Edição Nº 51
Jan./Mar./
2003

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- O mundo se une em torno da PAZ

- DIA INTERNACIONAL DA MULHER - 8 de março: não à guerra - liberdade aos povos

- Gênero e Empreendedorismo Feminino

- Mulheres de Miracatu buscam gerar renda com a perspectiva da cidadania transformadora

- VEM PRA RODA! VEM PRA REDE!

- Celita Eccher assume Secretaria Geral do ICAE

- Publicações

- Tese

O mundo se une em torno da PAZ

Nos dias 15 de fevereiro e 15 de março, o sentimento de paz invadiu o coração de pessoas de todo o planeta, manifestado em passeatas e atos contra o então possível ataque bélico ao Iraque, comandado pelos Estados Unidos, o que acabou acontecendo dias depois, mesmo sem o aval da ONU (Organização das Nações Unidas).

Graças à Internet, foi a primeira vez na história da humanidade que se tornou possível organizar manifestações simultâneas de tamanha dimensão. Supõe-se que no dia 15 de fevereiro mais de 10 milhões de pessoas saíram às ruas pedindo paz: 1,5 milhão em Londres; 3 milhões nas principais cidades da Espanha; 250 mil na cidade de Nova Iorque...

Mesmo sem evitar a guerra, as expressivas manifestações públicas mundo afora são de fundamental importância para demarcar o desejo de paz da maioria da população. As fotos abaixo são da cidade de São Paulo, onde a passeata saiu do Masp e foi até ao Ibirapuera.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

8 de março: não à guerra - liberdade aos povos

por Fernanda Grigolin

Cerca de 2 mil pessoas caminharam, a partir das 11h, pelas ruas do centro de S.Paulo, com a intenção de manifestar o repúdio ao ataque bélico dos EUA ao Iraque, à Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), ao machismo e ao racismo. Organizada por diversas entidades ligadas ao movimento de mulheres, a marcha saiu da Praça da República e terminou na Praça da Sé, marco zero da cidade. A articulação do movimento de mulheres e de ONGs feministas acredita que "o governo dos Estados Unidos mais uma vez utiliza a guerra como uma estratégia militar e política para favorecer suas multinacionais e manter a dominação do mundo. As riquezas dos países do terceiro mundo, principalmente o petróleo, a água, a biodiversidade, são expropriadas e todas as possibilidades de desenvolvimento autônomo e soberano são cercadas." Por todo o país, ocorreram manifestações similares.

Palestras, conferências... mulheres fazem história

A Coordenadoria Especial da Mulher, órgão da Prefeitura de São Paulo, promoveu durante todo o mês de março mais de 150 eventos, entre eles palestras, conferências, seminários, sessões de vídeos e curtas metragens, oficinas, para discutir as relações das mulheres nos mais diversos espaços de atuações e de convívio. O tema deste ano, elaborado pela CEM, foi Mulheres fazendo história. Segundo a socióloga integrante da Coordenadoria, Maria Lúcia da Silveira, "a pretensão foi mostrar que as mulheres fazem, fizeram e farão parte da sociedade e são agentes transformadores".

No dia 8 de março, um show de música de jovens rappers contou com a participação de b- girl (dançarinas de break) e de grafiteiras. Além disso, houve a inauguração do Espaço Lilás, no bairro Cidade Tiradentes, na zona leste da capital paulista. A iniciativa foi promovida em conjunto com a entidade do movimento de mulheres Oriashé, e de acordo com a coordenadora da Coordenadoria Especial da Mulher da Prefeitura de São Paulo, Tatau Godinho, a parceria é de extrema importância. "O espaço será uma forma de ampliar as relações de amizade e o convívio entre as mulheres e, ainda, criar novos caminhos. Isso tudo por meio de atividades culturais e cursos de formação." No dia 10 teve o lançamento da série de postais Mulheres fazendo história. São 12 imagens de vários períodos importantes da história da cidade de São Paulo, como greve das operárias da Alpargartas nos anos 70 e reivindicação de mães por creches nos anos 80.

O Ciclo Internacional de Conferências Gênero e Feminismo - Desvelando Trajetórias, ocorrido entre os dias 10 e 14 de março, teve como objetivo ir ao encontro de como se entrelaçam, se formam e se aplicam as diferenças (que se transformam, na maioria das vezes em desigualdades) entre os gêneros masculino e feminino.

