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Cunhary Informa no 55 - Janeiro-Março/2004 |
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As ações para uma sociedade mais justa e
eqüitativa devem contemplar os desafios irreversíveis trazidos
pelas Novas Tecnologias da Informação e Comunicação As
profundas transformações no universo da mídia de massa -
eletrônica e impressa - estão ocorrendo no campo técnico,
político, econômico e sociocultural. As mídias antigas e
novas caminham para a confluência, com um sistema
contaminando o outro, graças à tecnologia da informatização
e dos sistemas digitais, elementos comuns a todas elas:
computadores multimídia, discos laser, CD-ROM, banco de
dados portáteis, livros eletrônicos, redes de videotextos,
telefones inteligentes, satélites de transmissão direta e a
Internet com seus novos recursos multimídia.
Foi fundamental a participação da sociedade civil, apesar de
tímida, na Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação,
convocada pela ONU, em dezembro/2003, em Genebra. A segunda
etapa da Cúpula será na Tunísia, em 2005, o que propicia
incidir de forma mais intensa e estratégica. Um
novo tempo, um novo espaço: as coisas fora do lugar. É
preciso encarar o novo paradigma que se vislumbra para a
humanidade, aproveitando-se os aspectos positivos do
panorama que se configura de forma irreversível, visando a
alcançar a cidadania global e a evitar a ‘desintegração
globalizante’.
Paulo Freire costumava perguntar: "Alfabetizar para que?". E
respondia, mais ou menos assim: "Para que as pessoas
alfabetizadas se transformem e se tornem capazes de utilizar
esse saber para a transformação social". A mesma pergunta e
a mesma resposta se aplicam com relação às novas tecnologias
da informação e comunicação (TICs). Saber manusear o
computador, por exemplo, é importante, mas desde que esteja
embutido o objetivo de se tornar um Afinal, o que é a informática? Os
sistemas informatizados ganham um impulso estrondoso,
principalmente, a partir dos anos 80, exercendo forte
influência nas mais diversas atividades, entre elas,
comunicações, indústria, medicina, agricultura, etc. Logo
no início dos anos 70, os micropro-cessadores permitiram que
as máquinas operatrizes passassem a ser comandadas por
processos computacionais. Em seguida, acelerou-se a
substituição dos processos de produção e técnicas com a
criação de novos produtos, como fax, vídeo, CD, computador,
sementes de laboratórios (biotecnologia), etc. As
inovações tecnológicas, principal-mente a da informática,
configuraram a ressignificação das práticas capitalistas, ou
seja, o avanço do processo de globalização, que se acentua
com o advento da internet. A grande diferença do significado
da palavra globalização está na produção com base na
formação de grandes empresas em rede, com atividades
planetárias (por exemplo, a compra de componentes em várias
partes do mundo, que se utilizam de mão-de-obra barata; a
concentração de empresas aonde convém; o controle dos
mercados, on line, por poucos monopólios mundiais). O
intenso processo de fusão de empresas, tanto na área
produtiva, como na financeira, só foi possível graças à
revolução das tecnologias da informação e comunicação. As
grandes empresas passam a formar os megaconglomerados,
infiltrando-se no sistema financeiro, de informação, de
telecomunicações, no âmbito político, etc. Essa prática
acentua a subordinação dos países pobres, aumentando o
número de pessoas completamente excluídas do sistema. A
Terceira Revolução - como vem sendo denominada a inovação
tecnológica verificada nos últimos anos - está provocando
novas noções de tempo e espaço, um novo modo de agir e
pensar. A relação do ser humano com as novas tecnologias
ocorre no campo da racionalidade - técnico, com finalidade
prática - e no campo da subjetividade - com os símbolos que
permeiam a relação comunicacional.
