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Recentemente
o
Movimento
dos
Sem-teto
de
São
Paulo fez
um
protesto
original,
levando
um
grupo
de
sem-tetos
a
passear
por
um
shopping center. A
situação
causou
grande
estranheza
entre
todos
os
freqüentadores
do
local.
Alguns
comerciantes
chegaram
mesmo
a
fechar
suas
portas,
com
medo
de
eventuais
“riscos“ à
sua
segurança.
A
situação
era
tão
inusitada
que
virou
notícia
e ganhou
grande
projeção
na
mídia
nacional.
Um
shopping recebe
milhares
de visitantes
todos
os
dias.
O
que
fez
com
que
a
visita
daquelas
dezenas
de
pessoas
causasse
tamanha
estranheza
a
ponto
de
virar
notícia
em
todo
o
País
foi
simplesmente
o
fato
de se
ter
armado uma
situação
em
que
as
coisas
estavam
decididamente
fora
de
lugar.
A
presença
daqueles excluídos da
sociedade
de
consumo
em
um
lugar
que
é,
por
excelência,
um
centro
de
consumo
-
um
lugar
de
referência
para
os incluídos-teve o
mérito
de
quebrar
as
regras
da normalidade. Nesse
sentido,
evidenciou
aquilo
que
não
costumamos
notar,
por
já
estarmos habituados a
ver.
Ao
quebrar
a
regra
normal,
tornou-a
evidente.
Jogou
luzes
sobre
uma
situação
absolutamente
comum:
nossa
sociedade
de
consumo
produz
enormes
massas
de excluídos; e, ao
jogar
as
luzes
dessa
forma,
criou
condições
para
que
estranhássemos essa normalidade.
Nos
chocou.
Algo
ali
estava
fora
do
lugar.
Mas
o
que
esta
história
pode
nos
dizer
sobre
as
experiências
de
instituições
que
hoje
desenvolvem
projetos
de
gênero
e
geração
de
renda?
A
meu
ver,
diz
muito.
Mas
já
chegaremos
lá.
Antes
disso,
penso
que
devemos
nos
entender
a
respeito
do
que
seja
falar
em
gênero
e do
que
temos
em
mente
quando
dizemos “gênero
e
geração
de
renda”.
Para
compreender
melhor
as potencialidades e a
importância
da
apropriação
de uma
perspectiva
de
gênero
em
experiências
de
geração
de
emprego
e
renda,
precisamos,
antes
de
tudo,
compreender
a
pluralidade
de
sentidos
dados
ao
conceito
de
gênero
e as
formas
como
é utilizado
em
diferentes
projetos
e
instituições.
Isso
nos
ajuda
a
constatar
que,
a
partir
da
perspectiva
com
a
qual
se trabalhe, pode-se
enfocar
e
estimular
diferentes
impactos
sobre
as
relações
de
gênero
a
partir
das
práticas
proporcionadas
por
programas
de
geração
de
renda.
É
este
o
movimento
deste
texto,
que
procura
apenas
dar
alguns
subsídios
para
uma
discussão
que
está se iniciando e
que,
como
tal,
não
permite afirmações categóricas e
tampouco
respostas
definitivas.
A
trajetória
de
um
conceito
À
medida
que
um
conceito
vai sendo
mais
e
mais
utilizado,
já
não
nos
perguntamos
diretamente
pelo
seu
significado.
Se há
alguns
anos
ainda
se perguntava explicitamente o
que
significava o
conceito
de
gênero,
hoje
essa
pergunta
vai se tornando
rara
no
campo
das
ações
de
intervenção
social.
Para
o
bem
ou
para
mal,
todos
têm alguma
noção
do
que
se
trata
ao
falar
em
gênero
e
desenvolvimento.
Por
um
lado,
isso
significa
que
o
termo
tem se popularizado no
campo
e vem sendo
relativamente
bem
aceito.
Por
outro,
traz
um
grande
risco
de
mal-entendidos,
isso
porque
tantos
são
os
sentidos
dados
ao
termo
gênero
quanto
os
interlocutores
que
o utilizam.
Talvez
um
bom
exercício
não
seja
tanto
o de
buscar
uma
definição
precisa
do
conceito
de
gênero,
mas
ter
consciência
sobre
suas
diferentes
definições
e
utilizações.
Antes
mesmo
de
surgir
como
um
conceito
importante
no
mundo
da
ação
política
e da
intervenção
social,
o
gênero
já
vinha
trilhando
um
caminho
próprio
nas
pesquisas
acadêmicas,
inicialmente
naquelas
que
buscavam
ferramentas
de
análise
para
compreender
as desigualdades
entre
homens
e
mulheres.
