![]() |
|
Cunhary Informa nº 29
Uma publicação da Rede Mulher de educação
Editora: Vera Vieira
Tiragem: 3.000 exemplares
Apoio: Novib/Holanda
Rio das Mulheres
CARTAS
Colabore com a manutenção do CIM
Em reunião ocorrida em 22/06/98, na sede do CIM - Centro de Informação, Mulher, decidiu-se pelo lançamento de um movimento em sua defesa, visando a manutenção de sua sede à Praça Roosevelt, 605, em São Paulo, que abriga dezessete anos de informação e documentação da luta da mulher no Brasil e no mundo. São livros, periódicos, recortes de jornais, panfletos, cartazes, vídeos, fotografias etc., catalogados e organizados para informação e pesquisa.
Estamos buscando articulação e apoio das entidades ligadas à luta da mulher, a fim de organizar e reativar debates e reuniões periódicas. Pretendemos ainda organizar cursos para cooperar na formação e instrução das mulheres, como computação básica (windows, word, excel, access, internet), inglês, corte e costura, entre outros.
Lembramos que o CIM funciona de segunda à sexta-feira, das 9h às 16h. Venha nos visitar, deixar seu endereço para estar sempre a par de nossos encontros, debates, reuniões, movimentos etc. Há também a vontade de reativarmos nosso Café Feminista. Vamos nessa?
CIM - Centro de Informação Mulher
Telefax: (011) 256-0003
São Paulo/SP
Mulheres em vigília pela vida
Na qualidade de sócia-educadora, gostaria de divulgar e solicitar o apoio dos/as leitores/as deste Cunhary, à luta desencadeada pelo Movimento Social de Mulheres da Colômbia, no sentido de denunciar a violência que os filhos/as daquele país vêm sofrendo. Todo dia 18 (data do último grande massacre, onde um de seus companheiros de trabalho foi assassinado), as mulheres se reúnem na Praça, desenhando com velas e flores o mapa da Colômbia, assinalando os lugares dos massacres. É uma manifestação silenciosa em virtude de possíveis represálias.
No encontro sobe Educação de Adultos, realizado na Bolívia, em junho/98, promovido pela REPEM/CEAL, mulheres representando catorze países, sendo nove da América Latina, comprometeram-se em enviar moções de apoio, num gesto de solidariedade para que não desanimem na árdua tarefa de conquistar a paz.
Nesse sentido, gostaria de solicitar o apoio de todas as pessoas, cuja moção pode ser enviada para Vírginia Parra, Avenida Piedra, 14-41, Fusagasugá/Colômbia, telefax (91)867-2768, e.mail: internet solyluna @colnodo.org.co
Maria José Lopes Souza
Campinas/SP
Escola de Formação da RME
Acabamos de receber o folheto com os cursos para o segundo semestre/98, que estamos circulando entre o pessoal do IBAM, principalmente aqueles que atuam na área de desenvolvimento econômico e social, cujas atividades têm afinidades mais diretas ao trabalho de capacitação que estão desenvolvendo.
Mandamos nossos sinceros parabéns por mais esta iniciativa e votos de pleno sucesso
na realização destes cursos e na consolidação da Escola de Formação da Rede Mulher de Educação.
Mara Biasi Ferrari Pinto
IBAM - Rio de Janeiro/RJ
Assédio sexual na Siemens
Bárbara Daniele, secretária, 22 anos, casada, residia em Angra dos Reis, onde trabalhava para a empresa Siemens, desde 96, quando passou a viver o assédio cada vez mais intenso de seu chefe. Inicialmente, ignorou as investidas - estratégia que não teve sucesso. Neste período, montou um bar com seu marido, com medo do desemprego iminente. Seu chefe lá esteve. Aprontou um escândalo. Porque passou a recusar abertamente as cantadas, foi demitida da empresa em fevereiro deste ano. O bar foi fechado, pois os clientes não voltaram depois do escândalo aprontado pelo chefe. Diz Bárbara: "Eu fui demitida como um cachorro, quando me apresentei para trabalhar e é isso. Ele acabou com meu bar, tirou meu emprego, desestruturou minha vida e quase acaba com meu casamento."