Novas tecnologias para que? Não
há dúvida de que saber manusear o computador e a Internet é
importante, mas desde que esteja embutido o objetivo de se
tornar um instrumento de empoderamento das pessoas e das
comunidades, para o avanço de uma sociedade justa e
eqüitativa. Ter acesso significa não apenas acesso à
tecnologia, mas também à informação e ao conhecimento
(qualidade da informação, em formato e linguagem adequados
ao público que é dirigido, etc.). A produção, armazenagem e distribuição de
informação serão a atividade social e econômica dominante. A questão central é se a nova mídia nos
tornará individual e coletivamente mais livres e mais
competentes para lidar com os complexos problemas da
democracia pós-industrial. Nunca fui ingênuo apreciador da
tecnologia: não a divinizo, de um lado, nem a diabolizo, de
outro. Por isso mesmo sempre estive em paz para lidar com
ela. A reflexão crítica sobre a prática se
torna uma exigência da relação Teoria/Prática, sem a qual a
teoria pode ir virando blablabá e a prática, ativismo. As
novas tecnologias da informação e comunicação são um
importante instrumento para o desenvolvimento comunitário e
para a mudança social, considerando os contextos cultural,
social, político e econômico. As
relações de poder, que envolvem classe, gênero, raça, etnia,
idade, localização geográfica, produzem complexas
desigualdades relativas à mudança social, em geral, e às
mudanças produzidas pelas TICs, em particular. As
desigualdades sociais se refletem no desenvolvimento do
acesso e do uso das TICs. É preciso adquirir a compreensão
das relações de poder dentro da sociedade. Esse
reconhecimento significa consciência das desigualdades das
relações de poder entre mulheres e homens, negros e brancos,
Norte e Sul, ricos e pobres, campo e cidade, pessoas com ou
sem conexão, dentro da comunidade local, em países soberanos
e no âmbito internacional.
Colocar o foco na mudança social significa iniciar um
processo que relacione uma iniciativa TIC com o contexto
social, político, cultural e econômico mais amplo, para
entender como esse contexto afetou a iniciativa TIC e
vice-versa. Trata-se de um processo que exige sensibilidade
e flexibilidade para responder às questões que forem
aparecendo no decorrer do trabalho na comunidade. A Internet
pode ser usada, por exemplo, para realizar campanhas
públicas sobre problemas nos grupos de base, para dar a
conhecer a um público internacional a difícil situação das
comunidades em conflito e para apelar por solidariedade e
apoio, entre outras coisas. Em
suma: o uso da Internet gera debates sobre problemas, apoio
aos mesmos, além de catalisar uma maior ação. Ao
se trabalhar para transformar as relações de desigualdades,
é preciso ter consciência de que as TICs podem ser
utilizadas tanto para exacerbar como para transformar as
relações de poder desiguais. Parte desse reconhecimento
significa ser consciente das limitações das TICs – que, em
si e por si sós, não podem levar à eqüidade de gênero, nem
eliminar a pobreza, mas podem, sim, servir de ferramentas
para a ação social e para a mudança social positivas. A cadeia histórica formada por uma
coletividade que almeja a eqüidade entre as pessoas,
constituindo-se em consumidores/as de mensagens cada vez
mais críticos/as e ativos/as, estará redesenhando a
arquitetura de luta cujas novas marcas requerem um outro
olhar para se efetivar. É uma lente que vai focar a
inter-relação da comunicação com a educação, em um percurso
que busca atualizar a teoria e a prática, incorporando o
domínio do modo de funcionamento, o preparo para a leitura
crítica e a criação de mecanismos efetivos de intervenção. A Cúpula Mundial e a influência da sociedade
civil organizada
Agendada em duas etapas - de 10 a 12/12/2003, em
Genebra/Suíça, e em 2005, na Tunísia -, a Cúpula foi
determinada pela Assembléia Geral da ONU. A preparação de
ambas as etapas é de responsabilidade, principalmente, da
UIT (União Internacional de Telecomunicações - um órgão das
Nações Unidas que estabelece as normas técnicas e
administrativas para a rede global de telecomunicações, com
sede em Genebra; tem liderado a padronização digital),
UNESCO, UNDP e países anfitrões. A Cúpula aborda uma ampla
gama de assuntos relativos à chamada "Sociedade da
Informação", e, como resultado, se prevê uma melhor
compreensão da trans-formação da sociedade. Conta com a
participação de representantes de Estados, setor privado e
sociedade civil. Na
primeira etapa, foi adotada uma Declaração de Princípios e
um Plano de Ação para facilitar o desenvolvimento efetivo da
Sociedade da Informação, contribuindo para preencher a
brecha digital (ver sites www.itu.int/wsis/ -
www.socinfo.org.br - www.sociedaddigital.org -
