Edição Nº 50
Out./Dez./
2002

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- Mensagens:

- Encontro Nacional da Rede Mulher de Educação: espaço de formação e maior entrelaçamento

- Campinas: Pré-Conferência de Direitos Humanos enfoca rede de solidariedade entre as mulheres

- Aumenta o número de mulheres eleitas

- Observatório da Cidadania discute globalização, hegemonia e soberania nacional

- Pesquisa levanta fatores relevantes para a construção de um portal da mulher latino americana

- Publicações

- Tese:

Mensagens

25 de novembro
Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher - MULHER-CONSCIÊNCIA NEM VIOLÊNCIA NEM OPRESSÃO

Os números de violência

Têm crescido sem parar

Pra garantir resistência

É preciso não calar

Do Cariri pro Brasil

Quero me manifestar

 

Nos quatro cantos do mundo

A gente escuta contar

Mataram tantas mulheres

Outras mandaram matar

Estupram até meninas

Dentro do seu próprio lar

 

Este é um problema grave

Não podemos consentir

A matança de mulheres

Ficou comum por aqui

Ao invés de lamentar

Acho melhor reagir (...)

 

Lutar contra a violência

Da qual é vítima fatal

Exigindo o cumprimento

Do tal preceito legal

Não aceitando o silêncio

Como resposta final (...)

 

Decidir, quando preciso,

Se quer ter filhos ou não

Cuidar do seu próprio corpo

Sem nenhuma imposição

Com livre escolha do método

De anticoncepção (...)

E para tanto é preciso

Não cochilar, não dormir

Pois se a mulher tem juízo

Não poderá consentir

Que o machismo perdure

Enquanto ela existir

 

É preciso somar forças

E lutar contra as mazelas

Meninas, velhas e moças

Vamos deixar as querelas

Vamos fazer um país

De Justiça, sem seqüelas

 

Somos muitas companheiras

Por este país imenso

Umas laboram na feira

Conforme nos disse o censo

Algumas são enfermeiras

Outras moram no convento

 

Professora, vendedora

Faxineira, advogada

Motorista, promotora

Cozinheira, operária

Camponesa, jogadora

Tantas são desempregadas

 

Mulheres, mães e amantes

São companheiras, enfim

Sonham com um mundo justo

Trabalham pra ser assim

Geram os filhos do mundo

Pra qu’ este não tenha fim

Mulheres existem muitas

Metade, veja você

Do povo de nossa terra

Conforme ouvi dizer

Tem mulher demais na Pátria

Poucas, porém, no poder

 

É por isso que as leis

E as decisões importantes

Que na História se fez

Deste povo inquietante

Poucas delas tem a tez

Da mulher no seu semblante (...)

 

Nós mulheres já cansamos

Das manchetes nos jornais

Companheiras que amamos

Alvo de golpes fatais

A impunidade fica

Elas não voltam jamais (...)

 

Não tolere, não transija

Não permita a violência

Cultive a auto-estima

Não aceite a prepotência

Ser feliz é ter prazer

Do contrário é doença (...)

 

 

Publicação parcial dos cordéis de Salete Maria da Silva, de Juazeiro do Norte/CE. Ela é professora universitária e realiza trabalho comunitário em prol dos direitos humanos, principalmente de mulheres e homossexuais.
e-mail: sal.dc@zipmail.com.br

 

Encontro Nacional da Rede Mulher de Educação: espaço de formação e maior entrelaçamento

Nos dias 15 e 16 de novembro passado, foi realizado o Encontro Anual da RME. O primeiro dia foi dedicado a uma oficina sobre gênero e geração de renda, tendo como tema central o III Concurso de Empreendimentos Exitosos Liderados Por Mulheres - Seção Brasil. Esse concurso, realizado por iniciativa da REPEM (Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina) e organizado no Brasil pela RME, é tema de nosso encarte, nesta edição. Durante o Encontro Nacional, as representantes dos grupos vencedores - Dejanira Einloft, do Morro da Cruz; Hercilia Maria dos Santos e Adelma dos Santos, de Doces Camponesa; e Nelsa Nespolo, da Cooperativa Univens - tiveram a oportunidade de expor a trajetória dos empreendimentos, suas lutas, conquistas e dificuldades, para as 36 participantes: 15 sócias- educadoras da Rede Mulher e 21 convidadas de entidades e ONGs de mulheres. A palestrante, Ruth Nunes, do PACS, discorreu sobre a socioeconomia solidária e o cooperativismo autogestionário no Estado do Rio. Em seguida, foram realizados trabalho em grupo e plenária.