Mas, Bárbara, mulher negra, resolveu ir mais longe. Em fevereiro recorreu ao SOS Racismo, do CEAP, que a encaminhou para CRIOLA. Sue interesse: justiça e reparação! Nosso interesse: o fim do assédio sexual que agride as mulheres negras desde a escravidão. Queremos também reparação para Bárbara e para todas as mulheres. Assim, no dia 06/04, entramos com queixa-crime em Angra dos Reis, contra o chefe de Bárbara. No dia 07/04, no Tribunal Regional do Trabalho, demos entrada a uma ação contra a empresa. Fizemos um ato público na porta. No dia 17/05, no TRT, aconteceu a primeira audiência sobre a denúncia de assédio sexual na empresa. O acusado não apareceu. A empresa protelou. Neste dia, fizemos novo ato público, com boa cobertura da mídia. No dia 02/07, aconteceu a segunda audiência no TRT, com ato público na porta.
Cartas de apoio devem ser enviadas para CRIOLA, telefax (021) 220-9819, e.mail: criola@ax.ibase.org.br
CRIOLA
Rio de Janeiro/RJ
Boas Novas
Concurso: Gestão dos Direitos das Mulheres
No marco da Campanha da ONU pelos Direitos Humanos das Mulheres - "Uma vida sem violência é um direito nosso"-, o UNIFEM e o Programa de Gestão Urbana para a América Latina e Caribe convocam para um concurso que vai premiar municípios que tenham se destacado no recolhimento dos direitos das mulheres, dos jovens e das crianças, e que em suas políticas, planos e programas tenham incorporado uma proposta, uma metodologia e recursos para garantir a aplicação desses direitos. Podem participar os governos locais individualmente, as associações de municípios nacionais ou regionais, centros, fundações e Ongs que trabalhem temas de desenvolvimento local, agências de cooperação, organizações comunitárias, agências do estado que trabalhem temas de desenvolvimento local, agência de cooperação, organizações comunitárias, agências do estado que trabalhem na descentralização e temas sociais, assim como pessoas individualmente.
As inscrições devem se basear na seguinte pauta: dados de contato, resumo do caso (300 palavras), conteúdos da experiência, resultados, lições aprendidas, apoios à inscrição (será dada ênfase especial aos apoios de organizações e/ou movimento de mulheres) e a documentação do caso apresentado. O prazo para inscrição vai até 10/10/98.
(UNIFEM - Q2 - Bloco A, Módulo 602 - CEP 70712 - Brasília/DF).
Prêmio Cidadania Mundial 98
A comunidade Baháí, desejando homenagear pessoas e instituições que promovam a "Unidade do Gênero Humano", abre as inscrições para a quarta edição do Prêmio Cidadania Mundial/98. Serão priorizadas instituições e pessoas que promovam uma educação para cidadania e paz, nas categorias Cidadania Mundial, Direitos Humanos, Direitos da Mulher e Meio-Ambiente. As inscrições vão até 31/08/98 e devem conter nome, endereço, breve currículo, justificativa para que mereça o Prêmio e qualquer material adicional (fotos, jornais, vídeo, livro etc.). Encaminhar para: Prêmio Cidadania Mundial/98, Caixa Postal 7035, CEP 71619-970, Brasília-DF, fone (061) 364-3594.
Aprendendo a fazer lobby
A oficina "Gênero, Educação e Cidadania - Influência nas Políticas Públicas" foi realizada no período entre 22 e 25/06, em Santa Cruz de la Sierra, com a participação de 35 mulheres e um homem, representando catorze países, dando prosseguimentos às plataformas de ação da Conferência de Hamburgo/97, sobre "Educação de Adultos", e à Conferência sobre a Mulher, de Beijing/95. "O programa desenvolvido durante o encontro contribuiu sobremaneira para avançarmos na influência das políticas públicas", diz Maria José. O Brasil está entre os cinco países selecionados para a futura construção de um índice que servirá de instrumento para monitorar alguns acordos das conferências de Hamburgo e Beijing.
