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Cunhary Informa nº 47 - Janeiro-Março/2002

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II Fórum Social Mundial

SEMEANDO UM MUNDO MELHOR

Um outro mundo é possível. Esta afirmação foi o pilar do  II Fórum Social Mundial, que aconteceu no período de 31 de janeiro a 5 de fevereiro de 2002, na cidade de Porto Alegre (RS), superando em muitos aspectos as expectativas dos organizadores, parceiros e participantes. Diversidade, solidariedade, fortalecimento social. A luta contra as políticas convenientes aos neoliberais globalizados mostrou toda a sua força, transformando propostas consideradas “alternativas”  numa agenda sociopolítica internacional, buscando atenuar as misérias e injustiças do mundo atual.

Como em 2001, a segunda edição do FSM ocorreu na mesma época em que a denominada “elite” econômica do planeta discutia, em Nova York, alguns destinos do mundo no Fórum Econômico Mundial, como vem ocorrendo há 32 anos. Sérgio Haddad, presidente da Abong, considera que “o FSM deve ser interpretado como um movimento político e não apenas um evento, apesar do seu impacto midiático frente ao Fórum Econômico Mundial. Sob o ponto de vista de um evento, poderíamos dizer que o FSM já trouxe resultados, ao menos no plano formal. Nunca se falou tanto de pobreza em Nova York.” Para ele, “mais uma vez o confronto de posições sobre os efeitos e o destino da globalização e as suas decorrentes políticas neoliberais foi inevitável.” (artigo Fórum Social Mundial – um processo em construção – site II FSM).

Moema Viezzer, da RME (em pé): discutindo Mulheres e Poder

E a marcha de abertura do II Fórum Social Mundial retratou esse confronto: protestos brasileiros contra o governo FHC, panelas argentinas contra as diretrizes político-econômicas recém-instauradas, europeus e até norte-americanos por várias causas, todos e todas contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), discriminações e injustiças variadas. Uma passeata emocionante, harmônica nas diferenças, que culminou num concorrido evento na Praça do Pôr-do-Sol.

Contudo, algumas organizações são “vetadas” no FSM, gerando polêmicas. Entre elas, as que utilizam a luta armada (Farc), a dos zapatistas de Chiapas e o ETA (bascos). Mas suas causas não deixam de ser discutidas em alguns debates. O presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, também foi “barrado no baile”.  (fonte: Caros Amigos Especial, março 2002, p. 5).

 

Expressão de sucesso

 

A dimensão e a importância do Fórum foi também constatada pela presença de personalidades brasileiras e internacionais, de vários campos de atuação, entre elas:  o governador gaúcho, Olívio Dutra; os cientistas políticos Emir Sader e Francisco Whitaker, este também secretário Executivo da Comissão Brasileira Justiça e Paz, da CNBB; o teólogo Leonardo Boff;  Rigoberta Menchú,  índia guatemalteca e Prêmio Nobel da Paz de 1992; o lingüista norte-americano Noam Chomsky; o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos; Adolfo Perez Esquivel , Prêmio Nobel da Paz de 1980; o médico italiano Vitório Agnoletto, coordenador da Liga Italiana de Luta contra Aids e um dos responsáveis pelo Fórum Social de Gênova.

Em números, outra expressão do sucesso do II FSM: estiveram presentes, ao todo, 51, 3 mil pessoas (210 etnias e 186 línguas), sendo 15.230 delegados de 4.909 organizações da sociedade civil (131 países), 11,6 mil jovens de 52 países,  sendo que 57% participantes foram homens e 43%, mulheres. Cadastraram-se 35 mil ouvintes no Comitê Gaúcho e 2,5 mil crianças no Forumzinho – que contaram com o apoio de 800 oficineiros voluntários

Depois do Brasil, a maior delegação presente ao Fórum foi a da Itália, seguida pela Argentina, França e Estados Unidos – este, uma surpresa para os organizadores. Apesar da discutível cobertura da mídia nacional, estiveram presentes, ao todo,  2,4 mil jornalistas de vários países.

As organizações que compuseram o Comitê Organizador brasileiro do II FSM foram: Abong, ATTAC-Brasil, Centro de Justiça Global, Cives, Comissão Brasileira de Justiça e Paz, CUT, Ibase, MST.


Emoção e esperança marcaram a assembléia de encerramento
 

As Mulheres com o FSM

Em 2002, as mulheres marcaram sua presença em várias instâncias do FSM, inclusive por meio da participação de diversas organizações no Comitê Internacional. Isso foi considerado por muitas feministas como um grande avanço para o movimento como um todo.

A campanha "Contra os fundamentalismos, fundamental é a gente", da Articulação Feminista Marcosul, teve grande destaque, principalmente na passeata de abertura do II FSM, atraindo em especial a atenção da mídia.