O segundo dia constou de duas oficinas: uma sobre Processos de Formação Feminista no Brasil, tendo como tema a dissertação de mestrado de Denise Carreira; a outra sobre Mulheres na Coordenação de ONGs, que teve como base a dissertação de mestrado de Denise Gomide. Na parte da tarde, foi realizado um trabalho sobre trans-formações pessoais, a cargo de Maria Nina Magalhães, e compartilhadas as atividades realizadas pelas sócias-educadoras, além de um retrospecto da trajetória da RME através de um painel de fotos. Durante os dois dias, foram realizadas várias dinâmicas de entrosamento, socialização e avaliação, coordenadas pela Maria José (Zéza) L.Souza, que as preparou antecipadamente, com um enfoque específico para os diferentes momentos do Encontro Nacional, bem como da Assembléia Geral, que ocorreu no dia seguinte.


A Assembléia

No dia 17 de novembro foi realizada a Assembléia Geral Ordinária, num clima de perfeita harmonia. Os novos conselhos, para a gestão 2003/2005, ficaram assim constituídos: Conselho de Administração: Presidente: Beatriz Cannabrava; Secretária: Denise Gomide; Tesoureira: Maria José Lopes Souza; Suplentes: Clair Ziebell e Ruth Takahashi. Conselho Fiscal: Hilda Fadiga, Maria do Socorro Lima, Maria Nina Magalhães e Maria Aparecida Segura (Suplente). Para a coordenação-executiva, foi ratificado o nome da atual coordenadora Vera F.Vieira.

As novas sócias-educadoras são a Maria da Penha Nascimento, do Grupo Fala Negão, de São Paulo, e Norma H.Barros, que desenvolve atividades educativas junto a escolas e entidades na cidade de Toledo/PR.

Na ocasião, foi enaltecido o trabalho realizado pelo Grupo Gestor da entidade, na última gestão, contribuindo para a divisão de responsabilidades e poder. Para o próximo período, o Grupo Gestor conta com um número ampliado de educadoras. Os estatutos vigentes permanecem inalterados. Foram consideradas como prioridades para a nova gestão, a continuidade das atividades de capacitação, com o objetivo de formar novas lideranças para a renovação dos quadros institucionais; a captação de novas fontes de recursos, sempre cuidando que correspondam aos princípios que norteiam as atividades na Rede Mulher. Considerou-se ainda a necessidade de realizar uma reflexão sobre o novo contexto nacional, tratando de ver quais as oportunidades e ameaças que se apresentam para o trabalho das organizações da sociedade civil, buscando formas de aproveitar as oportunidades e evitar ou contornar as ameaças.

 
Campinas: Pré-Conferência de Direitos Humanos enfoca rede de solidariedade entre as mulheres
  Dentre os temas abordados nos diversos eventos relativos à Pré-Conferência de Direito Humanos, organizados pela Prefeitura de Campinas, o das mulheres foi o que reuniu o maior número de participantes. Aconteceu no dia 23 de novembro, na Câmara Municipal, com cerca de 50 participantes, que puderam ouvir às palestrantes convidadas, realizar trabalhos em grupo e discutir em plenário as próprias propostas para os temas do trabalho, da saúde, educação, organização política e família. A abertura ficou a cargo da vereadora Maria José Cunha, que enfatizou a importância de se refletir sobre "o que já conquistamos e o que falta conquistar". Vera Vieira, da Rede Mulher de Educação, falou da importância do entrelaçamento das diversas redes de direitos humanos, enaltecendo os marcos da trajetória de luta das mulheres. Rosângela Rigo, da Coordenadoria da Mulher, enfatizou a necessidade de "se criar políticas públicas que levem à autonomia pessoal das mulheres". A mesa foi coordenada por Vanda Russo, atual presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Maria José (Zéza) Lopes Souza - vice-presidenta do CMDM e sócia-educadora da Rede Mulher - foi a responsável pela organização do evento.
 
Aumenta o número de mulheres eleitas
Agora, são 42 deputadas federais (representando 8,19% das cadeiras), 8 senadoras (14,81%), 133 deputadas estaduais (12,56%), 2 governadoras e 6 vice-governadoras. As eleições 2002 apresentaram uma elevação tanto do número de candidatas, como de eleitas. Isto não significa que as mulheres tenham atingido a cota por sexo de 30%, determinada pela Lei 9504/97 para candidaturas às eleições proporcionais. Os partidos políticos - que não priorizam as cotas e, normalmente, não oferecem apoio às candidaturas femininas -, chegaram a um percentual de mulheres candidatas que fica abaixo de 15%.