Na
universidade,
o
conceito
de
gênero
surgiu no
contexto
dos chamados
estudos
sobre
mulheres,
em
um
momento
em
que
pesquisadoras
feministas
buscavam
formas
de
desnaturalizar
a
condição
das
mulheres
em
nossa
sociedade.
Nesse
sentido,
era
preciso
encontrar
conceitos
que
permitissem
diferenciar
aquilo
que
as
mulheres
tinham de
natural,
permanente,
e
igual
em
todas as
épocas
e
culturas
- o
sexo-,
daquilo
que
dava
base
para
a
discriminação
e,
por
ser
socialmente
construído,
variava de
sociedade
para
sociedade
e podia
mudar
com
o
tempo”o
gênero
(Lobo,
1987)”
Esse
movimento
deu
origem
a
diferentes
teorizações
acerca
do
conceito
de
gênero,
inicialmente
utilizando-o
como
componente
de
um
sistema
de classificação
social,
como
fez Gayle Rubin, outras tomando-o
como
sistema
cultural,
como
Collier e Rosaldo,
ou
ainda
caracterizando-o
como
um
bom
instrumento
de
análise,
como
fez Joan Scott (Heilborn, 1992).
Em
comum,
essas
formas
de
compreender
teoricamente o
conceito
de
gênero
tinham a
referência
a
modelos
culturais de
largo
alcance
que
definiam,
para
as
categorias
homem
e
mulher
/
masculino
e
feminino,
conteúdos
socialmente
elaborados.
Essa é uma
visão
bastante
difundida no
campo
das ONGs, e uma de
suas
definições
mais
comuns
é a de
que
gênero
é o
sexo
socialmente
construído.
Segundo
essa
interpretação,
a
natureza
define
dois
sexos
biológicos (homens
e
mulheres),
e cabe à
sociedade
agregar
a
esse
dado
natural
diferentes
valores,
significados,
atributos,
etc. Dessa
forma,
dependendo do
sexo
com
que
cada
um
nasça, será educado de uma
dada
maneira,
aprenderá o
que
pode
ou
não
fazer,
como
deverá
ou
não
se
comportar,
sempre
de
acordo
com
um
modelo
geral
do
que
é
masculino
e
feminino,
construído
pela
sociedade.
Isso
significa
também
que
terá
tais
ou
quais
oportunidades
na
família,
na
escola,
no
trabalho
e
que
passará
por
tais
ou
quais
situações
de
discriminação
durante
sua
vida.
Essa
definição
de
gênero
é
bastante
comum
nos
documentos
das ONGs
porque
é
fácil
de
ser
compreendida e permite uma boa
estratégia
de
denúncia
e transformação
social.
Mas
devemos
observar
que
ela
tem, ultimamente, recebido
críticas
importantes.
Segundo
essa
definição,
temos
dois
modelos
de classificação do
mundo:
o
masculino
e o
feminino,
que
a
sociedade
constrói e
que
orientam a socialização de
homens
e
mulheres.
Ao
colocar
a
ênfase
nesses
dois
modelos
de
grande
alcance,
podemos
estar
dando a
falsa
impressão
de
que
as
mulheres
são
todas
iguais,
por
serem
mulheres
e terem
que
assumir
o
modelo
feminino,
assim
como
os
homens
ficam
todos
iguais
por
assumirem o
modelo
masculino.
Deixaríamos
assim
de
perceber
uma
série
de
outros
marcadores
como
raça,
classe,
idade,
orientação
sexual,
condição
física,
que
também
hierarquizam
relações.
Dessa
forma,
muitos
têm afirmado
que
essa
interpretação
do
conceito
de
gênero
acaba sendo reducionista (Costa,
1994; Butler, 1990; Moore, 1994). É
bem
verdade
que
existem
modelos
hegemônicos
de
masculino
e
feminismo,
mas
é
preciso
reconhecer
que
as
pessoas
operam
esses
modelos
em
função
de
realidades
específicas, definindo
formas
particulares
de
classificar
os
outros.
Assim,
se uma
mulher
pode
ser
discriminada
em
algum
momento
por
ser
mulher,
em
outro
isso
pode
não
importar
tanto
quanto
o
fato
de
ela
ser
vista
como
pobre,
ou
negra,
ou
idosa,
ou
lésbica,
ou
portadora de alguma
deficiência.
Por
outro
lado,
o
fato
de
ela
ser
vista
como
mulher
não
significa
que
será
classificada
de uma
mesma
maneira
em
situações
diferentes.
