com que eu ficasse mais sensível à questão de gênero. Minha mulher sempre trabalhou, ela é educadora também. Agora, eu não tenho dúvidas de que acabou sobrando muito mais pra ela, apesar de nunca ter havido uma cobrança nesse sentido.
Eu não tenho dúvidas de que o aumento assustador do número de mães adolescentes deve-se à falta de informação. Durante muitos anos, eu fui diretor do Santa Cruz, um curso supletivo noturno, que era um verdadeiro laboratório para se trabalhar essa questão. Em sua maioria, eram empregadas domésticas e office-boys. Nós sempre fizemos um trabalho de esclarecimento, curricular e extra-curricular. Eu acho fundamental um trabalho de esclarecimento, porque há uma profunda desinformação. Há uma dificuldade enorme de se discutir dentro de casa. Também não é fácil para as escolas, porque os/as professores/as estão despreparados/as e não vão trabalhar de maneira adequada. A gente joga uma expectativa muito grande na escola, uma certa esperança de formação em todos os aspectos, esquecendo-se que a sociedade é educativa. O que é a escola perante a mídia e as relações pessoais? Nas cidades urbanas, os hábitos familiares corriqueiros e os rituais comunitários deixaram de existir, perdendo-se importantes espaços de formação. Nessa loucura, a gente acaba apostando na escola como um espaço salvador. Acontece que nós está-mos numa crise de identidade, ou seja, o jovem tem mugi-to menos identidade com a escola do que nós tínhamos. O desemprego está aí, e a escola já não é mais aquele barato de antigamente, um valor em si. É essa escola que vai tratar dessas questões? O corredor da escola vai formar muito mais. Eu não estou desqualificando a escola. Sem dúvida é um espaço de educação significativo, mas o peso dela é pequeno perto das outras "forças" educativas.
Eu gostaria de dizer que as organizações feministas desenvolvem um papel importante na educação de gênero. Até recentemente, elas lutaram para pautar a questão. De alguns anos para cá, a luta é pela intervenção que podem fazer, no sentido de mudar comportamento, do impacto cultural sobre as ações nos vários campos. Eu faria um paralelo com a educação de adultos. Durante muitos anos a gente bateu pra dizer que ela existia. O que eu percebo, é que a gente precisa cada vez mais de um conceito básico sobre educação de adultos por adesão, e não porque ela faz parte do núcleo central de preocupações que a gente tem.
Na questão de gênero, alguém pode aplicar algo porque é politicamente correto. Isto vai acontecer justamente por não estar incorporado a um conceito geral do que é cidadania. A intervenção por oposição chegou no seu limite. O grande desafio é enquadrá-lo no contexto global da sociedade."