Edição Nº 36
Set./Out.- 99

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Encontro Nacional da Rede Mulher de Educação

 Lideranças se fortalecem para
os espaços públicos e o trabalho em rede

 Logo de início, as/os participantes, através de uma rica dinâmica, concluíram que o Encontro teria como base, a paciência; como expressão, a beleza e como ponto de equilíbrio, a sabedoria da escuta. E foi assim que transcorreu o Encontro Nacional da Rede Mulher, realizado no período entre 9 e 12 de outubro, em Itapecerica da Serra, com a presença de 35 lideranças interligadas à entidade e que atuam em diversos Estados brasileiros, além de convidadas/os.

O objetivo central foi o de fortalecer o exercício estratégico da liderança transformadora-democrática em espaços públicos, na perspectiva de eqüidade nas relações de gênero. Foi uma oportunidade de discutir conceitos e contextos da ação política, além de subsidiar para a construção, o amadurecimento e o enriquecimento de estratégias de ação local e em rede.

Através de desenho ou palavras, numa atividade de expressão e reflexão sobre a relação de cada pessoa com o poder, concluiu-se que a liderança é importante porque reúne vontades, junta energias, conduz grupos, facilita processos e dá impulsos à mudança social.

Nos processos de decisão política, a liderança transformadora depara-se com dificuldades e possibilidades. Isto ficou evidenciado  tanto no cotidiano das pessoas que exercem cargos políticos, quanto com a maioria, que participa e influencia indiretamente, através dos mecanismos de formação, informação e pressão (movimentos sociais, fóruns, mídia, articulações, conselhos). Ficou claro que é necessário conhecer o aparato institucional para influenciar nas decisões com autonomia, o que significa ter clareza, convicção e compromisso. Houve consenso com os desafios de romper com a cultura patriarcal, superar os conflitos dentro dos grupos e partidos, e atuar através de redes, articulando participações nos diferentes espaços, com ética, qualidade e compromisso social.

Em determinados momentos, torna-se necessário identificar aliados, mas tendo consciência plena da identidade global a que pertence esse aliado.

Para gerar lideranças, de fato transformadoras, é preciso trabalhar valores e posturas mais democráticas. Isto só é possível a partir da convicção, do conhecimento, da clareza nos compromissos, do exercício de ‘aprender a aprender’ e da construção de ações estratégicas.

Denise Carreira salientou que “o desafio é grande, mas o potencial é gigantesco, portanto, vamos sempre reconhecer as conquistas, sem perder de vista nossa utopia”. Maria Teresa Augusti ressaltou que “nos deparamos com um processo de aprendizagem constante e é preciso força e articulação; a Rede Mulher é isto concretamente”.

Moema Viezzer enfatizou que “a metodologia adotada pela Rede Mulher prevê a fase pré-evento, evento e pós evento, com ações de continuidade”. Cada participante recebeu o questionário ‘E agora Maria?... E agora José?... ‘ que foi discutido em plenário e cujas respostas levarão a um avanço do trabalho em rede.

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 Homens participantes entregam
carta-compromisso, pela igualdade de gênero

 “Nós, homens participantes do Encontro Anual da Rede Mulher de Educação, que discutiu a formação política das mulheres nos espaços públicos, queremos reafirmar nosso compromisso em lutar em todos os espaços de intervenção política e social, pelo direito à eqüidade de gênero, forçando mecanismos capazes de garantir a presença efetiva de mulheres em espaços hoje dominados pelos homens.

Queremos convocar os homens e mulheres, que sonham e lutam por uma sociedade justa e solidária, a darmos as mãos e, no período que se aproxima, ou seja, eleições municipais, possamos garantir a vitória de homens e mulheres comprometidos/as com a eqüidade de gênero nas políticas públicas.” 

Manoel Messias M. Silva (Centro de Defesa da Vida Hebert de Souza – Fortaleza/CE), Sebastião Soares (Secretário Municipal de Cultura de Itapecerica da Serra/SP), Emídio Gil Barreto de Carvalho (Associação Rural Artesanal Mãos Mineiras – Lima Duarte/MG) e Hamilton Faria (Instituto Polis – São Paulo/SP).