Dentre as mulheres eleitas para o Congresso, treze são campeãs de votos, sendo a maioria de partidos de esquerda. Na Câmara, são oito: Denise Frossard (PSDB/RJ), Fátima Bezerra (PT/RN), Francisca Trindade (PT/PI), Janete Capiberibe (PSB/AP), Kátia Abreu (PFL/TO), Maria Helena (PST/RR), Perpétua Almeida (PCdoB/AC) e Vanessa Grazziotin (PCdoB/AM). No Senado, são cinco, sendo quatro do PT: Marina Silva (PT/AC), Ana Júlia (PT/PA), Fátima Cleide (PT/RO), Ideli Salvatti (PT/SC) e Roseana Sarney (PFL/MA).

Outra boa notícia diz respeito à equipe de transição do governo Lula, cuja composição conta com duas grandes feministas: Matilde Ribeiro, de Santo André, e Vera Soares, de São Paulo.

 
Observatório da Cidadania discute globalização, hegemonia e soberania nacional
Nos dias 19 e 20 de novembro, em um momento pós-eleitoral estratégico, conferencistas brasileiros e estrangeiros contribuiram "para o debate sobre os constrangimentos externos, os limites e as possibilidades de inserção internacional não subordinada e as perspectivas de ampliação das condições de realização, por via democrática, de um projeto nacional". A mesa "Globalização, Estados Nacionais e Democracia", coordenada por Jorge Durão (Fase), contou com exposições de Cândido Grzybowski (Ibase), José Maria Gomez (PUC/RJ) e Maria Regina Soares (IUPERJ). "Marcos Institucionais da Governança Global" foi coordenada por Iara Pietricovsky (Inesc), com participação de Martin Khor (Malásia), John Foster (Canadá) e Sônia Correa (Rede Dawn). A mesa sobre "Inserção Internacional e Democracia" contou com Antonio Licha (UFRJ), John Foster e Martin Khor. O enfoque sobre o "Brasil: desafios nacionais e internacionais" teve a mesa coordenada por Átila Roque (Ibase), com exposições de Luis Carlos Prado (UFRJ), Gilson Schwartz (ecomista e articulista da Folha de S.Paulo) e Fernando J.Cardim de Carvalho (UFRJ). Trata-se de mais um seminário promovido pelo Observatório da Cidadania, que é parte da rede internacional Social Watch - formada por Ongs de 60 países, visando monitorar o cumprimento de compromissos assumidos pelos governos nas conferências da ONU. No Brasil, está sob a coordenação do Ibase, Inesc, Cedec, Fase e SOS Corpo, com o apoio da Novib.

Na ocasião, também aconteceu o lançamento da publicação Relatório 2002 do Observatório da Cidadania.

 

Pesquisa levanta fatores relevantes para a construção de um portal da mulher latino americana

Foi realizada, recentemente, no Brasil, Chile, México e Peru, uma pesquisa qualitativa, utilizando a técnica de focus groups,visando levantar informações para a construção de um portal da mulher latino americana, para atender, de fato, aos seus principais temas de interesse. A coordenação geral da pesquisa ficou a cargo de Ximena Charnes, da Isis Internacional, com financiamento da Fundação Ford.

No Brasil, a pesquisa foi coordenada por Vera Vieira - da Rede Mulher de Educação - e Regina Festa - da Cátedra Regional Unesco, Mulher, Ciência e Tecnologia na América Latina/Cidade do Conhecimento/Instituto de Estudos Avançados da USP. Foi desenvolvida em quatro Estados, com coordenação técnica local de educadoras da Rede Mulher: Rio Grande do Sul - Clair Ribeiro Ziebell (que teve o apoio de Márcia Bernardes e Silvana Burnier); Mato Grosso - Madalena R. dos Santos Vieira (com o apoio de Marli Barboza); Tocantins - Sandra Regina Monteiro (com o apoio de Isabel Monteiro Botelho); São Paulo - Vera Vieira. No RS, MT e TO, a pesquisa foi aplicada em quatro grupos diferenciados: 28 a 34 anos, com pouca experiência em Internet; 28 a 34 anos, com muita experiência; 35 a 50 anos, com pouca experiência; 35 a 50 anos, com muita experiência. Em São Paulo, houve dois perfis diferenciados: mulheres acadêmicas e misto. A informação recolhida, para fins de análise, foi agrupada em torno dos seguintes temas: a relação com a Internet; barreiras para um maior uso da Internet; experiência de busca de informação e temas de interesse geral; conhecimento e avaliação de sites para mulheres; avaliação sobre a idéia de um portal da mulher latino americana e o caráter do portal.