Um
exemplo:
uma
mulher
que
resolva
fabricar
pães
em
sociedade
com
as amigas e
distribuir
seu
produto
em
revendedores da
vizinhança
no
carro
de
um
vizinho,
com
o
qual
estabeleça
um
contrato
para
esse
fim
específico,
pode
ser
vista
por
uns
como
uma
mulher
empreendedora e de boa
visão
comercial.
Por
outros,
pode
ser
vista
como
uma “mulher
malandra”,
que
engana
o
marido
traindo-o
com
o
vizinho.
São
diferentes
formas
de classificá-la, a
partir
de
diferentes
modelos
de
gênero,
diferentes
formas
de
compreender
“masculino”
e “feminino”.
Essa
percepção
do
conceito
de
gênero,
por
entender
que
as
pessoas
negociam
com
outras a
forma
como
são
vistas
e os
significados
que
dão
àqueles
modelos
mais
gerais
de
masculino
e
feminino,
permite
também
pensar
a possibilidade de uma
ação
pedagógica
que,
como
veremos
adiante,
altere a
maneira
como
se dão essas negociações.
Isso
significa
que
estamos
constantemente
classificando o
mundo
à
nossa
volta,
sempre
que
nos
relacionamos
com
ele.
E os
modelos
de
gênero
dão
importantes
diretrizes
para
a
forma
como
iremos
classificar
pessoas,
condutas,
objetos
nesse
mundo.
Mas
esses
modelos
de
gênero
não
são
iguais
para
todos
nós.
Assim,
embora
possam
existir
modelos
mais
gerais
do
que
a
sociedade
considera
masculino
ou
feminino,
a
forma
como
isso
se traduz nas
relações
sociais
concretas depende
muito
da
relação
e do
contexto
em
que
as
pessoas
estejam.
Essa
elaboração
é uma
forma
de
traduzir
uma
tendência
atual
de
compreender
gênero,
ainda
como
uma
construção
social,
mas
não
como
um
conteúdo
de
masculino
e
feminino
definido
pela
sociedade
em
geral.
Para
algumas autoras,
costumeiramente
rotuladas de pós-estruturalistas, pós-modernas
ou
desconstrucionistas. Judith Butler, Donna Haraway e Teresa de Lauretis,
entre
outras (Lamas,
2000) “, temos de
olhar
com
cuidado
a
forma
como
as
pessoas
se utilizam dos
modelos
de
gênero
para
classificar
o
mundo
à
sua
volta.
Nesse
sentido,
os
modelos
existentes
em
nosso
repertório
cultural e
que
orientam nossas
condutas
em
relação
ao
gênero
são
constantemente
postos
em
funcionamento
pelas
pessoas
em
função
da
relação
e da
situação
em
que
elas
se encontram. Nesse
sentido,
as
pessoas
não
se comportam
sempre
da
mesma
maneira.
É
como
se
não
existisse o “machista
full
time”,
nem
o “democrático
full
time”.
Todos
nós
algumas
vezes
utilizamos
modelos
mais
conservadores,
outras
mais
democráticos,
em
função
de
contextos
específicos.
Gênero
passaria a
ser
visto,
assim,
menos
como
os
modelos
dominantes
de
masculino
e
feminino,
mas
como
uma
linguagem,
uma
forma
de
comunicação
e
ordenação
do
mundo,
que
orienta a
conduta
das
pessoas
em
suas
relações
específicas e
que
é, muitas
vezes,
base
para
preconceitos,
discriminação
e
exclusão
social.
A
busca
por
ferramentas
políticas
No
plano
da
ação
política,
porém,
não
são
apenas
as
definições
acadêmicas
que
operam os
diferentes
significados
atribuídos ao
conceito
de
gênero.
Diferentes
trajetórias
e
inserções
institucionais condicionam a
forma
como
se pode
traduzir
o
conceito
de
gênero.
Em
linhas
gerais,
podemos
dizer
que
o
conceito
de
gênero
entrou no
vocabulário
da
cooperação
internacional
nos
anos
80, provocando uma
mudança
na
forma
como
se estruturavam
projetos
de
desenvolvimento
que
afetavam
mulheres.
Nos
anos
70 e 80, orientada
pela
idéia
de
que
homens
e
mulheres
viviam
condições
de
acesso
ao
desenvolvimento
muito
diferentes,
predominava na
cooperação
internacional
a
concepção
de
que
a
solução
para
as desigualdades
entre
os
sexos
estava
em
integrar
as
mulheres
em
um
processo
de
desenvolvimento.