 A consultora espanhola, Menchu Ajamil, (3a./esq), depois de participar ativamente do Encontro da Rede Mulher, viajou ao Tocantins, reunindo-se com Raimunda G.Silva ((4ª./esq) e Sandra Monteiro (2ª/dir), da Secretaria da Mulher do Conselho Nacional dos Seringueiros, que é ponto focal da RME. Depois, percorreu a região do Bico do Papagaio, mantendo numerosos contatos com comunidades, assentamentos e municípios onde as quebradeiras de coco babaçu realizam um valioso trabalho de articulação, visibilidade e rede de apoio às trabalhadoras do campo. “É uma valiosa tarefa que desempenham, em condições admiráveis, pela falta de recursos”, avalia Menchu.

Além de formular projetos junto à Secretaria da Mulher, Menchu realizou vários contatos institucionais, em Brasília, para conseguir apoio técnico e financeiro da AECI (Agência Espanhola de Cooperação Internacional).

Também participou do Encontro Regional da Federação das Trabalhadoras Rurais, nos dias 16 e 17/10, organizado conjuntamente com a Secretaria da Mulher, e que aconteceu em Araguaína/TO.

“A força e a coragem dessas mulheres rurais do Norte brasileiro, com total carência de meios, me impressionaram muito. São as lideranças transformadoras do século XXI”.

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Economia solidária emerge em reuniões extras

Um grande número de participantes do Encontro se reuniu no período da noite, por quatro vezes, para discutir sobre a economia solidária, tendo em vista a necessidade de apoio para os grupos de produção e de trocar experiências. Foi elaborada uma proposta de fortalecimento à Rede de Economia Solidária, da qual a Rede Mulher vem participando através da Aliança por um Mundo Responsável e Solidário.

Constatou-se que é fundamental fortalecer a formação política das mulheres nessa área, criando um suporte para o desafio do crescimento econômico globalizado, que se apresenta como uma nova ordem política mundial. Mais uma vez, as mulheres atuam de forma diferenciada, no sentido da sustentabilidade e responsabilidade ecossocial, no que diz respeito à produção de bens e serviços. Além disso, elas continuam fazendo parte de grupos que não têm seus direitos elementares garantidos, diante do modelo econômico excludente adotado pelo atual governo do País, no bojo do processo de dominação imposto pelo sistema neoliberal.

Constataram que têm muitas ações em comum e que a Rede Mulher se constitui em um espaço de aglutinação das experiências em relação à sócio-economia com perspectiva de gênero. Daí, a necessidade de se promover a complementaridade entre os grupos de produção, associações e cooperativas, visando à participação efetiva na construção de um mercado solidário, para a conquista de um Estado democratizado, transparente, realmente participativo e includente. Foram elencadas algumas ações básicas e viáveis, por se considerarem parte de uma instituição forte (Rede Mulher), tendo como premissa o fortalecimento da mulher nos níveis local, nacional e internacional. As perguntas-chaves para as ações concretas foram: com que produzo?, como produzo?, para quem produzo?

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Mulheres em Movimento

 2000 razões para marchar no dia 25/11

 Você tem um compromisso marcado para o lançamento do Comitê Estadual São Paulo, da Marcha Mundial das Mulheres 2000 contra a Pobreza e a Violência, que vai acontecer no dia 25 de novembro (que é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, oficialmente decretado pela ONU). Logo pela manhã, as 10 horas, haverá um ato em frente ao Teatro Municipal, na Praça Ramos, com panfletagem e teatro espontâneo. À noite, das 19h as 20h30, vai acontecer o ato de lançamento, no Sindicato dos Bancários, que fica na rua São Bento, 413. Mais informações podem ser obtidas na Secretaria da Marcha, telefax: 911) 870-3876, e.mail: marcha2000@ax.apc.org .

Já está no ar o site da Marcha Mundial das Mulheres 2000 no Brasil: www.geocities.com/marcha_2000_br/ Acessando-o, você fica sabendo o que foi decidido nas reuniões já ocorridas, fica a par da agenda, descobre os grupos que já aderiram, como fazer parte da Marcha, como conseguir a camiseta, quais são as principais reivindicações e como contatar também a Comissão Internacional.