www.cmsi.org.br). Foi
tímida a participação e o poder de influência da sociedade
civil nas Conferências Preparatórias para a primeira etapa,
mas é possível reverter esse quadro no processo para a
segunda etapa, em 2005, que tem como objetivo avaliar e
apresentar modificações. A
real possibilidade de influir na CMSI é um desafio para as
mulheres, uma vez que o campo das políticas em TICs é
predominantemente masculino. A linguagem utilizada é
bastante técnica e, portanto, exige conhecimentos
específicos, ao que se soma a complexidade do campo devido a
sua interdisciplinaridade e conjugação de agendas políticas
diversas. Leia na página seguinte, como as feministas
brasileiras vêm tentando se articular para discutir a
especificidade do recorte de gênero nas novas tecnologias da
informação e comunicação, como forma de incidir nas próprias
práticas sociais e nos processos da Cúpula. Em outubro de
2002, ativistas feministas formaram um grupo de trabalho em
torno da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da In-formação (CMSI)
dada a emergência do tema das Novas Tecnologias de
Informação e Comunicação (TICs) e seu impacto na vida das
mulheres. Uma lista eletrônica foi criada como espaço para
discussão e debate entre as integrantes deste grupo,
iniciando, assim, um diálogo sobre a CMSI, sob a perspectiva
feminista. Os esforços do
grupo de trabalho na realização de um Seminário tiveram como
objetivo: a análise do estado da arte das negociações da
CMSI; consolidação da articulação formada em 2002 e sua
ampliação; e a construção de uma estratégia de intervenção
política no processo da Cúpula, a partir da perspectiva de
gênero e raça. O projeto do
Seminário, financiado pelo Fundo Ângela Borba, foi desenhado
coletivamente e ficou sob a responsabilidade da Rede Mulher
de Educação, com o apoio da Rede DAWN e do Instituto
Patrícia Galvão. A verba solicitada propiciou a realização
do "Seminário Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação
sob uma Perspectiva de Gênero", na sede da Rede Mulher de
Educação (São Paulo), nos dias 21 e 22 de outubro de 2003,
além da efetivação de uma ação estratégica: a participação
na II Reunião do Grupo de Trabalho da Comissão
Interministerial para a Posição Brasileira na CMSI, em
Brasília, em 03/11/2003. Lidando com a complexidade do tema O Seminário foi
idealizado em função da constatação da baixa participação do
movimento de mulheres e, em especial, do movimento
feminista, nas discussões sobre Sociedade da Informação
advindas da preparação para a CMSI. A agenda, assim, se
desenvolveu de maneira a abarcar o relato das tensões nas
negociações em Genebra; a descrição dos temas-chave da
Cúpula e da posição brasileira; e o panorama sobre a
organização dos atores na dinâmica das negociações, com
ênfase sobre a sociedade civil e agências da ONU envolvidas
no processo, criando um ambiente propício para o
desenvolvimento das estratégias de ação política que
resultaram do debate do seminário. Avanços O principal
resultado do Seminário foi a criação do Fórum de Gênero
pela Cidadania Digital, pelas participantes do
Seminário. O Fórum surge a partir da constatação de
que o grupo de trabalho – ao longo de debates ainda que
dispersos na lista eletrônica de discussão – ganhou
densidade política e que, portanto, uma nova etapa deveria
ser iniciada. E como Fórum
as participantes planejaram ações estratégicas, dentre elas:
ampliar e sistematizar informação sobre a CMSI; influir na
posição brasileira na primeira fase da Cúpula, Genebra,
dezembro de 2003 (foram enviadas cartas para alguns
ministérios e entidades representativas da sociedade civil,
destacando preocupação com relação a possíveis retrocessos
da linguagem consagrada no âmbito da ONU, sobre igualdade e
eqüidade de gênero, ausência de linguagem sobre a
desigualdade e iniqüidade racial -; início do debate para a
segunda fase da Cúpula em Túnis, 2005, entre atores
sociais-chave, além da parceria com instâncias
governamentais, universidades e agências financiadoras,
visando à formulação, geração de argumentos e propostas para
a construção tanto da posição brasileira para a segunda fase
da CMSI, quanto a sua intervenção durante os Prep-Coms até
Túnis. FONTES DESTE ENCARTE: Dissertação de
mestrado ‘Gênero e Educação para Intervenção na Mídia’,
defendida por Vera Vieira, na USP/ECA, em 2002; GEM-TICs -
Metodologia de Avaliação de Gênero em Novas Tecnologias da
Informação e Comunicação, da APC/PARM; e Relatório de
Atividades do projeto financiado pelo Fundo Ângela Borba
(Seminário Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação
sob a Perspectiva de Gênero), elaborado por Magaly Pazello,
em 2003. |
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