De
fato,
muitos
indicadores
sociais
e
econômicos
apontavam
para
a
dificuldade
predominantemente
maior
entre
as
mulheres
pobres
em
ter
acesso
à
educação,
à qualificação
profissional
e ao
crédito,
por
exemplo.
Visibilizados
ainda
mais
a
partir
do
Ano
Internacional
da
Mulher
(1975),
esses
indicadores
evidenciavam
situações
de alijamento e
exclusão
das
mulheres
de
certos
patamares
de
desenvolvimento
social
e
econômico,
se comparadas aos
homens.
Isso
deu
origem
às
políticas
chamadas
de WID “ Women in Development /
Mulheres
no
Desenvolvimento
(a
respeito
desta
trajetória
e
seus
desdobramentos
ver
Rodríguez, 1993)”
O
conceito
de
gênero
trouxe
críticas
a essa
visão,
normalmente
percebida
como
muito
economicista. Focadas
sobre
indicadores
de
acesso
das
mulheres
a
fatores
de
desenvolvimento,
essas
políticas
acabavam desconsiderando
que
as
relações
entre
homens
e
mulheres
são
pautadas
por
um
imaginário
de
gênero
eivado de desigualdades
que
não
se refletem
apenas
nos
indicadores
de
acesso.
E
não
bastaria
integrar
as
mulheres
em
processos
de
desenvolvimento
econômico
para
operar
mudanças naquele
imaginário.
Nesse
sentido,
junto
com
uma
definição
mais
abrangente de
desenvolvimento,
começou-se a
utilizar
a
expressão
GAD “ Gender and
Development
/
Gênero
e
Desenvolvimento,
para
indicar
uma
preocupação
com
a transformação das
posições
objetivas
das
mulheres
na
sociedade
e
com
a
qualidade
das
relações
marcadas
por
gênero
que
estavam
por
trás
dessas
posições.
Ao
contrário
do
que
se passou na
academia,
em
que
gênero
surgiu
como
forma
de
desmanchar
categorias
e
permitir
novas
chaves
de
leitura
da
realidade,
no
campo
da
ação
política
esse
conceito
é
constantemente
utilizado na
busca
de
instrumentos
úteis
para
a transformação
social.
Assim
surgiram, no
diálogo
entre
cooperação
internacional
e ONGs,
termos
como
democratização das
relações
de
gênero,
perspectiva
de
gênero,
igualdade
de
gênero,
indicadores
de
gênero,
etc.
Termos
que
não
fazem
muito
sentido
para
o
tipo
de
preocupação
que
envolve
gênero
na
universidade,
mas
refletem as
inquietações
próprias do
mundo
da
intervenção
social.
Ainda
hoje
não
são
poucas as
formas
pelas
quais
gênero
vem ganhando
traduções
instrumentais
para
o
uso
na
ação
social
e
política.
Esse
não
foi
um
processo
simples
de
abandono
das
categorias
homens
e
mulheres
e
adoção
de
um
conceito
novo.
Até
hoje
se utiliza
muito
gênero
ao
lado
de
homens
e
mulheres,
mas,
nesse
processo,
muitos
conceitos
novos
foram surgindo,
como
os de
empowerment,
eqüidade
de
gênero,
igualdade
de
gênero
e gender gap,
que
passaram a
ser
freqüentemente
articulados
nos
discursos
de
agências
de
cooperação
e ONGs.
Um
exemplo
rico
dessa instrumentalização
são
os
modelos
de Caroline Moser e Maxime Molineux,
que,
buscando
superar
as
críticas
das
limitações
das
teorias
de WID,
mas
preservando a
categoria
mulher,
elaboraram uma
compreensão
baseada
em
necessidades
práticas
versus
interesses
estratégicos
de
gênero
(Simião, 1999ª). O
fato
é
que
a
eficácia
desses e de
tantos
outros
modelos
instrumentais varia
em
função
da
utilidade
que
se dá a
eles,
do
tipo
de
ação
que
se está desenvolvendo e da
prática
específica
de
cada
ONG.
A
nova
linguagem
criada
pela
mudança
do
enfoque
dirigido a “mulher
e
desenvolvimento”
para
outro
de “gênero
e
desenvolvimento”
trouxe mudanças
importantes
para
a
posição
dos
atores
institucionais desse
campo.
Não
houve
apenas
uma
mudança
de
termos
utilizados,
mas
criaram-se
novos
espaços
de
interlocução,
colocando
em
contato
instituições
com
diferentes
trajetórias
e
práticas,
que
passam
então
a
compor
grupos
de
trabalho
de
gênero
e a
compartilhar
uma
abordagem
comum
para
seus
diferentes
públicos
beneficiários.