O Ciclo discutiu temas como cidadania, filosofia, relações de gênero, raça/etnia e classe social, globalização e economia, analisados sob a perspectiva de gênero. O evento contou as palestrantes Sylvia Walby, da University of Leeds, Inglaterra; Alicia Puleo, titular da Cátedra de Estudos de Gênero da Universidade de Valladolid, Espanha; Heleieth Saffioti, que é especialista em violência doméstica e intrafamiliar, professora da PUC e autora de diversos trabalhos e pesquisas; a socióloga Bila Sorj, mestre em Sociologia pela Universidade de Haifa, Israel, que pesquisa há 30 anos o mercado de trabalho brasileiro para a população feminina; a socióloga Helena Hirata, especializada em comparações internacionais do trabalho e das relações de gênero, que também lançou o livro As novas Fronteiras da Desigualdade - Homens e Mulheres no Mercado de Trabalho.

Mulheres do campo: resistência e compromisso

A Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, por meio da coordenação nacional, reafirmou, no Dia Internacional da Mulher, o compromisso de manter-se em luta por melhores condições de vida para o povo brasileiro. Segundo documento, distribuído no início do mês de março, as trabalhadoras informam que estão mobilizadas, lutando, entre outras coisas, por um Novo Projeto Popular para o Brasil, pela Previdência Pública e Universal e pela efetiva implementação do SUS.

EQUIDADE DE GÊNERO: SEMENTE DE PAZ
foi a mensagem das educadoras da Rede Mulher
presentes na passeata da cidade de São Paulo.

Gênero e Empreendedorismo Feminino

 

Esta oficina - coordenada por Maria José (Zéza) Lopes Souza, educadora da Rede Mulher - aconteceu em Feira de Santana/BA, nos dias 16 e 17 de dezembro, contando com a participação de 37 mulheres e um homem, a maioria envolvida em projetos de auto-sustentação: tempero e pão caseiro, licor, doce em compota, bolsas confeccionadas com a fibra do caruá, colcha de retalhos e painéis com desenhos típicos da região Nordeste. Segundo Zéza, "o trabalho contribuiu para o fortalecimento da motivação e da auto-estima, assim como para identificar os fatores positivos e os fatores de risco para o sucesso de um empreendimento econômico".

Esta atividade foi uma das diversas programadas durante a Jornada de Projetos Econômicos e Sociais, promovida pelo MOC-Movimento de Organização Comunitária, que é ponto focal da Rede Mulher, e tem o Programa de Gênero coordenado por Alvaíza Cerqueira, também sócia-educadora da RME. Na ocasião, foi realizado o lançamento de dois produtos da RME: o livro A Liderança Feminina no Século 21 e o CD Mudando o Mundo com as Mulheres da Terra.

Mulheres de Miracatu buscam gerar renda com a perspectiva da cidadania transformadora

Líderes da ACOB (Associação Comunitária de Oliveira Barros e mulheres envolvidas no projeto Clube da Costura S/A, num total de 29 pessoas, participaram da oficina de capacitação ministrada pela Rede Mulher de Educação, a cargo de Maria José (Zéza) Lopes Souza, no dia 31 de janeiro. O conteúdo aborda diversos aspectos que intercalam ações para gerar renda com a perspectiva cidadã, tema no qual a Rede Mulher vem trabalhando profundamento há vários anos. O grupo recebeu também um manual para o aprofundamento da temática.

Segundo as líderes locais Flávia e Érika, "a metodologia da Rede Mulher atendeu plenamente às necessecidades - auto-confiança e motivação - e à realidade do grupo, como o baixo nível de escolaridade. Para Zéza, "no final do dia, cada participante saiu com uma avaliação pessoal dos recursos que ela dispõe e das mudanças que precisa empreender, na rotina da vida familiar, para dar conta do ‘sonho’."

Esta oficina integra os objetivos previstos no projeto financiado recentemente pelo Fundo Novib, com acompanhamento da Rede Mulher em todo o processo de desenvolvimento. O Fundo Novib é direcionado a ampliar a ação das Ongs financiadas por essa agência de cooperação holandesa. O Comitê é formado, atualmente, pelo CTA, Esplar, Fase e Rede Mulher. O Saap/Fase é responsável pela gestão.

VEM PRA RODA! VEM PRA REDE!

Guia de apoio à construção de redes de serviços para o enfrentamento da violência contra a mulher

Violência contra a mulher: desafio de todas as pessoas

 

Diversos estudos e documentos nacionais e internacionais apontam para o fato de que a violência contra a mulher exige ações integradas para o enfrentamento mais efetivo do problema. Entre elas, a construção de redes de serviços que articulem a atuação governamental e não-governamental em áreas como segurança pública, justiça, saúde, educação, assistência social, habitação, entre outras.