Apesar da divulgação dos resultados finais estar prevista para breve, no momento, pode-se adiantar alguns do Brasil, entre eles: as mulheres das diversas segmentações vivem um processo de esforço contínuo para a inclusão da cultura cibernética, que provoca novas noções de tempo e espaço, um novo modo de agir, pensar e sentir; o acesso à Internet ocorre tanto de maneira instrumental (simples troca ou busca de informações), como, em maior ou menor escala, com um olhar de leitura crítica e de intervenção social; os temas mais consultados demonstram uma expectativa de que o portal supra necessidades profissionais, intelectuais, emocionais, espirituais de de lazer/entretenimento; um maior acesso à Internet esbarra na falta de condições financeiras e tempo disponível, sendo que a ineficácia dos serviços de provedores também é fator limitante; a concretização de um portal da mulher latino americana é aguardada com ansiedade pela maioria, encarando-o como um local da diversidade na unicidade; ressalta-se a relevância do idioma português.

 
Publicações
Cidadãs de Segunda Classe?

Merece destaque a qualidade da publicação de Carina Baladi e Fernanda Grigolin, fruto de um trabalho de conclusão do curso de graduação de jornalismo, da Universidade Metodista, sob orientação da professora Margarete Vieira. A pesquisa se ancora em autores/as essenciais, entrevistas com feministas e economistas, além de mulheres comuns encontradas ao acaso, na rua, no ponto de ônibus, questionando "por que há tanta desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho". O objetivo central é "pensar por que muitas diferenças, sejam culturais ou socioeconômicas, tornam mais desiguais as relações de gênero". A professora Maria Otília Bocchini, da USP/ECA, que apoiou a trajetória da monografia, destaca no prefácio: "Ler o trabalho (...) é refletir sem cessar sobre os caminhos possíveis da formação universitária de jornalistas e sobre a riqueza que personalidades autônomas acrescentam ao fazer jornalístico".

Solicitações de exemplares podem ser feitas pelo e-mail fernandamoraes@uol.com.br .

 

Racismo no Brasil

"O Brasil é um país de muitas cores, de muitas vozes, da cultura de muitas raças. É o país da diversidade, isso todos sabemos. Nessa afirmação, porém, reside uma perniciosa falácia, que dificulta desmascarar a supremacia branca incorporada na mentalidade nacional e a construção de um esforço contínuo na sua superação. Surpreenderá a muitos de nós conhecer a naturalidade com que o racismo está impregnado em nosso cotidiano e os números desastrosos a evidenciar as conseqüências desse sentimento etnocêntrico que ironicamente corrói as esperanças de uma sociedade mais igualitária e justa." É o que mostra esta publicação, que contém oito artigos de especialistas em diferentes campos da problemática racial - Giralda Seyferth, Maria Aparecida Silva Bento, Maria Palmira da Silva, João Batista Borges Pereira, Maria de Lourdes Siqueira, Valter Roberto Silvério, Maria Aparecida da Silva e Joaquim Barbosa Gomes. É fruto de uma parceria entre a Ação Educativa, a Anped (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação) e a Abong. Foi publicada pela Editora Fundação Petrópolis, podendo ser encontrada nas livrarias. Mais informações podem ser obtidas através do e-mail: abong@uol.com.br , fone/fax: (11) 3237-2122.

 

ONGS E UNIVERSIDADES - Desafios para a cooperação na AL

Organizada por Sérgio Haddad, presidente da Abong, a publicação traz artigos que abordam "a construção da identidade das organizações não-governamentais no Brasil, os desafios que lhes são colocados na transição do milênio, as possibilidades abertas pela tendência à articulação de redes globais de ação social solidária, e uma análise sobre as pesquisas acadêmicas que tomam as Ongs como objeto de estudo". Os artigos são de autoria de Anthony Bebbington, Francisco de Oliveira, Ilse Scherer-Warren, Leilah Lnadim e Luiz Eduardo W.Wanderley. Os textos foram elaborados para o seminário promovido pela Abong, em dezembro/2001, como parte das comemorações de seus dez anos de existência, juntamente com a Alop (Associación Latinoamericana de Organizaciones de Promoción e a PUC/SP. Foi publicada pela Editora Fundação Petrópolis. Há também o vídeo intitulado Ongs e Universidades - conhecimento e transformação, com direção geral de Gabriel Priolli, da TV PUC.