Novo projeto da RME: "Superando Obstáculos nas Estratégias de Combate à Violência contra a Mulher"
A Rede Mulher de Educação iniciou um projeto em forma de laboratório, do qual participam peritas de Ongs e órgãoa públicos, especializadas na àrea de violência conta a mulher. Uma oficina intensamente preparada à distância e que se realizará em Campinas, durante o mês de outubro, aprofundará, em relação às estratégias de combate à violência contra a mulher no Brasil, os "nós" de estrangulamento que encontramos no trabalho cotidiano e os "elos" que precisam ser reforçados para um maior impacto das inúmeras ações que vêm sendo desenvolvidas. Através deste projeto, pretende-se trazer uma contribuição específica no contexto da Campanha Latino-Americana sobre os Direitos das Mulheres, do UNIFEM - Fundo das Nações Unidas para a Mulher. Pretende-se, também, trazer um apoio às iniciativas do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em relação ao tema. E, de maneira particular, busca-se dar um apoio significativo ao cotidiano das mulheres que dedicam grande parte de suas energias para a superação dos obstáculos que impedem a aplicação das estratégias e planos de ação já traçados. Um documento será redigido como resultados da oficina, bem como uma edição especial do Cunhary, com doze páginas. O projeto tem o patrocínio da GTZ e conta com o apoio do UNIFEM e do SOS Ação, Mulher e Família, de Campinas.
Encarte Especial - Cunhary Informa - Ano VI - Número 29 - junho-julho/98
Moema Viezzer - pesquisa e redação
Vera Vieira - edição e tradução
Fontes: Womens Views on the Earth Charter/Boston Research Center for the 21 st Century; Ideas for a Word Environmental Education Charter/ ICAE; Documentos Terraruna.
A CARTA DA TERRA
Está prevista para servir de código de conduta universal, baseada em valores e princípios fundamentais, que guiarão as pessoas e as nações ao desenvolvimento sustentável, para a construção de um mundo de paz e equilíbrio.
Propõe-se que seja endossada pelas Nações Unidas até o ano 2000 e que seja o equivalente à Declaração Universal dos Direitos Humanos, apropriada para os tempos atuais. Foi a partir de 1972, que a segurança ecológica passou a ser uma das principais preocupações da ONU. Durante a ECO-92, formou-se uma secretaria Internacional para dar prosseguimento ao projeto Carta da Terra. Desde 94, um número expressivo de Ongs no mundo inteiro participam ativamente do processo de consulta. A coordenação principal desta iniciativa concentra-se basicamente no Conselho da Terra (Earth Council), fundada pelo canadense Maurice Strong e sediada na Costa Rica (e.mail: echarter@terra.ecouncil.ac.cr - home page: http://www.earthcharter.org) e na Cruz Verde Internacional, fundada por Mikhall Gorbachev e sediada em Genebra (e.mail: secretariat@gci.ch - home page: http://www.gci.ch). As mulheres de todo mundo vêm se mobilizando para garantir o princípio feminino visível na Carta da Terra. É muito importante que as mulheres brasileiras participem ativamente deste processo.
