Perspectivas de gênero
Debates e questões para as ONGs

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Parte I
O gênero nos contextos de intervenção das ONGs

  Início

As coisas fora do lugar.
Gênero
e o potencial de programas de geração de emprego e renda
(1)
Daniel Schroeter Simião

 

Recentemente o Movimento dos Sem-teto de São Paulo fez um protesto original, levando um grupo de sem-tetos a passear por um shopping center. A situação causou grande estranheza entre todos os freqüentadores do local. Alguns comerciantes chegaram mesmo a fechar suas portas, com medo de eventuais  “riscos“ à sua segurança. A situação era tão inusitada que virou notícia e ganhou grande projeção na mídia nacional.

Um shopping recebe milhares de visitantes todos os dias. O que fez com que a visita daquelas dezenas de pessoas causasse tamanha estranheza a ponto de virar notícia em todo o País foi simplesmente o fato de se ter armado uma situação em que as coisas estavam decididamente fora de lugar. A presença daqueles excluídos da sociedade de consumo em um lugar que é, por excelência, um centro de consumo - um lugar de referência para os incluídos-teve o mérito de quebrar as regras da normalidade.  Nesse sentido, evidenciou aquilo que não costumamos notar, por estarmos habituados a ver. Ao quebrar a regra normal, tornou-a evidente. Jogou luzes sobre uma situação absolutamente comum: nossa sociedade de consumo produz enormes massas de excluídos; e, ao jogar as luzes dessa forma, criou condições para que estranhássemos essa normalidade. Nos chocou. 

Algo ali estava fora do lugar. Mas o que esta história pode nos dizer sobre as experiências de instituições que hoje desenvolvem projetos de gênero e geração de renda? A meu ver, diz muito. Mas chegaremos . Antes disso, penso que devemos nos entender a respeito do que seja falar em gênero e do que temos em mente quando dizemos “gênero e geração de renda”.

Para compreender melhor as potencialidades e a importância da apropriação de uma perspectiva de gênero em experiências de geração de emprego e renda, precisamos, antes de tudo, compreender a pluralidade de sentidos dados ao conceito de gênero e as formas como é utilizado em diferentes projetos e instituições Isso nos ajuda a constatar que, a partir da perspectiva com a qual se trabalhe, pode-se enfocar e estimular diferentes impactos sobre as relações de gênero a partir das práticas proporcionadas por programas de geração de renda. É este o movimento deste texto, que procura apenas dar alguns subsídios para uma discussão que está se iniciando e que, como tal, não permite afirmações categóricas e tampouco respostas definitivas.

 A trajetória de um conceito

 À medida que um conceito vai sendo mais e mais utilizado, não nos perguntamos diretamente pelo seu significado. Se há alguns anos ainda se perguntava explicitamente o que significava o conceito de gênero, hoje essa pergunta vai se tornando rara no campo das ações de intervenção social. Para o bem ou para mal, todos têm alguma noção do que se trata ao falar em gênero e desenvolvimento. Por um lado, isso significa que o termo tem se popularizado no campo e vem sendo relativamente bem aceito.  Por outro, traz um grande risco de mal-entendidos, isso porque tantos são os sentidos dados ao termo gênero quanto os interlocutores que o utilizam. Talvez um bom exercício não seja tanto o de buscar uma definição precisa do conceito de gênero, mas ter consciência sobre suas diferentes definições e utilizações.

Antes mesmo de surgir como um conceito importante no mundo da ação política e da intervenção social, o gênero vinha trilhando um caminho próprio nas pesquisas acadêmicas, inicialmente naquelas que buscavam ferramentas de análise para compreender as desigualdades entre homens e mulheres. Na universidade, o conceito de gênero surgiu no contexto dos chamados estudos sobre mulheres, em um momento em que pesquisadoras feministas buscavam formas de desnaturalizar a condição das mulheres em nossa sociedade. Nesse sentido, era preciso encontrar conceitos que permitissem diferenciar aquilo que as mulheres tinham de natural, permanente, e igual em todas as épocas e culturas - o sexo-, daquilo que dava base para a discriminação e, por ser socialmente construído, variava de sociedade para sociedade e podia mudar com o tempo”o gênero (Lobo, 1987)”

Esse movimento deu origem a diferentes teorizações acerca do conceito de gênero, inicialmente utilizando-o como componente de um sistema de classificação social, como fez Gayle Rubin, outras tomando-o como sistema cultural, como Collier e Rosaldo, ou ainda caracterizando-o como um bom instrumento de análise, como fez Joan Scott (Heilborn, 1992). Em comum, essas formas de compreender teoricamente o conceito de gênero tinham a referência a modelos culturais de largo alcance que definiam, para as categorias homem e mulher / masculino e feminino, conteúdos socialmente elaborados. 