 Mulher, Trabalho e Saúde

 Com o eixo central ‘Eqüidade de Gênero e Qualidade de Vida: Desafios dos novos tempos sociais”, o II Congresso Internacional Mulher, Trabalho e Saúde reuniu, em setembro, no Rio, cerca de quinhentas pessoas oriundas de vários estados brasileiros e conferencistas de diversas partes do mundo, como África do Sul, Alemanha, Argentina, Bélgica, Bulgária, Canadá, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, Espanha, Finlândia, França, Índia, Itália, México, Nigéria, Noruega, Peru, Polônia, Quênia, Rússia, Sudão, Suécia, Suíça, Uruguai e Venezuela. Dentre os objetivos do Congresso estavam a visibilidade à produção de conhecimentos na área, o avanço na proposta de incorporação do enfoque de gênero nos estudos e na atenção à saúde das/os trabalhadoras/es, a comparação das realidades em todas as regiões do planeta e a definição de estratégias de ação. O Congresso foi promovido pela Fiocruz, Unifesp, Abrasco e RedeSaúde.

Campanha pela Proteção Social à Maternidade

 Foi iniciada, em todo o Brasil, a Campanha em Defesa da Proteção Social à Maternidade, pela manutenção da Convenção 103 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que garante às mulheres seus direitos em relação à maternidade (licença maternidade, auxílio-maternidade, proibição à demissão da gestante, serviços médicos, defesa da previdência social), conquistas importantes das mulheres em todo o mundo. As revisões que estão sendo apoiadas pela OIT representam uma perda dos direitos, como, por exemplo, a possibilidade de demissão da gestante do trabalho. Em São Paulo, o programa Cidadania Ativa, do Gabinete do Vereador Carlos Neder, com o apoio do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de São Paulo, CUT, Força Sindical, CGT e da Comissão Organizadora da Marcha Mundial das Mulheres 2000, realiza um ato de lançamento do abaixo-assinado da campanha, no dia 20/11, sábado, as 13 horas, na Câmara Municipal de São Paulo. Mais informações pelos telefones (11) 3111-2236 (Gabinete do Vereador Carlos Neder) e (11) 573-4013 (Sindsep).

Seminário Dawn-Repem discute
Reforma Política e Transformação Social

 Com a presença de trinta lideranças feministas da América Latina e Caribe, foi realizado no Rio, ente 22 e 24/10, este seminário, cuja temática foi debatida a partir de quatro eixos: Política e Poder: contexto histórico e natureza do Estado; A Institucinalização da participação das mulheres na política: cotas; Relações entre movimento social, movimento feminista e Estado; e Globalização e Estado. Este evento integrou uma série de outras reuniões sobre a mesma área temática e que estão ocorrendo nas demais regiões de atuação da rede Dawn (Alternativas de Desenvolvimento com Mulheres para uma Nova Era). A coordenação para a América Latina da rede Dawn está sediada pela Repem (Rede de Educação Popular entre Mulheres). Os eixos da temática já tinham sido delineados na primeira reunião, ocorrida em abril/99, em Montevidéo. No final do seminário, foram consensadas estratégias para Beijing+5 e Copenhagen+5. A Rede Mulher de Educação esteve presente, representada por Vera Vieira.

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Mulheres de Osasco concretizam sonho
de produção e geração de renda

 A partir do financiamento proporcionado pelo Fundo Novib de Pequenos Projetos, tornou-se realidade o Grupo de Alimentação ‘Boka Loka’, cujo trabalho vai de vento em polpa. Ele é formado por cozinheiras, quituteiras e boleiras ligadas à AME (Associação das Mulheres pela Educação), ponto focal da Rede Mulher, em Osasco, município da área metropolitana de São Paulo.

Com grande entusiasmo, as dez integrantes do grupo preparam-se, agora, para a  instalação em amplo local equipado com a contribuição de todas, o que vai permitir que se ampliem as atividades e sejam cumpridos os objetivos traçados para o ano 2000.