No Brasil, o Governo do Estado de Mato Grosso, a Unesco e o Unicef estão realizando uma campanha de consciência nacional sobre a Carta da Terra, aspirando a que governos, Ongs, grupos religiosos, acadêmicos e organizações empresariais se envolvam e contribuam com este processo. As discussões baseiam-se numa análise das Implicações éticas, políticas, econômicas e culturais do draft de referência da Carta da Terra. O responsável é Carlos Maldonado, um dos criadores da Ong ambientalista Creatio, e os contatos para participação podem ser feitos pelo fax (065)624-6402, e.mail: cmaldonado@nutecnet.com.br . Em São Paulo, formou-se o grupo Terrauna, com a participação de outros estados, com o objetivo de unir suas forças com as de outras organizações ativas no Brasil e América Latina. Os membros do grupo representam os setores empresarial, da educação e da saúde (fax - 011 - 3043-7610, e.mail: terrauna@postnet.com.br , a/c Juan Szemere e Moema Viezzer). Uma consulta Nacional está a caminho. Para participar neste processo, basta entrar em contato com um dos endereços acima indicados, onde serão obtidas informações sobre comissões existentes em cada Estado ou redes de referência com as quais você pode articular-se e, inclusive, criar um grupo local específico.
Uma Conferência das Américas ocorrerá em Cuiabá- MT, no período entre 30/11 e 05/12/98, para uma primeiras síntese continental sobre o tema, com a participação de 150 delegados de quinze países, sendo um por Estado do Brasil.
Espera-se que a participação das mulheres na Carta da Terra ocorra com a mesma força e impacto das diversas Conferências e Fóruns Mundiais destes últimos vinte anos, que marcaram a diferença no avanço da consciência da humanidade
O princípio feminino visível na Carta da Terra
por Moema Viezzer
Há pouco mais de 200 anos, foi redigida a primeira Declaração dos Direitos Humanos, no contexto da Revolução Francesa. Neste ano, estamos comemorando o 50o Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 1948 pela Organização das Nações Unidas. O que é incrível é que durante a Conferência Mundial das Nações Unidas de 1995, em Beijing, China, sobre Mulher, Desenvolvimento e Paz, ainda se fez necessário aprovar como um item em si, o seguinte: "Os direitos das mulheres são direitos humanos". E isto apoiado numa campanha internacional que antecedeu o evento, resultando no recolhimento de milhões de assinaturas.
De fato, estamos conhecendo uma nova etapa na consciência da humanidade, que passa pela visibilidade, aceitação, respeito e elogio à diversidade. No bojo da mesma diversidade existente na espécie humana: entre mulheres e homens - biologicamente diferentes pelo sexo que os marca ao nascer -, mas diversos também em raça, cor, etnia, idade, setor e classe social, escolaridade, opção religiosa ou política, entre outros.
Uma das características da reflexão e das ações empreendidas nestes últimos anos é a busca da igualdade dos direitos humanos, acolhendo a diversidade de condições e superando os obstáculos que ainda mantêm a discriminação nas suas variadas formas: física, psicológica, ideológica, religiosa...
Como parte deste avanço, a humanidade se percebe cada vez mais como parte da Natureza, uma espécie dentre as demais espécies que povoam o planeta, composta de seres de luz que interferem em seu ambiente de maneira muito especial, e que necessitam estabelecer relações de maior equilíbrio e harmonia com seu entorno.
A carta da Terra é isto: um processo de reflexão e aprendizagem coletiva que deverá resultar numa Declaração Universal dos Direitos da Terra e dos compromissos da Humanidade com ela, e um Movimento Ético respeitoso e acolhedor da diversidade em todas as suas manifestações, na medida em que as mesmas são propícias à proteção da "Terra Una".
Vale a pena participarmos plenamente neste processo. Vale a pena também, no interior do mesmo, acolher as contribuições trazidas pelo movimento de mulheres. Ele trouxe à luz a necessidade do reequilíbrio entre a produção de bens e serviços e a reprodução da vida em todas as suas dimensões (biológica-material-psicológica-social-espiritual) como condição indispensável para a manutenção da vida na Terra.
Recuperar o princípio feminino da Natureza é tarefa que diz respeito a cada um/a de nós. É um compromisso com o equilíbrio Yin-Yang dentro de nós mesmos/as, mas nos leva também à revisão de todas as formas de organização e de convívio em sociedade. É de fundamental importância que a Carta da Terra reflita este avanço da consciência da humanidade, que traz implícita a necessidade de fazer emergir o princípio feminino presente em todos os seres vivos, humanos ou não, e em Gaia, nossa Mãe Terra, a "Pachamama".
