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Rio+10 fracassa ao não definir metas para as decisões
anteriores e ao não avançar em temas estratégicos.
As mulheres, a exemplo de outras conferências
internacionais, participam ativamente, apesar do contraste
organizacional entre o Planeta Fêmea (Rio92) e a Tenda das
Mulheres deste ano.
Para onde nos levam as frustrantes "mais 5" e "mais 10"?

A IN-SUSTENTÁVEL CONFERÊNCIA DE JOANNESBURGO
Shona, malanga,, shona" (o sol não vai parar de brilhar) -
Canção Zulu entoada na manifestação dos Sem-Terra em
Joannesburgo

A Conferência Mundial de Desenvolvimento Sustentável - Rio+10 -
recolocou no centro dos debates as relações entre a população e o
meio ambiente, levando diferentes setores sociais organizados a
refletirem sobre a interdependência entre esses dois pólos da
equação e a maneira como segmentos específicos da população afetam
e são afetados pelo ambiente.
Realizada em Joannesburgo, África do Sul de 26 de agosto a 4 de
setembro, a Conferência tinha como objetivo rever as políticas e
avaliar os sucessos e fracassos da implementação dos planos de
sustentabilidade definidos na Eco-92, além de trabalhar sobre as
novas questões que surgiram nos últimos 10 anos, em especial o
atual sistema econômico e modelo de globalização neoliberal,
responsáveis pelo aumento da pobreza e da degradação do meio
ambiente.
A Conferência contou com uma delegação de 168 países, cerca de
64 mil participantes, dos quais aproximadamente 200 brasileiros.
Esse número foi muito inferior ao previsto pelos organizadores,
com baixíssima participação de representantes da América Latina e
Caribe.
Os principais eventos da Conferência aconteciam em três locais:
o Centro de Convenções de Sandton, onde se reuniam os governos e
eram realizados os eventos organizados pelas Nações Unidas; o
Centro de Exposições de Nasrec, espaço destinado ao Fórum de ONGs;
e o Ubuntu Village, com os eventos ligados à Ciência e Tecnologia
e a exposição dos países, onde se destacava o estande do Brasil -
um dos maiores e o segundo em estrutura e visibilidade. Além dos
espaços principais, os eventos ainda aconteciam no Shareworld,
acampamento dos Sem-Terra sul-africanos e da Via Campesina; no
Waterdome, local de exposições; na Universidade de Wits, onde o
Fórum Anti-Globalização, as Centrais Sindicais e o Peoples’
Earth Summit organizaram eventos, e em vários prédios e locais
alugados ou cedidos para entidades internacionais.
Essa diversidade espacial não vinha acompanhada de nenhum
sistema de informação que permitisse uma visão do conjunto dos
eventos, o que provocava uma grande dispersão e frustração dos/as
participantes da sociedade civil, que não conseguiam acompanhar as
atividades. Esses espaços ficavam muitos quilômetros distantes
entre si, o que resultava em horas perdidas em transportes para
chegar ao local de uma determinada atividade - muitas vezes para
descobrir que ela já acontecera, ou fora transferida de local, sem
prévio aviso.
A ausência de organização e as longas horas de deslocamentos
nos ônibus pelo menos nos permitia conhecer a Joannesburgo da
Conferência: uma cidade cosmopolita, requintada, com seus mega
shoppings, cafés e restaurantes luxuosos... branca.
Nesses percursos sempre fazíamos a mesma pergunta: onde viviam
os negros sul- africanos, que só víamos trabalhando e ser-vindo os
que clamavam por justiça social e ambiental e por uma sociedade
com eqüidade? Para onde iam depois de, como diz Alzira Rufino,
limpar as mesas de decisão, nossas e dos governos, ou depois de
recolher o lixo que deixávamos à nossa passagem? Certa-mente não
iam para os luxuosos condomínios protegidos por grades e cercas
eletrificadas. Certamente não para os edifícios luxuosíssimos;
certamente não para as chácaras bucólicas, guardadas por uma
legião de cães adestrados.
A resposta veio no dia 31 de agosto, durante uma manifestação
organizada pelo movimento dos Sem-Terra , na periferia de
Joanesbugo, num bairro popular chamado Alexandria, mas que poderia
ser a Cidade Tiradentes, a COHAB 2, Cidade de Deus, Vila
Brasilândia, onde lá como aqui a população negra e pobre aproveita
o sábado para "tratar" o cabelo, lavar as roupas da semana, ralhar
com as crianças, limpar as casas e viver o pouco de humanidade que
o desenvolvimento in-sustentado lhes permite.
Finalmente reconhecíamos a África, e nela um pouco do Brasil
feito de seus descendentes. Colorida, ruidosa. Miserável, mas,
paradoxalmente, digna na sua pobreza.
A manifestação reuniu cerca de 20 mil pessoas, e se constituiu
num dos mais importantes atos da Conferência. A manifestação foi
conduzida por duas mulheres. Fortes e alegres, tentavam, no
caminhão de som, dar conta de palavras de ordem que incluíssem
toda a diversidade presente. Durante todo o percurso éramos
saudadas pelos moradores que saíam às ruas, cantando e repetindo
as palavras de ordem. Foram cerca de 10 quilômetros de caminhada
sob forte esquema policial, tanques de guerra e helicópteros,
daqueles que dão frio na barriga quando lembramos do que essa
polícia foi capaz, para reprimir as lutas contra o Apartheid.