Assim,
diferentes
práticas
institucionais -
vindas
de
tradições
variadas (movimento
feminista,
ONGs mistas,
educação
popular,
movimento
sindical, etc.) - passaram a
negociar
com
o
termo
gênero,
buscando aproximá-lo de
sua
prática
específica.
Para
ONGs
feministas,
por
exemplo,
passa
a
ser
importante
não
abrir
mão
de
um
sujeito
político
fundamental
“ a
mulher”
Nesse
sentido,
a
formulação
que
fazem essas ONGs
para
o
enfoque
do
mundo
do
trabalho,
por
exemplo,
costuma
passar
por
uma
preocupação
sobre
a
posição
e a
situação
das
mulheres
no
mercado
de
trabalho.
Já
entre
as
instituições
mistas, de
diferentes
trajetórias,
é
mais
interessante
investir
na transversalidade do
conceito
de
gênero,
evidenciando o
potencial
que
atividades
focadas
em
diferentes
grupos
beneficiários
pode
ter
para
a democratização das
relações
entre
homens
e
mulheres.
Assim,
dependendo do
tipo
de
prática
em
que
se enraíza a
ação
da
instituição,
o
conceito
de
gênero
ganha
uma
definição
conceitual
e
marcos
teóricos
próprios,
podendo
variar
bastante
na
sua
operacionalização (Simião, 1999b).
Esse
uso
que
se faz do
conceito
de
gênero
no
campo
das ONGs depende
em
muito
do
tipo
de
prática
que
se desenvolva, e dificilmente podemos
dizer
qual
é o
mais
certo
ou
o
mais
adequado.
Ele
será
ou
não
adequado a uma
prática
específica
à
qual
estiver remetido.
Com
essa
compreensão
sobre
gênero
e
suas
utilizações,
podemos
observar
algumas das
práticas
de
geração
de
emprego
e
renda
com
grupos
mistos
e
com
mulheres,
buscando
entender
como
alguns
conceitos
de
gênero
podem
ser
adequados
para
explicar
o
potencial
dessas
experiências
para
a democratização das
relações
sociais
e
para
os
avanços
significativos
nesse
campo.
Gênero
e
geração
de
renda:
uma
ação
sobre
esferas
públicas e
privadas
As
experiências
de
geração
de
emprego
e
renda
costumam se
deparar
com
um
problema
comum
muito
marcante:
a
dificuldade
que
grupos
populares
têm de
assumir
uma
postura
gerencial
empreendedora
em
seus
negócios.
Mesmo
após
treinamentos
específicos
para
capacitação
técnica,
são
comuns
os
casos
em
que
relações
pessoais
e de
amizade
impedem o
funcionamento
profissional
do
grupo.
É a
vizinha
que
insiste
em
comprar
fiado,
e
não
há
como
negar,
afinal
de
contas
se
trata
de uma
amiga
antiga;
ou
é o
sobrinho
que
retira
dinheiro
do
caixa
para
comprar
remédio
para
a
tia
que
está
doente,
e
não
avisa a
ninguém,
afinal
o
dinheiro
que
está
ali
é
para
essas
coisas
mesmo,
etc.
A
mudança
nesse
tipo
de
atitude
costuma
depender
menos
de
treinamento
e
conhecimento
técnico
do
que
de uma transformação na
forma
como
a
experiência
é apreendida
pelo
grupo,
muitas
vezes
vista
mais
como
hobby
ou
atividade
de
caráter
complementar
do
que
como
opção
de
trabalho.
Quando
há
nos
grupos
um
predomínio
de
mulheres
- o
que
comumente acontece -, esta
percepção
é
ainda
maior.
A
idéia
de
um
grupo
empreendedor
é facilmente substituída
pela
imagem
das
mulheres
que
se juntam
para
jogar
conversa
fora
e,
como
forma
de
passar
o
tempo,
desenvolvem uma
atividade
lúdica
que
por
acaso
resulta
em
algo
comercial.
A
dificuldade
em
reconhecer
na
atividade
desenvolvida
por
essas
mulheres
um
caráter
empresarial
costuma
ser
muito
forte
entre
os
homens
da
família,
mas
está muitas
vezes
presente
também
nas próprias
mulheres.
Está relacionada a
modelos
de
gênero
que
associam a uma
função
masculina
tarefas
de
sustento
familiar,
comércio,
negociações públicas,
cálculos
matemáticos, etc.
Quando
uma
ação
pedagogicamente orientada é
capaz
de
transformar
o
que
antes
era
visto
pelos
próprios
integrantes
como
um
hobby
em
um
empreendimento
viável,
ela
mexe,
sem
dúvida,
com
a
forma
como
essas
pessoas
negociam
suas
identidades
entre
si.