O Planeta Fêmea, com seu evento de abertura Recordar é Viver, foi outro grande marco feminino e feminista do Fórum. Conforme a ONG Cemina, o Planeta Fêmea, que nasceu na ECO-92, foi importante para a afirmação do movimento feminista por ter contribuído de forma decisiva para o olhar das mulheres na construção da Agenda 21. E essa experiência foi revivida em Porto Alegre. Uma tenda armada no campus da PUC/RS discutiu temas relacionados aos direitos humanos das mulheres. “O Planeta Fêmea respeitou a diversidade e promoveu o diálogo, foi um retrato da participação das mulheres no Fórum.” (site Cemina).

Moema Viezzer, fundadora e sócia-educadora da Rede Mulher, participou ativamente deste segundo Planeta e colaborou com o evento da ONG Redeh, juntamente com Thaís Corral e Schuma Schumaher, quando debateram sobre as lições aprendidas no seu surgimento, na Rio-92. No último dia do Planeta Fêmea foi lançado o Relatório da Consulta Nacional, realizada no Rio de Janeiro, sobre as estratégias das mulheres para a Rio+10 – Agenda 21 de ação das mulheres pela paz e por um planeta saudável.

A Rede Mulher no FSM

A Rede Mulher de Educação esteve presente no Fórum Social Mundial em Porto Alegre com quatro delegadas, suas sócias-educadoras, que organizaram oficinas e participaram de diferentes eventos.

Ruth Takahashi ministrou, no dia 3 de fevereiro, a oficina Soberania e Segurança Alimentar, para 47 participantes de diferentes grupos e países. Apesar de sua grande importância,  houve pouca oferta de oficinas sobre o tema. A proposta de trabalho da Rede Mulher foi a de abrir espaço para a troca de experiência e o eixo da discussão foi a necessidade de repensar a alimentação e o modo de produção dos alimentos, almejando uma vida mais saudável. Vale lembrar que o Espaço de Alimentação Saudável e Feira da Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul foram espaços concorridos no FSM.

 Mulheres e Poder foi outra oficina de sucesso realizada pela Rede Mulher, ministrada por Moema Viezzer e com o apoio de Ruth Takahashi e Paola Melchiori - diretora da Universidade Livre das Mulheres da Itália. Situações e problemáticas enfrentadas por lideranças femininas, de diversos campos de ação, foi o tema central debatido com as 65 pessoas que estiveram presentes ao encontro.

Denise Gomide (esq.) e Vera Vieira, com a pedra da
Rede Mulher para o grande Mosaico do FSM

A RME também marcou sua presença em outros debates e eventos, antes e durante o II FSM. Nos dias  29 e 30 de janeiro, a coordenadora executiva da Rede, Vera Vieira, participou da reunião promovida pelo Icae/GEO/Repem, onde estiveram presentes representantes de diversos países. O encontro realizou-se com o objetivo de definir uma ação mais incisiva no FSM, para um outro mundo possível que inclua a educação com perspectiva de gênero, bem como para definir as ações desta articulação para o próximo período.

Moema Viezzer fez parte da mesa no Seminário sobre Ética e Educação,  ao lado de Moacir Gadotti, Ângela Miles, Frei Betto, e do painel Ética, Educação e Globalização, este organizado pelo Instituto Paulo Freire. 

Ruth Takahashi (2ª esq.): visita e apoio à Cooperativa de Mulheres (RS)

Já Denise Gomide eVera Vieira participaram, no dia 2 de fevereiro, do seminário promovido pela agência financiadora holandesa Novib (apoio Oxfam Internacional) –  Global, Diverse and Plural Feminisms, que teve uma mesa coordenada por Silvia Borren – diretora da Novib – e composta por feministas renomadas.

 

Continuidade

Em reunião realizada nos dias 28 e 29 de janeiro, o Conselho Internacional (CI) decidiu realizar o Fórum Social Mundial 2003 novamente em Porto Alegre, mas também organizar fóruns continentais ou regionais em diferentes partes do mundo. Também foi reiterada a realização da terceira edição do Fórum Social Mundial na capital gaúcha, em 2003, na mesma data em que ocorrerá o Fórum Econômico de Davos,na Suiça. Já está confirmado o fórum regional Afro-Asiático, previsto para dezembro deste ano, provavelmente no Nepal.

“O FSM vem se constituindo no encontro de propostas e ações, refletindo a diversidade de interesses dos seus participantes: movimentos sociais, sindicatos, ongs, pastorais, pesquisadores, grupos juvenis e outros. Todos de acordo com o diagnóstico de que, a continuar o mundo a ser organizado na forma em que está, os problemas sociais se agravarão, os recursos naturais se esgotarão, a possibilidade de um mundo de paz estará inviabilizado. O FSM é um espaço em construção, sujeito a interpretações e pressões sobre o seu sentido e seu futuro. É um espaço de debates de idéias, propositivo, ao mesmo tempo de mobilização, de organização da luta. É ainda um espaço contestatário, com manifestação de inconformismo.” (Sérgio Haddad, presidente Abong, em seu artigo Fórum Social Mundial – um processo em construção).

Site oficial FSM: http://www.forumsocialmundial.org.br

 
Um mundo mais feminino é possível?