 Um pouco de história

 Fundada em 1984, como Associação de Mães Crecheiras, a AME conta hoje com oito creches e um centro de juventude, atendendo a mais de oitocentas crianças e jovens. Desde 1991, intensificou as atividades de capacitação, inicialmente dirigidas às trabalhadoras da entidade, como o programa ‘Capacitar’, desenvolvido  pela Crecheplan. Nesse contexto, o projeto ‘Educar para não Discriminar’, realizado em parceria com a Rede Mulher, foi um processo multiplicador que, iniciado com as gerentes e coordenadoras pedagógicas das creches, desenvolveu com toda a equipe uma série de oficinas e atividades destinadas a incorporar a perspectiva da eqüidade de gênero no processo educativo.

Por outro lado, a AME sempre teve grande preocupação com a formação profissional para geração de renda e trabalho. Com esse propósito vem realizando, há vários anos, cursos e oficinas de capacitação nas áreas de culinária, costura industrial e tecelagem em tear, utilizando a capacidade ociosa das cozinhas das creches e máquinas e equipamentos conseguidos em doação ou comprados com recursos provenientes de atividades realizadas com essa finalidade.

Em 1998, após a realização de um semestre de cursos, a coordenação da AME, decidiu ampliar essa área, propondo a formação de grupos de produção integrados pelas alunas e outras mulheres da comunidade interessadas na proposta. Com a assessoria da Rede Mulher, foi elaborado, então, um projeto de capacitação em organização, produção, gerenciamento e comercialização, permitindo que os grupos se estruturassem de modo a transformar suas habilidades em uma atividade profissional rentável.

Após uma análise de viabilidade, ficou evidente que a área da culinária era a que oferecia melhores condições imediatas para a formação desses grupos, inclusive pela possibilidade imediata de utilização das cozinhas das creches – totalmente equipadas -, após as 17 horas, em dias de semana e aos sábados e domingos, o que daria o apoio de infra-estrutura para o início dos trabalhos.

O projeto foi enviado ao Fundo Novib que o apoiou integralmente, possibilitando assim a capacitação proposta, atividade que foi coordenada por duas sócias-educadoras da Rede Mulher, Miriam Duailib e Beatriz Cannabrava, entre março e agosto deste ano. E desse trabalho surgiu o Grupo de Alimentação ‘Boka Loka’ – nome escolhido em uma das mais animadas sessões de trabalho – com um slogan que é uma verdadeira declaração de princípios: ‘Mulheres Produzindo para Você’.

Uma feijoada em benefício das atividades da AME, realizada no mês de agosto, foi a primeira atividade do grupo. E foi um sucesso! O grupo se sentiu unido, entrosado, com capacidade de trabalhar em conjunto. E os planos são ambiciosos: organizar festas e bufês, preparar congelados, fazer bolos sob encomenda, preparar almoços para empresas e, a longo prazo, ter um restaurante e uma rotisserie.

 O grupo de produção

Durante o processo de capacitação, ficou claro para o grupo que, para trabalhar juntas, era preciso escolher alguma forma de organização. Era fundamental que fossem estabelecidas as ‘regras do jogo’ e a forma como seriam tomadas as decisões. Foram então analisadas as vantagens e desvantagens das diferentes possibilidades que se apresentavam no momento: uma cooperativa, uma associação autônoma, uma microempresa ou um grupo de produção ligado à AME. Essa última forma foi a escolhida, considerando-se que a AME é uma organização conceituada junto à comunidade, favorecendo uma clientela potencial. Helena Ferrari, coordenadora da AME considera que o projeto, além de estar cumprindo um dos objetivos da Associação, contribui para fortalecer a organização de mulheres, principalmente aquelas que são chefes de família.

 O Grupo ‘Boka Loka’ atende a pedidos de salgados, doces, bolos, organizações de bufês e festas, pelo telefone (11) 7092-2185.

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Tese: 

 Mulheres na luta por educação: qual protagonismo?

  Por Clair Ribeiro Ziebell

 Ver texto integral  no Fórum de Debates

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