Buscando contribuir nessa direção, a Rede Mulher de Educação lançou no Fórum Social de Porto Alegre a publicação Vem pra Roda, Vem pra rede! – Guia de apoio à construção de redes de serviços para o enfrentamento da violência contra a mulher.

A publicação é fruto dos projetos "Superando Obstáculos nas Estratégias de Prevenção e Combate à Violência contra a Mulher" e "Tecendo a Rede de Serviços na Prevenção à Violência contra a Mulher nos Municípios: Desafios e Propostas", que resultaram em duas oficinas realizadas nas cidades de Campinas/SP (1198) e Porto Alegre/RS (2000), sob a coordenação geral de Moema Viezzer, consultoria de Berlindes Astrid Kücheman e assessoria técnica de Denise Carreira. A primeira oficina contou com a secretaria-executiva exercida pela nossa educadora Maria José (Zéza) Lopes Souza e a segunda oficina, pela advogada feminista Valéria Pandjiarjian. A autoria da publicação é de Denise Carreira e Valéria Pandjiarjian.

O Guia foi viabilizado por meio do apoio da GTZ (Cooperação Técnica Alemã) e do Unifem (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher). Está sendo distribuído gratuitamente a organismos governamentais de direito da mulher de todo o país, além de ong’s que atuam no enfrentamento da problemática.

Vem pra Roda, Vem pra Rede! pretende servir como material de apoio e estímulo à construção de ações articuladas entre as diversas organizações que realizam trabalhos de atendimento, apoio, detecção, encaminhamento e prevenção com relação à violência de gênero. O livro pode ser adquirido ao custo de R$ 10,00 (incluindo despesas de correio) na Rede Mulher de Educação, pelo telefone: (11) 3873-2803, fax: (11) 3862-7050, e-mail: rdmulher@redemulher.org.br .

Celita Eccher assume Secretaria Geral do ICAE
 

Nossa querida e competente companheira, Celita Eccher, acaba de assumir a Secretaria Geral do ICAE (Conselho Internacional de Educação de Adultos). "Esta conquista supõe um reconhecimento do trabalho de educação de mulheres realizado pela REPEM (Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina e Caribe), liderado por Celita, e também significa um posicionamento chave para incorporar a perspectiva de gênero em instâncias globais, bem como avançar na construção de um mundo mais inclusivo para as mulheres", enfatiza o Comitê de Direção da Repem, do qual também é integrante Beatriz Cannabrava, presidenta da Rede Mulher. Celita continuará na coordenação geral da Repem até a próxima assembléia, que se realizará nos primeiros meses do próximo ano.

 
Publicações
A Nova Pesquisa e Assessoria em Educação, organização não governamental que completa 30 anos de atividades em 2003, acaba de lançar três publicações. Para adquiri-las, basta contatar a Nova através do e-mail nova@novapesquisa.org.br ou pelos telefones (21) 2205-6219/2225-7578.
 

Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes

 

Discutir dilemas conceituais e dificuldades de manejo adequado de casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes consiste no tema central desta publicação, organizada por Antonio Carlos de Oliveira. Reunindo contribuições de profissionais de diversas áreas do conhecimento, apresenta referências conceituais e procedimentos técnicos de enfrentamento deste fenômeno, evidenciando as múltiplas dimensões relevantes para compreensão e qualificação da intervenção profissional neste campo. Cada exemplar custa R$ 15,00.

 

Crianças e Adolescentes em Situação de Rua: a Difícil Arte de Cuidar

Esta publicação, de autoria de Antonio Carlos de Oliveira e Naura dos Santos Americano, discute o fenômeno social de crianças e adolescentes em situação de rua, sob o prisma da necessidade de prestar-lhes um atendimento humanizado e devidamente sintonizado com suas demandas. Conjugando suas experiências e estudos junto a programas de atendimento a uma análise conceitual, os autores apresentam e discutem um marco teórico-técnico voltado, sobretudo, à qualificação da intervenção de educadores/as sociais e técnicos/as com atuação nesta área. Cada exemplar custa R$ 10,00.
 

População de Rua: que Cidadania?

Apontar e discutir questões decorrentes do atendimento prestado à população adulta de rua e as metas imprescindíveis a serem buscadas nestes atendimentos é o tema central desta publicação, organizada por Adriana Mota e Jorge Vicente Muñoz. É fruto das discussões travadas durante o seminário interno "População de Rua: serviços e atendimentos. Reinserção Social?", com a presença de 11 especialistas que desenvolvem atividades, seja no campo da pesquisa ou na prática sócio-educativa, em diversos equipamentos e serviços: centros de referência, casas de convivência, albergues e serviços de saúde mental, entre outros. Cada exemplar custa R$ 10,00.