A manifestação terminou nos fundos do Centro de Convenções -
onde encastelados e alheios ao que se passava à sua volta, os
donos do meio e do ambiente decidiam os destinos do planeta.
Essa manifestação é emblemática do espírito que norteou a
Conferência.
A Conferência e as Mulheres
Nos últimos dez anos, a ONU promoveu várias conferências
mundiais, como a de Direitos Humanos, População e Desenvolvimento,
Mulheres, Desenvolvimento Social, Assentamentos Humanos, Segurança
Alimentar, Educação, e de Combate ao Racismo. As mulheres vêm
atuando de maneira organizada em todas elas, e se constituindo num
dos mais eficientes lobbies nesses encontros internacionais, para
a incorporação de suas reivindicações.
Thaís Corral e Shumaher, da Redeh, num documento de avaliação
da participação das feministas na Conferência, ressaltam que "para
as mulheres esses grandes fóruns mundiais representaram um
importante espaço de articulação política e de visibilidade,
permitindo a construção de uma agenda que foi sendo reafirmada em
cada uma dessas conferências, com ênfase em aspectos específicos
que se referiam à pauta em questão de cada uma das megareuniões".
Na Conferência de Joannesburgo não foi diferente: as mulheres
organizadas conseguiram uma difícil vitória contra a posição
defendida pelas delegações do Vaticano, países islâmicos mais
conservadores e Estados Unidos. Através de um eficiente lobby e
manifestação pública conseguiram modificar a redação do texto do
parágrafo 47 da Declaração Final, que dizia que "os Estados
deveriam fortalecer os sistemas de saúde para oferecer assistência
a todos, em consonância com valores nacionais, culturais e
religiosos". Essa redação representava um grande retrocesso às
nossas conquistas em conferências anteriores, em especial a que
garantia que os direitos das mulheres são direitos humanos, tantas
vezes reafirmados nas Conferências Internacionais. Só no apagar
das luzes conseguiu-se aprovar um adendo ao parágrafo, que
acrescentava "em consonância com os direitos humanos e as
liberdades fundamentais".
Apesar dessa conquista, e embora as mulheres tivessem se
organizado internacionalmente para a Cúpula de Joannesburgo, os
resultados dessas reuniões não foram traduzidos em participação e
organização. A Tenda das Mulheres organizada pela WEDO, tinha
muito pouco em comum com o Planeta Fêmea organizado pelas mulheres
na Rio92. Distante dos espaços de discussão, sem tradução, sem
nenhuma identidade feminina, a Tenda não conseguiu cumprir seu
papel de aglutinar as diferentes correntes de pensa-mento
feminista.
Sob o título Women’s Action Tent, a programação no papel
era extensa e abrangente, organizada em consonância com os cinco
pontos da Agenda 21 de Ação das Mulheres pela Paz e por um Planeta
Saudável 2015: Paz e Direitos Humanos, Globalização e
Sustentabilidade; Acesso e Controle dos Recursos; Segurança
Ambiental e Saúde; e Governança para o Desenvolvimento
Sustentável, desdobrados em subtemas de grande interesse para nós
feministas. Mas, se os temas eram abrangentes, a escolha das
expositoras nem tanto, num grande desequilíbrio entre Norte e Sul:
das 157 mulheres listadas na programação, contávamos com duas
cubanas, duas colombianas, uma salvadorenha e duas brasileiras
(Thaís Corral e Alexandriana Sobreira, secretária do Meio Ambiente
de Recife).
Ao descaso com a contribuição das feministas latino-americanas,
com larga experiência nas discussões sobre gênero e
desenvolvimento sustentável, soma-se a ausência da questão
étnica/racial, não apenas na programação da Tenda como na própria
Agenda, ignorando as deliberações da Conferência Mundial contra o
Racismo e na contra-mão dos princípios feministas que defendem uma
sociedade sem sexismo, sem racismo ou qualquer forma de
preconceito e discriminação.
Mas, a despeito de nossas idiossincrasias, ainda somos um dos
setores mais eficientes nesses espaços internacionais, o que pode
ser verificado na visibilidade das nossas questões que ocuparam
importantes espaços na mídia nacional e internacional durante a
Conferência.
Numa retrospectiva analítica e considerando as questões que
estavam em jogo em Joannesburgo, podemos considerar que do ponto
de vista de gênero caminhamos: se não obtivemos grandes
conquistas, conseguimos barrar um enorme retrocesso. O pensamento
ecopolítico foi capaz de absorver as questões de gênero nas
políticas macroeconômicas. Nosso desafio é incluir nessa
perspectiva o impacto do racismo ambiental na vida de milhões de
mulheres. Ao incluir a temática racial nos temas tratados da
Agenda 21 das Mulheres, estaremos dando maior densidade aos
anseios de paz e direitos humanos.
A ausência da temática racial causou enorme constrangimento
entre as feministas brasileiras presentes na Conferência, uma vez
que as mulheres negras trabalharam propositivamente na construção
da Agenda.
Numa atitude inédita, as mulheres da Redeh - que foram
responsáveis, juntamente com a WEDO, pela sistematização das
contribuições da Agenda das Mulheres - reconheceram, através de
uma carta, a omissão da temática racial. Essa atitude corajosa
contribui para a superação das relações assimétricas entre nós
mulheres e nos faz crer que estamos no caminho certo. Que é
possível construir um novo mundo baseado na cumplicidade, na ética
e no respeito mútuo. |