Este convite que nos chega às vésperas do Terceiro Milênio é muito importante. Por este motivo, a Rede Mulher de Educação traz este encarte especial do Cunhary, com algumas informações sobre a Carta da Terra enquanto declaração/processo/movimento, incluindo algumas reflexões de mulheres que já se debruçam sobre a Carta (ver ponto de vista do Coletivo de Mulheres de Boston para o Século XXI).
Este Cunhary também é um convite de todas as pessoas a trabalharem os 18 pontos consensuados (ver adiante), com uma visão abrangente, holística.
Carta da Terra: valores e princípios éticos para um mundo sustentável
O papel e o significado da Carta da Terra podem ser melhor entendidos no contexto dos progressivos esforços das Nações Unidas para identificar as questões fundamentais relativas à segurança mundial.
Quando da criação da ONU, em 1945, entre os temas de discussão na perspectiva da segurança mundial, destacavam-se a paz, os direitos humanos e um desenvolvimento eqüitativo. Durante os primeiros anos de existência da ONU, a questão ambiental ainda não se colocava como uma preocupação comum, da mesma maneira que se dava pouca atenção ao bem-estar ecológico. Não obstante, desde a Conferência de Estocolmo sobre Entorno Humano, em 1972, a segurança ecológica passou a ser a quarta preocupação principal das Nações Unidas.
Podemos identificar a partir daí, os seguintes marcos:
1987: A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento sustentável.
1992: A ECO-92 iniciou o processo e chegou a um primeiro consenso sobre a "Declaração de Princípios do Rio". Formou-se uma secretaria internacional com a incumbência de dar prosseguimento ao projeto Carta da Terra.
1995: Seminário Internacional sobre a Carta da Terra, em Haia, na Holanda, onde se definem necessidades, elementos principais e a forma do processo de construção.
1996: Inicia-se com vários grupos de consulta, como parte da preparação para a Rio+5.
1997: Constitui-se uma Comissão da Carta da Terra, chegando-se, durante a Rio+5, a uma primeira minuta de referência.
Qual a razão de uma Carta da Terra?
A transição para a sustentabilidade requer mudanças básicas nos valores, no comportamento e nas atitudes do governo, do setor privado e da sociedade civil. Em última instância, a sustentabilidade dependerá das decisões que os cidadãos e cidadãs tomem com relação aos estilos de vida que querem ter.
É inegável a existência de um crescente interesse espontâneo de pessoas, instituições e organizações governamentais e não-governamentais, por iniciativas que têm como objetivo a busca de desenvolvimento e convívio com mudanças. A Carta da Terra, por sua característica consensual, simples e universal, pode representar o movimento integrador e força aglutinadora, na busca de um denominador comum deste processo.
A Carta da Terra está prevista para servir de código de conduta universal, baseada em valores e princípios fundamentais, que guiarão as pessoas e as nações ao desenvolvimento sustentável, para a construção de um mundo de paz e equilíbrio. Poderá ser uma síntese da esperança de pessoas de dezenas de países do que significa um mundo melhor. Propõe-se que seja endossada pelas Nações Unidas até o ano 2000 e que seja o equivalente à Declaração Universal dos Direitos Humanos, apropriada para os tempos atuais.
No coração da nova ética global emergente existe um amplo sentido de comunidade. Cooperação e responsabilidade que engloba todos os seres humanos as gerações futuras e a comunidade vivente na Terra.
Pontos de consenso da Carta da Terra
(aprovados durante a Rio+5 - março/97)
1 - Respeitar a Terra e toda vida. A Terra, toda forma de vida e todos os seres vivos possuem um valor intrínseco e têm o direito ao respeito, sem levar em conta o seu valor utilitário para a humanidade.