 

Modelo Colaborativo – Experiência e aprendizados do desenvolvimento comunitário em Curitiba

Um novo método de trabalho comunitário e mais solidário. Isso é o que moveu o projeto Modelo Colaborativo, coordenado pela United Way of Canada, GETS (Grupo de Estudos Terceiro Setor) e Prefeitura Municipal de Curitiba. O documento, lançado recentemente, trata da implantação do Modelo Colaborativo na Regional Cajuru, em Curitiba, iniciada em 1999, com o apoio da CIDA (Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional). Está alicerçado na parceria entre governos, iniciativa privada e sociedade civil. São três apostilas: "Na primeira, encontram-se todas as informações para compreender o processo desenvolvido em Curitiba, um pouco de história, os princípios, valores e a mudança de paradigma proposta pelo Modelo Colaborativo, que devem ser observados na implementação dessa nova maneira de trabalhar. Na segunda, intitulada Passos para a construção do Modelo Colaborativo, encontram-se oito temas importantes para a implementação desse processo. A última, intitulada A experiência vista pelos parceiros, traz um olhar de cada uma das três instituições externas à comunidade." Mais informações pelo e-mail da CIDA: brsla.da@dfait-maeci.gc.ca ou telefone (61) 328-2336.

 

Controle social: uma questão de cidadania
Saúde é assunto para mulheres

O manual - da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos - publicado pela primeira vez em 1998, chega à terceira edição. Revisado e atualizado, o livro manteve o enfoque dado anteriormente à importância do controle social na área da saúde. Entretanto, esta versão procura descrever e analisar algumas funções do SUS (Sistema Único de Saúde) sob a óptica feminista. Segundo o manual, temas como gênero, saúde, cidadania devem ser vistos em conjunto, e os direitos da mulher, cobrados e assegurados com a participação feminina efetiva. Além disso, estão expostos no material, um breve histórico do direito feminino, noções de cidadania e democracia. Mais informações pelo fone (31) 3213-9097, e-mail: redesaude@uol.com.br

 

Mulher, Saúde e Trabalho

A edição de número 25, do Jornal da Rede Feminista de Saúde, discute assuntos essenciais do cotidiano feminino: reprodução e saúde e no que os dois influem no mundo do trabalho. São onze textos, entre eles uma entrevista com Lenira Carvalho, uma das fundadoras da Associação das Trabalhadoras Domésticas de Recife, e o perfil da vencedora do Prêmio Cláudia 2001, a engenheira civil Fernanda Giannasi, conhecida no Brasil e no mundo por lutar pelo banimento do amianto. Além disso, há um encarte denominado Visões feministas sobre biotecnologia. Na contracapa, estão destacadas algumas questões trabalhistas discutidas na Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras, em 2002. Consolidar as Leis trabalhistas; assegurar o cumprimento das Convenções no.100 e no.111 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) que estipulam o direito a salários iguais para homens e mulheres e proíbem todas as formas de discriminação no emprego; eliminar o trabalho escravo e infantil são alguns dos desafios apresentados aos governantes, pelas mulheres, na Conferência.

 

Políticas Públicas e Relações de Gênero no Mercado de Trabalho

O Dossiê - elaborado pelo CFEMEA (Centro Feminista de Estudos e Assessoria), em parceria com o FIG (Fundo para a Igualdade de Gênero) e a CIDA (Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional) - expõe quanto a mulher ainda é discriminada no mercado de trabalho.

As funções femininas estão concentradas em determinados setores (grande parte no de serviços) e obtém os piores níveis de rendimento. A mulher negra, por exemplo, ganha 60% do salário do homem branco. De acordo com o livro, "as mulheres como grupo estão em desvantagem em relação aos homens em termos de salários, ascensão funcional e condições de trabalho(...)." Além disso, elas são selecionadas no mercado de "maneira seletiva", quer dizer, pela idade, escolaridade e estado civil. As mulheres mais jovens, mais alfabetizadas e solteiras são as que possuem mais chance.

Para mudar esse quadro, são necessárias políticas públicas que mobilizem os governos, os sindicatos e a população.

As pessoas interessadas na publicação podem contatar o CFEMEA, pelo telefone: (61) 328-1664, ou pelo e-mail: cfemea@cfemea.org.br .

 

TESE

O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA IGUALDADE E A DISCRIMINAÇÃO HOMOSSEXUAL: Ações e Omissões dos Poderes Públicos no Brasil

Autora: Salete Maria da Silva (*)

Mestrado - 2002 - Direito

UFC - Universidade Federal do Ceará

Época triste a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito que um átomo.