Cândido Grzybowski
Sociólogo, Diretor do Ibase

Isto não é bem uma análise, é mais um desabafo na forma de testemunho. Certo, não consigo me desvencilhar de um jargão "sociológico", forjado ao longo dos 56 anos bem feitos. Mas tento. Talvez pior do que o olhar empres-tado à certa ciência social seja a viseira machista em que fui treinado, ou melhor, domesticado e formado. Aí começa o meu testemunho: somos poucos, muito poucos, a reco-nhecer a verdadeira estrutura mental, de formas de pensar a realidade, que as desiguais relações de gênero criam na nossa cultura e que são nosso modo de ser.

Tomo o Fórum Social Mundial como exemplo de meu testemunho, pois coincide com a minha fase mais cons-ciente e militante de homem que começa a ver a complexi-dade das relações de gênero a moldar as desiguais estrutu-ras sociais. Dado o meu papel na frente do Ibase e como membro do Comitê de Organização do Fórum Social Mun-dial, sinto que vivo internamente um enorme desafio - as outras e os outros não sabem - de ordem intelectual, política e ética: usar a minha posição para fazer avançar a presença e a perspectiva das mulheres nestes espaços em que tenho influência. Olhem, não é fácil! As artimanhas que a cultura machista - o pão nosso de cada dia - nos prega são maiores do que a gente pensa.

Vou começar pelo mais simples: as mulheres no encer- ramento do Fórum Social Mundial. Coube a mim preparar o ato. Não falo do estilo, uma opção pela cele-bração da solidariedade na diversidade com mais emoção do que discurso, que foi um sucesso pelo que ouço de todas e todos. Destaco aquilo que talvez muitos não perce-beram: o esforço em pôr mulheres em tudo. As trapalhadas de um quase feminista foram evidentes. Havia muitas mulheres nos diferentes papéis do ato. Uma mulher animou toda a cerimônia. Muitas mulheres falaram em nome dos diferentes grupos sociais constitutivos do Fórum, até mais do que delegadas. Afinal, elas foram apenas 43% das dele-gadas, mesmo sendo mais de 50% da população mundial! É triste reconhecer, mas o Fórum Social Mundial ainda foi pequeno em termos sociais, em sua face feminina. Não é uma cerimônia, brilhantemente fechada por uma mulher, a Lia de Itamaracá, que pode esconder tal realidade.

Mulheres havia muitas, provavelmente a maioria. Fizeram muito barulho, especialmente com a Campanha Contra os Fundamentalismos. E sua presença com o Pla-neta Fêmea tinha que ser notada. Um progresso indiscu-tível em relação ao Fórum Social Mundial de 2001. Mas quanto temos ainda a fazer! Existe um viés estrutural que não dá protagonismo para as mulheres. A começar por nós no Comitê Organizador. Até achamos que estávamos sendo corretos pondo uma mulher para liderar a coletiva de imprensa, no dia 30.01.02, antes da abertura oficial do Fórum. A cena foi patética: uma única mulher no meio de outros sete homens representantes das entidades e movimentos do Comitê Organizador e ainda mais dois outros homens, o governador e o prefeito. O pior foi a solução encontrada. Como constatou uma jornalista presente: "Que coisa mais aborrecida! É assim em todo lugar. Ela é a única mulher e a única que está trabalhando!"

Através do Fórum Social Mundial estou aprendendo algo fundamental, que certamente vai mudar o desempenho do papel que acabo tendo nele e no Ibase. As mulheres são "minoria" criada por nós mesmos, no seio da sociedade civil. Não adianta culpar o capitalismo, o neoliberalismo, a globalização, os Estados excludentes, etc., etc. Este é um dos grandes problemas que se ges-tam, desenvolvem e mantêm na cultura civil. Na verdade, a jurássica cultura machista ainda tem terreno fértil e, como vírus, penetra em todo tecido social, nos fazendo seus reféns. Temos que mudar a cultura, tornar os direitos princípios éticos constitutivos de todas as relações sociais, de homem e mulher, de marido e esposa, de pai e filha, de patrão e empregada. Enfim, trata-se de reco-nhecer que as estruturas sociais são fruto de múltiplas determinações, onde relações de gênero, sem dúvida, têm um papel constitutivo até aqui pouco admitido.

"Um outro mundo é possível", é o lema do Fórum Social Mundial. Olhando de uma perspectiva feminina, a tarefa é bem mais gigantesca do que parece. Estamos incomodando o pensamento único dominante, sem dú-vida. Mas estamos nos incomodando, nós mesmos, como nossos machismos, racismos e intolerâncias? A especifi-cidade do Fórum Social Mundial é estabelecer o diálogo entre os diversos. Isto dá originalidade e força ao Fórum na construção de uma globalização das cidadanias no Planeta Terra. Mas o caminho é longo e cheio de per-calço. Espero que as mulheres nos façam ser radicais, fazendo como até aqui vêm fazendo: cobrando e nos incomodando.

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