2 - Cuidar da Terra, protegendo e restaurando a diversidade, a integridade e a beleza dos ecossistemas do planeta. Onde houver risco de dano grave ou irreversível ao meio ambiente, uma ação preventiva deve ser adotada a fim de evitar prejuízo.
3 - Viver de modo sustentável, promovendo e adotando formas de consumo, produção e reprodução que respeitem e salvaguardem os direitos humanos e a capacidade regenerador da Terra.
4 - Instituir justiça e defender, sem discriminação, o direito de todas as pessoas à vida, à liberdade e à segurança pessoal, dento de um meio ambiente adequado para a saúde humana e o bem-estar espiritual. As pessoas têm direito a água potável, ar puro, solo não contaminado e à segurança alimentar.
5 - Compartilhar eqüitativamente os benefícios do uso dos recursos naturais e de um meio-ambiente saudável entre as nações, entre ricos e pobres, homens e mulheres, e gerações presentes e futuras, internalizando todos os custos ambientais, sociais e econômicos.
6 - Promover o desenvolvimento social e sistemas financeiros que criem e mantenham meios sustentáveis de subsistência, erradiquem a pobreza e fortaleçam as comunidades locais.
7 - Praticar a não-violência, reconhecendo que a paz é o todo criado por relações harmônicas e equilibradas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras formas de vida e com a Terra.
8 - Fortalecer processos que capacitem as pessoas a participar efetivamente no processo decisório e que assegurem a transparência e o dever da prestação de conta no exercício do governo e na administração de todos os setores da sociedade.
9 - Reafirmar que, às Populações Nativas e Tribais, cabe um papel vital no cuidado e proteção da Mãe Terra. Elas têm o direito de preservar sua espiritualidade, seus conhecimentos, terras, territórios e recursos.
10 - Afirmar que a igualdade de gênero é um requisito do desenvolvimento sustentável.
11 - Assegurar o direito à saúde sexual e reprodutiva, com preocupação especial para com as mulheres adultas e jovens.
12 - Promover a participação dos jovens, na qualidade de agentes responsáveis de mudança, visando à sustentabilidade local, bioregional e global.
13 - Fazer avançar e aplicar o conhecimento científico e de outra natureza, bem como tecnologias, que promovam meios de vida sustentáveis e protejam o meio-ambiente .
14 - Assegurar que todas as pessoas tenham, ao longo de sua existência, oportunidades de adquirir conhecimento, os valores e as habilidades práticas necessárias para criar comunidades sustentáveis.
15 - Tratar todas as criaturas com bondade e protegê-las da crueldade e do aniquilamento arbitrário.
16 - Não fazer ao ambiente dos outros o que não queremos que façam ao nosso.
17 - Proteger e restaurar áreas de extraordinário valor ecológico, cultural, estético, espiritual e científico.
18 - Cultivar e praticar um sentimento de responsabilidade compartilhado pelo bem-estar da Comunidade da Terra. Toda pessoa, instituição e governo têm o dever de promover metas indispensáveis de justiça para todos, sustentabilidade, paz mundial, respeito, cuidado para com a comunidade de vida mais ampla.
A Visão das mulheres a partir da Conferência do Coletivo de Boston para o Século XXI
O Centro de Pesquisa de Boston para o Século XXI é um instituto internacional pela paz, fundado em 1993, que promove o diálogo entre acadêmicos e ativistas, voltado para valores comuns de diferentes culturas e religiões, objetivando contribuir com uma ética global para um pacífico século XXI. Direitos Humanos, não-violência, harmonia ecológica e justiça econômica são os pontos centrais do trabalho do Centro.
Em 1997, realizou uma conferência cujo foco central de atenção estava voltado para a Carta da Terra, com a presença de diversas mulheres, representando lideranças que atuam em causas pela paz, justiça social e meio-ambiente, e do Secretário d Carta da Terra. A variedade de perspectivas dessas mulheres é singular ( expressas sucintamente nas frases a baixo) e visa garantir o progresso futuro da Carta da Terra. O espírito de solidariedade permeou a conferência, remetendo a um claro sinal de que é exatamente disto que a humanidade necessita para transformar o insustentável sistema político, social e econômico que nos envolve.