E a
identidade
de
gênero
é uma
primeira
a
ser
renegociada.
Para
entender
melhor
como
isso
acontece,
vale
a
pena
observar
alguns
casos
concretos.
Em
uma
experiência
que
pude
acompanhar,
há
alguns
anos,
um
grupo
de
mulheres
vizinhas se mobilizou
para
formar
uma
padaria
comunitária.
Os
maridos
não
acreditavam
que
aquilo
que
lhes
parecia
um
passatempo
das esposas pudesse
vir
a
ser
um
empreendimento
bem-sucedido.
Estava
claro
para
eles
que
o
espaço
da negociação
comercial
não
era
um
espaço
feminino,
e,
portanto,
suas
mulheres
não
tinham
como
ter
sucesso
operando
suas
regras.
À
medida
que
a
padaria
começou a
funcionar,
aqueles
homens
e aquelas
mulheres
começaram a
viver
situações
novas
que
os obrigavam a
por
à
prova
suas
expectativas
quanto
ao
comportamento
de
todos
e ao
sucesso
do
empreendimento.
Alguns
conflitos
logo
surgiram,
típicos
da
inserção
feminina
no
mercado
de
trabalho.
Uma das
mulheres
acabou saindo do
grupo
por
pressão
do
marido,
que
não
aceitava
que
ela
não
estivesse
em
casa
quando
ele
voltava do
serviço.
A
situação
foi
motivo
para
reflexão
trabalho
com
o restante do
grupo,
que
não
admitiu essa
postura
dos
maridos.
Por
outro
lado,
a participação dos
maridos
em
atividades
pedagógicas variadas criou
ocasião
para
que
eles
compreendessem a
atividade
daquelas
mulheres
em
primeiro
lugar
como
um
direito
delas
como
cidadãs, e,
em
seguida,
como
uma
atividade
econômica
rentável
tal
como
qualquer
outra.
Ao
mesmo
tempo,
o
grupo
vinha
conseguindo
resultados
economicamente
favoráveis,
o
que
os obrigava a
rever
suas
expectativas
iniciais.
Até
mesmo
o
ciúme
dos
maridos
com
relação
aos
fornecedores
de
farinha
e
ovos
-
alguns
muito
jovens
e
bonitos,
diziam as
mulheres
-
era
motivo
para
que
aquelas
pessoas
negociassem os
modelos
que
ordenavam
sua
relação
em
termos
de
gênero.
Mas
essas negociações
não
acontecem
apenas
nos
espaços
privados
e
familiares.
Acabam sendo
fundamentais
na
relação
das
mulheres
do
grupo
com
comerciantes
da
comunidade,
fornecedores
e
clientes.
Alguns
exemplos
são
bastante
curiosos,
como
a
reação
de
um
vendedor
de
farinha
que,
na
primeira
visita
ao
grupo,
perguntou
pelo
dono
da
padaria,
uma
vez
que
ali
só
havia
mulheres.
Na
segunda
visita
ele
já
não
estranhava
negociar
preço
e
condições
de
pagamento
com
um
grupo
de
mulheres.
No
início
elas
se queixaram
muito
das
cantadas
que
recebiam dos
comerciantes
locais
quando
iam
deixar
seus
produtos
em
consignação. As
mulheres
mais
novas
do
grupo
tinham
receio
de
distribuir
os
pães
com
um
motorista
vizinho
por
conta
do “que
o
povo
pode
dizer
por
aí”.
Aos
poucos,
à
medida
que
iam se afirmando
como
comerciantes,
as
relações
entre
as
pessoas
do
grupo
e
outros
atores
na
comunidade
mudavam, e,
com
elas,
muitas das
formas
como
se entendiam as
atribuições
masculinas e femininas (Simião, 2000).
Em
linhas
gerais
se percebe
que
esses
programas
têm um grande
potencial
para
evidenciar
a
forma
como
as
pessoas
em
uma
comunidade
(homens
e
mulheres,
maridos,
esposas,
vizinhos,
fornecedores,
clientes,
etc.) operam
como
modelos
de
gênero.
Em
um
primeiro
momento,
essas
práticas
dão
matéria-prima
para
que
sejam exercitados inúmeros
preconceitos.
O
descrédito
dos
maridos,
as
piadas
dos
vizinhos
e
até
mesmo
as
brigas
e
conflitos
mais
sérios
dentro
das
famílias.