(Einsten)

 

Como professora de Direito Constitucional, da Universidade Regional do Cariri - URCA, localizada no interior do Ceará, e como pessoa profundamente interessada em questões de Direitos Humanos, tendo lido um verdadeiro arsenal de livros, revistas e jornais acerca da temática Humanista, deparei-me com a ausência de estudos na área jurídica, em nível de mestrado, voltado para o problema da discriminação contra homossexuais. À exceção do jurista Roger Raupp Rios, importante pesquisador gaúcho, autor do livro ‘A Homossexualidade do Direito’, dentre outros textos, temos que o problema da Sexualidade Humana, e mais especificamente da homossexualidade, não está presente nos livros de Direito, nem nas leis, nem na jurisprudência, nem na cultura jurídica deste país. Parece algo pouco merecedor de atenção, diria mais, de proteção.

Áreas como a sociologia, a antropologia, a psicologia, dentre outras, têm se preocupado com esta questão. O Direito, não. Daí porque buscar compreender esta ausência, este silêncio sobre algo tão presente ao longo dos tempos, em todas as sociedades.

Assim, decidi por enveredar neste caminho. Busquei fazer uma análise do princípio da igualdade jurídica (tão propalado na academia e tão desrespeitado em todos os lugares), em face das diversas situações de discriminação e violência às quais estão expostos os homossexuais (homens e mulheres), pelo simples e só fato de sentirem desejo e afeto por pessoas do mesmo sexo. Fiz um breve levantamento histórico da situação dos homossexuais no Mundo e no Brasil. Suas principais lutas, reivindicações e o preço da ‘aparição’.

Como disse em minha apresentação, escrevi um trabalho ‘nascido do interesse por tudo que é humano’. Ocupei-me de fazer um apanhado das Ações e Omissões dos Poderes Públicos no Brasil, no que concerne à questão da homossexualidade. Analisei, com muita dificuldade, ações do Executivo, do Legislativo e do Judiciário Federal. E, pasmem! - em que pese um ou outro projeto de Lei visando combater a discriminação (nunca aprovado em nível federal), uma ou outra atenção do poder executivo e legislativo da União, uma ou outra ação de magistrados de visão progressista e anti-discriminatória, temos que a homofobia (esta aversão a homossexuais) é uma prática constante nos diversos órgãos dos Poderes Públicos brasileiros, constituindo, inclusive, um entrave até mesmo para a discussão acerca da homossexualidade, dado a quase total inaceitação e intolerância para com essa forma de manifestação da sexualidade humana.

Em face disto, e para ilustrar o mal que a homofobia faz a toda a sociedade onde impera, registramos uma recente pesquisa da Anistia Internacional, apontando o Brasil como o país que mais assassina homossexuais no mundo.

Fortalecida nos diversos estudos do antropólogo Luiz Mott e outros, acabamos por afirmar que o Direito não pode esconder que os homossexuais existem, que vivem em sociedade e que as relações sociais nas quais estão envoltos, quase sempre, são eivadas de preconceitos e violência, gerando sempre mais violações a direitos humanos fundamentais, dos quais nós todos, seres humanos, somos titulares pelo simples e só fato de sermos humanos.

Daí buscarmos demonstrar porque a sociedade precisa se interessar por temas desta natureza, porque o Estado precisa ser chamado a elaborar e/ou participar de políticas públicas voltadas para a promoção dos direitos deste seguimento que constitui mais de 10% da população brasileira e que, por força da ignorância de muitos, continua à margem das ações dos Poderes Públicos constituídos.

Por fim, apontamos informações dando notícia de que os homossexuais compõem o grupo mais discriminado, mais odiado, mais vulnerável à violência gratuita e injustificada em nossa sociedade, sendo esta razão suficiente para exigir de todos nós, e em especial das entidades de direitos humanos, que, fortalecidas por pesquisas (inúmeras delas propostas espontaneamente pelos próprios homossexuais organizados), apresentem ações no sentido de elaborar uma agenda nacional, em parceria com universidade e poderes públicos, voltada para o combate à homofobia; primeiramente através da educação não-discriminatória, e, principalmente, constituindo meios e instrumentos - jurídicos, políticos e legais - que previnam e coibam a excessiva onda de infrações e crimes contra o ser homossexual.

(*) Salete Maria da Silva tem interesse

em publicar este trabalho. Contatos pelo

e-mail: sal.dc@zipmail.com.br- Fone: (88) 9957-3300