O movimento de mulheres sempre insistiu em frisar que os objetivos de igualdade, desenvolvimento e paz são aspectos inseparáveis da problemática do desenvolvimento. As mulheres também vêm alertando para o fato de que a destruição ambiental envolvida no modelo de desenvolvimento industrial e militar, e sua forma tecnológica pós-industrial, têm ameaçado seriamente o alcance desses três objetivos. Ao mesmo tempo, a espiritualidade presente no movimento ecofeminista vem articulando novas visões do planeta, como uma comunidade de espécies interconectadas e uma nova consciência do potencial de evolução desta comunidade.
O novo modelo de desenvolvimento - que a Carta da Terra personifica - traz junto muito do que o movimento de mulheres tem aprendido em sus lutas contra o patriarcalismo das instituições econômicas e sociais. E a violência contra a mulher e o planeta reflete igualmente as relações de dominação-subordinação existentes.
Mas, como bem frisou Daisaku Ikeda, fundadora do Centro de Pesquisa de Boston, "a Carta da Terra irá provar que os seres humanos possuem a coragem e a sabedoria, assim como uma inabalável solidariedade, para determinar nosso próprio destino".
Depoimentos
"Por envolver diversas formas de ação, o desenvolvimento sustentável exige mudanças no comportamento individual. Em outras palavras, como nos relacionamos com a sociedade e como nos governamos? Esta questão possui uma dimensão política e, antes de mais nada, uma profunda dimensão espiritual. "
(Maximo Kalaw, das Filipinas, Secretário-Geral do Conselho da Terra, sediado na Costa Rica)
"Eu apelo a todas as pessoas das organizações que estou envolvida - voltadas para a paz, meio-ambiente e certamente, acima de tudo, as de mulheres - a se prepararem para a consciência do trabalho de mudanças, que nós, normalmente, não definimos como parte das atividades de nossa Ongs. "
(Elise Bouding - Fundadora da Associação Internacional de Pesquisa para a Paz - EUA)
"Não são somente os governos que têm causado as crises ambientais, e sozinhos não podem modificar a situação. O comportamento humano, nossos padrões de consumo, o jeito que nos relacionamos com os outros e com a Terra contribuem para o problema... Temos que nos responsabilizar por isso. "
(Patrícia Mische - Presidente da Associação de Educação Global - EUA)
"O significado da Carta da Terra para as mulheres resulta do fato de que a direção seguida na luta dos direitos humanos das mulheres é parte de uma ética ambientalista, aumentando, assim, o apoio de um círculo maior de adeptos. "
(Susan Davis - Diretora do WEDO - EUA)
"A Terra alimenta a todos que nela vivem, do mesmo jeito que uma mãe alimenta suas crianças. É onde as mulheres têm uma conexão especial com a Terra Mãe; não somente os povos indígenas, mas todas as mulheres."
(Beatriz Schulthess - Coordenadora do Programa dos Povos Indígenas do Conselho da Terra)
"Para se ter uma Carta da Terra sem racismo e discriminação étnica, é preciso fazê-la com ênfase menos relevante (ao invés de totalmente) a um grande número de povos no mundo" -
(Esmeralda Brown - ONU/Comissão de Desenvolvimento Sustentável)
"A Plataforma de Ação da ONU transforma nosso conceito dos direitos das mulheres, ampliando-o de uma norma jurídica para uma norma ética... Os direitos das mulheres, enquanto direitos humanos não são uma limitada definição de conceito político de governo público. Mais precisamente, é relevante para o comportamento individual em casa e na esfera pública. "
(Soon-Young Yoon - Organizadora do Fórum das Mulheres/Beijing)