Esse
primeiro
momento
é
quando
se põe
em
jogo
as
formas
como
as
pessoas
negociam
representações
e
categorias
de
gênero
discriminatórias, sendo
ocasião
para
que
surjam
conflitos
que
podem se
mostrar
importantes
espaços
de
ação
pedagógica.
Uma
vez
que
as
práticas
do
grupo
vão
se consolidando,
elas
têm o
papel
de
questionar
os
modelos
que
deram
origem
aos
comentários
preconceituosos
e podem
servir,
se
bem
trabalhadas,
como
ocasião
para
que
as
pessoas
envolvidas reelaborem os
modelos
que
ordenam
suas
relações,
renegociando os
seus
termos
de
forma
cidadã. Nesse
sentido,
os
programas
de
geração
de
renda
podem
ter
o
grande
mérito
de
criar
uma
situação
de desequilíbrio
que
evidencia as
regras
existentes e abre a possibilidade
para
sua
reformulação
em
novas
bases.
De
volta
ao shopping:
desconstruindo
modelos
e reconstruindo
práticas
Penso
que
agora
podemos
voltar
ao
caso,
citado no
início
do
texto,
da
presença
dos
sem-teto
em
um
shopping center.
Como
disse no
início,
ao
quebrar
a
regra
normal,
aquela
experiência
a tornou
evidente.
Deixou
claro
quais
eram os
modelos
socialmente
aceitáveis
e utilizados pelas
pessoas
nas
suas
relações
de
consumo.
Guardadas as
proporções,
podemos
dizer
que
algo
muito
semelhante
pode
ocorrer
com
as
práticas
de
geração
de
emprego
e
renda
sob
uma
perspectiva
de
gênero.
Um
grupo
de
mulheres
tocando
um
negócio,
administrando
suas
contas,
gerindo
estoques,
negociando
preços
e
prazos
com
fornecedores,
clientes
e distribuidoras é uma
situação
que
desorganiza
modelos
tradicionalmente
normais
segundo
os
quais
se dão
relações
de
gênero.
Essa
situação
e os
conflitos
daí decorrentes - os
choques
- podem
evidenciar,
aos
olhos
do
grupo,
as
regras
que
estão sendo subvertidas e
obrigar
os
sujeitos
envolvidos a
renegociar
categorias
que
antes
lhes
pareciam
bastante
naturais.
Da
mesma
forma
que
a
presença
de excluídos
em
um
centro
de
consumo,
a
atuação
das
mulheres
na
produção
e
comercialização,
a
partir
de uma
postura
empreendedora, tem
um
grande
potencial
desnaturalizador.
A
geração
de
conflitos - privados
e
públicos
- é uma
forma
de
evidenciar
como
modelos
de
gênero
vêm sendo operacionalizados e
identidades
negociadas na
região
em
que
se atua O
trabalho
assim
não
se dá
apenas
sobre
o
grupo
de
mulheres,
mas
atinge,
direta
ou
indiretamente,
familiares
e
agentes
da
comunidade
(comerciantes,
fornecedores,
clientes,
vizinhos,
instituições)
que
se envolvem
com
esses
casos.
Nesse
sentido,
programas
de
geração
de
renda,
quando
bem
trabalhados
em
uma
perspectiva
de
gênero,
são
capazes
de
pôr
em
jogo
mudanças
em
toda
uma
região
e implicam uma
atuação
ampla,
não
necessariamente focada
apenas
nos
sujeitos
mais
evidentes
desse
processo
(as
mulheres).
Mas
se as
situações
geradas
por
essas
experiências,
ao
desequilibrar
um
sistema
anterior
que
ordenava as
relações
entre
essas
pessoas,
permitem
um
trabalho
sobre
gênero
no
sentido
da
reconstrução
das
relações
em
questão,
o
tipo
de
atuação
que
se fará e os
sentidos
dados
a
ela
podem
variar
bastante,
dependendo do
perfil
e da
trajetória
da ONG
que
acompanhe o
processo.
Dependerá,
como
vimos
acima,
da
forma
como
se utilize
gênero
na
prática
institucional.
Por
exemplo,
na
situação
descrita
em
que
maridos
se enciúmam da
relação
das esposas
com
comerciantes
e
fornecedores,
temos
ocasião
para
trabalhar
diversas
questões
explicitadas
pelo
conflito
originado. Pode-se,
por
um
lado,
desenvolver
um
trabalho
de
fortalecimento
da auto-estima dessas
mulheres
no
sentido
de
que
elas
se percebam
donas
de
seu
próprio
corpo
e se sintam seguras
para
lidar
melhor
com
os
ciúmes
na
relação
com
os
maridos.