Para solicitação de exemplares, contatar a Abong, pelo e-mail: abong@uol.com.br ou pelo fone/fax: 3237-2122.

 

Mulheres Públicas participação política & poder

A publicação - de autoria de Fanny Tabak - apresenta questões e reflexões sobre a participação da mulher na política. "A grande novidade nas eleições brasileiras de 2002, o lançamento de uma mulher como candidata a Presidente da República, foi encarado com naturalidade. A tentativa não vingou, mas uma outra mulher foi indicada candidata a vice-presidente. Várias mulheres se apresentaram como candidatas ao governo de importantes unidades da Federação. Será que isso significa que, finalmente, a mulher brasileira, que conquistou o direito ao voto em 1932, já está ocupando o lugar que merece no cenário político, em igualdade de condições, e uma parcela maior de poder de decisão em questões fundamentais da vida nacional? Certamente, ainda não. A lei de cotas foi aprovada, mas não é respeitada pelos partidos políticos e estes não recebem nenhuma penalidade. A proporção de representantes femininas no Congresso Nacional e no primeiro escalão do governo continua a ser extremamente baixa. Por que será?"

Fanny Tabak tem uma longa e qualificada atuação na luta pela eqüidade de gênero. Já realizou diversas pesquisas sobre a mulher na vida pública. Este livro foi publicado pela Letra Capital Editora - telefax: (21) 2224-7071; e-mail: letracapital@letracapital.com.br .

 

Estudos de Sarah Bradshaw

 

A pobreza não é a mesma e nem igual: relações de poder dentro e fora de casa

 

Relações perigosas: mulheres, homens e o Mitch

Envolvendo um grupo de pesquisadoras, ambos os estudos voltam-se para a Nicarágua, país considerado o segundo mais pobre do Ocidente, perdendo apenas para o Haiti. O primeiro mostra como também naquele país, há um fracasso dos métodos oficiais adotados para medir e combater a pobreza, no sentido de retratar a multidimensionalidade e a natureza dinâmica da privação e bem-estar. "Os resultados da pesquisa enfatizam a diversidade existente entre - e nas - comunidades e famílias, no sentido de como as pessoas vivenciam pobreza e bem-estar, sugerindo a necessidade de micropolíticas que considerem essas diferenças".

Relações perigosas - mulheres, homens e o Mitch: um estudo das relações de poder entre homens e mulheres frente ao Furacão Mitch, na Nicaragua, destaca logo na introdução, uma frase que desnuda seu conteúdo: "Os desastres revelam estruturas de poder em nível nacional, regional e global, além de relações de poder dentro das relações íntimas" (Enarson e Morrow).

O livro analisa como as relações de poder de gênero, idade, classe social, etc fazem com que as pessoas vivenciem uma catástrofe de maneira diferenciada. "Na atualidade, se reconhece a importância de gênero em momentos de crise e emergência ocasionadas por situações de desastre, tanto pelo impacto diferenciado que tem em homens e mulheres, como pelas diferentes estratégias que adotam para enfrentar essas situações."

Os estudos foram publicados pela Ong Puntos de Encuentro. Solicitação de exemplares através do e-mail: puntos@puntos.org.ni ; fone: (505)268-1227; fax: (505)266-6305; endereço: de la Rotonda de Plaza España, 4c.abajo, 1c. al lago, apartado postal RP-39 - Managua, Nicaragua.

 
Tese

DO SILÊNCIO À PALAVRA: construções e perspectivas de gênero no meio rural do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

Autor: Losandro Antônio Tedeschi (*)
Mestrado - 2001 - História
UNISINOS - Universidade do Vale do Rio do Sinos - São Leopoldo/RS