Por
outro,
pode-se
envolver
os
maridos
em
atividades
de
estudos
e
reflexão
que
os levem a
perceber
a
relação
das esposas
com
os
comerciantes
no
plano
profissional
e a
compreender
suas
próprias
reações
como
resultado
de
alguns
modelos
de
gênero
que
devem
ser
mudados. A
primeira
atividade
é,
sem
dúvida,
muito
mais
próxima
de
um
discurso
e de uma
prática
feministas
sobre
o
conceito
de
gênero,
enquanto
a
segunda
se aproxima de
um
uso
característico
das ONGs mistas.
Tenho usado
aqui
as
diferenças
de
práticas
e
discursos
de ONGs mistas e
feministas
com
casos
ilustrativos
da
influência
de
diferentes
trajetórias
institucionais no
campo
sobre
a
forma
como
se utiliza o
conceito
de
gênero.
Isso
não
significa, de
modo
algum,
que
essas
práticas
não
tenham
importantes
pontos
em
comum
e
não
possam
ser
agregadas
muito
proveitosamente
em
espaços
de
atuação
conjunta.
Da
mesma
maneira,
existem outras
diferenciações
institucionais
entre
as ONGs,
que
também
refletem na
forma
como
se
pensa
e se age
sobre
gênero,
tal
como
o
perfil
do
público
beneficiário,
origem
institucional,
tamanho,
etc. De
todo
modo,
devemos
atentar
para
o
potencial
e o
limite
de
cada
atividade,
buscando
interações
que
se complementem da
melhor
forma
possível.
O
trabalho
focado
exclusivamente
sobre
as
mulheres
parece
ser,
assim,
tão
limitado
quanto
aquele
que
não
ajusta
foco
algum
para
essa especificidade.
Para
concluir,
a
importância
de
um
trabalho
amplo
e diversificado, no
que
se refere ao
potencial
das
experiências
de
geração
de
renda,
é enfatizado
ainda
quando
procuramos
entender
essas
experiências
para
além
de uma
forma
de
ação
sobre
o
mercado
de
trabalho
e as vemos
como
elemento
que
articula
dimensões
bem
maiores
das
vidas
dos
sujeitos
envolvidos.
Os
conceitos
de
gênero,
mesmo
em
seus
diferentes
usos,
nos
pedem
que
não
fiquemos
apenas
na
constatação
das
posições
diferentes
que
homens
e
mulheres
ocupam no
mercado
de
trabalho.
Eles
nos
indicam
que
essa
situação
não
deve
ser
entendida
apenas
no
mundo
do
trabalho,
que
é
um
dos
lugares
em
que
se visibilizam desigualdades instituídas
por
fatores
enraizados
em
outras
dimensões
da
vida
de
homens
e
mulheres.
Da
mesma
forma,
avanços
e
conquistas
nesse
panorama
não
podem
ser
medidos
apenas
pela
posição
em
que
as
mulheres
se encontram na
estrutura
ocupacional
desse
mercado.
A
realidade,
vista
com
um
olhar
de
gênero,
conduz-nos a
indagação
não
apenas
da
posição
que
um
sujeito
específico
ocupa
em
uma
dada
situação.
Mas
vai
além,
no
sentido
de
entender
quais
as
relações
que
se estabelecem
entre
mulheres
e
homens,
mulheres
entre
si
e
homens
entre
si,
de
tal
forma
que,
por
serem marcadas
por
preconceitos
de
gênero,
acabam afetando
negativamente
o
desempenho
profissional
e a
vida
de
homens
e
mulheres
de
forma
diferenciada.
Mas
isso
já
coloca a
questão
de
como
medir
-
ou
encontrar
mecanismos
adequados
para
aferir
objetivamente
–
um
conjunto
de transformações relacionais e situacionais, dificilmente quantificável.
Eis
aí
um
desafio
que
extrapola
enormemente
os
limites
deste
texto
e ficará,
certamente,
como
muitas das
questões
postas
aqui,
para
serem desenvolvidas no
debate
e na
discussão
que
esses
subsídios
vierem a
despertar.
NOTAS
1.
Texto
elaborado
para
a
Oficina:
gênero
e
geração
de
renda,
do GTGênero da
Plataforma
de
Contrapartes
Novib no Brasil, realizada
em
Curitiba,
entre
os
dias
4 e 6 de
dezembro
de 2000,
sob
a
coordenação
do ADITEPP e
CAATINGA.
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Um
conceito
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Dissertação
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mestrado.
Campinas,
IFCH, Unicamp.
_________.
(2000),
O
pulo
do
sapo:
gênero
e a
conquista
da
cidadania
em
grupos
populares.
Curitiba,
Expoente. |