 
Associação dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais da Regional de Ijuí/RS (ASTRI), participei da coordenação do projeto "Educação para os Direitos das Mulheres Trabalhadoras Rurais", que se desenvolveu de setembro de 1997 a outubro de 2000. O Projeto, voltado para a área de gênero e direitos reprodutivos em comunidades do meio rural de três municípios do interior da região Noroeste do Rio Grande do Sul, selecionou como público alvo oito grupos de mulheres trabalhadoras rurais, tendo como objetivo qualificar e capacitar estes grupos na perspectiva das relações de gênero, identificando os mecanismos que reforçam a exclusão destas mulheres do espaço público. Se bem que utilizei fontes diversas, a experiência de conviver e de entrevistar estas mulheres rurais em suas comunidades me afetou profundamente. Construímos um processo com 229 trabalhadoras rurais, distribuídas em 8 grupos em três municípios: Catuipe, Ijui e Augusto Pestana, situados na região NO do RS. 164 eram mulheres casadas, mães de família, dentre elas 9 viúvas e 56 solteiras. Se bem que eu optei por citar testemunhos consignando somente as iniciais das entrevistadas, quero agradecer a todas essas mulheres que me permitiram usar suas vozes e seus nomes, envolvendo-as diretamente nesta pesquisa, pois construímos, coletivamente, uma nova visão sobre sua história, no meio rural. Graças à colaboração dessas mulheres que freqüentavam os Encontros, que participaram com os seus depoimentos, foi possível construir esta dissertação. Ao dar um ponto final neste trabalho envolvente e apaixonante, meu reconhecimento a todas essas mulheres, pois, juntos, construímos mais cidadania no meio rural.

As mulheres trabalhadoras rurais - que guardam a história, que contam a seus filhos e filhas - mostram uma longa vida em que as mesmas, para não falar de outras dicotomias, tiveram que enfrentar permanentemente a desigualdade, embora nunca tenham se submetido completamente a isso. Submissão e resistência sempre fizeram parte da vida das mulheres. O presente apresenta uma análise histórica e teórica na região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, voltado à pesquisa e à formação, envolvendo grupos de mulheres trabalhadoras rurais nos temas referentes a gênero e direitos reprodutivos. Neste trabalho, envolvemos mulheres e homens. Criamos diversos espaços para um debate aberto entre os diferentes agentes. Todas as pessoas envolvidas neste processo puderam confrontar suas trajetórias e experiências de vida, refletindo sobre suas condutas, valores e práticas sociais na sua história familiar e comunitária. Histórias de vida, relações de gênero na agricultura familiar, participação das mulheres na construção do sindicalismo, conquista de direitos sociais e da cidadania política, construção de um projeto alternativo de desenvolvimento sustentável para o meio rural, dentre outros aspectos, constituem temas centrais neste trabalho. A atualidade histórica e a complexidade desses assuntos revelam a importância desse debate para os rumos da sociedade brasileira, em especial para os segmentos sociais que buscam, no seu cotidiano, construir novas formas de relacionamento humano, em que se superam as desigualdades sociais e históricas que marcam profundamente o mundo moderno.

Analisar a participação da mulher em movimentos sociais implica discutir a temática referente às relações de gênero, na medida em que este modo específico de vida social caracteriza-se por uma íntima relação com os recursos naturais e também por uma forma de organização do trabalho familiar, onde os critérios "sexo" e "idade" são elementos chaves na distribuição das diversas tarefas no âmbito do público e do privado. Na agricultura familiar, as mulheres são parte integrante de uma família e possuem responsabilidades tanto nas atividades econômico-produtivas (espaço onde dividem o conjunto das tarefas com os demais membros da família), como nas doméstico-reprodutivas (espaço onde impera a indivisibilidade sexual do trabalho, ou seja, só as mulheres - adultas, idosas e jovens - executam essas atividades). Em função dessas características, todo o trabalho político-produtivo das agricultoras nos estabelecimentos rurais não é percebido socialmente, tornando-se invisível, inclusive do ponto de vista das estatísticas oficiais, na medida em que as mulheres, historicamente, têm sido discriminadas e marginalizadas, consideradas apenas como "donas de casa" e não como agricultoras. Prevalece o sentido da "ajuda" e não do trabalho propriamente dito. Por isso, o trabalho da mulher agricultora é desvalorizado socialmente, não sendo reconhecido como uma ação produtiva. De outro lado, o que vale, segundo a concepção subjacente às instituições que realizam as estatísticas nacionais, são as atividades que geram dinheiro; aquelas relacionadas à reprodução da família, em geral, são menosprezadas por esses instrumentos. Esse exemplo demonstra a falsa neutralidade ideológica das estatísticas, uma vez que evidencia um tratamento desigual no enquadramento de determinadas funções. Este estudo colocou um desafio nas instituições, movimentos, nas comunidades rurais no sentido de reconstruir, refundamentar as práticas políticas, sociais e reprodutivas no campo das relações de gênero no meio rural.