Essa é uma visão bastante difundida no campo das ONGs, e uma de suas definições mais comuns é a de que gênero é o sexo socialmente construído. Segundo essa interpretação, a natureza define dois sexos biológicos (homens e mulheres), e cabe à sociedade agregar a esse dado natural diferentes valores, significados, atributos, etc. Dessa forma, dependendo do sexo com que cada um nasça, será educado de uma dada maneira, aprenderá o que pode ou não fazer, como deverá ou não se comportar, sempre de acordo com um modelo geral do que é masculino e feminino, construído pela sociedade. Isso significa também que terá tais ou quais oportunidades na família, na escola, no trabalho e que passará por tais ou quais situações de discriminação durante sua vida

Essa definição de gênero é bastante comum nos documentos das ONGs porque é fácil de ser compreendida e permite uma boa estratégia de denúncia e transformação social. Mas devemos observar que ela tem, ultimamente, recebido críticas importantes Segundo essa definição, temos dois modelos de classificação do mundo: o masculino e o feminino, que a sociedade constrói e que orientam a socialização de homens e mulheres. Ao colocar a ênfase nesses dois modelos de grande alcance, podemos estar dando a falsa impressão de que as mulheres são todas iguais, por serem mulheres e terem que assumir o modelo feminino, assim como os homens ficam todos iguais por assumirem o modelo masculino. Deixaríamos assim de perceber uma série de outros marcadores como raça, classe, idade, orientação sexual, condição física, que também hierarquizam relações.

Dessa forma, muitos têm afirmado que essa interpretação do conceito de gênero acaba sendo reducionista (Costa, 1994; Butler, 1990; Moore, 1994). É bem verdade que existem modelos hegemônicos de masculino e feminismo, mas é preciso reconhecer que as pessoas operam esses modelos em função de realidades específicas, definindo formas particulares de classificar os outros Assim, se uma mulher pode ser discriminada em algum momento por ser mulher, em outro isso pode não importar tanto quanto o fato de ela ser vista como pobre, ou negra, ou idosa, ou lésbica, ou portadora de alguma deficiência.

Por outro lado, o fato de ela ser vista como mulher não significa que será classificada de uma mesma maneira em situações diferentes. Um exemplo: uma mulher que resolva fabricar pães em sociedade com as amigas e distribuir seu produto em revendedores da vizinhança no carro de um vizinho, com o qual estabeleça um contrato para esse fim específico, pode ser vista por uns como uma mulher empreendedora e de boa visão comercial Por outros, pode ser vista como uma “mulher malandra”, que engana o marido traindo-o com o vizinho. São diferentes formas de classificá-la, a partir de diferentes modelos de gênero, diferentes formas de compreendermasculino” e “feminino”. Essa percepção do conceito de gênero, por entender que as pessoas negociam com outras a forma como são vistas e os significados que dão àqueles modelos mais gerais de masculino e feminino, permite também pensar a possibilidade de uma ação pedagógica que, como veremos adiante, altere a maneira como se dão essas negociações.

Isso significa que estamos constantemente classificando o mundo à nossa volta, sempre que nos relacionamos com ele. E os modelos de gênero dão importantes diretrizes para a forma como iremos classificar pessoas, condutas, objetos nesse mundo. Mas esses modelos de gênero não são iguais para todos nós. Assim, embora possam existir modelos mais gerais do que a sociedade considera masculino ou feminino, a forma como isso se traduz nas relações sociais concretas depende muito da relação e do contexto em que as pessoas estejam.

Essa elaboração é uma forma de traduzir uma tendência atual de compreender gênero, ainda como uma construção social, mas não como um conteúdo de masculino e feminino definido pela sociedade em geral. Para algumas autoras, costumeiramente rotuladas de pós-estruturalistas, pós-modernas ou desconstrucionistas. Judith Butler, Donna Haraway e Teresa de Lauretis, entre outras (Lamas, 2000) “, temos de olhar com cuidado a forma como as pessoas se utilizam dos modelos de gênero para classificar o mundo à sua volta. Nesse sentido, os modelos existentes em nosso repertório cultural e que orientam nossas condutas em relação ao gênero são constantemente postos em funcionamento pelas pessoas em função da relação e da situação em que elas se encontram. Nesse sentido, as pessoas não se comportam sempre da mesma maneira. É como se não existisse o “machista full time”, nem o “democrático full time”. Todos nós algumas vezes utilizamos modelos mais conservadores, outras mais democráticos, em função de contextos específicos. Gênero passaria a ser visto, assim, menos como os modelos dominantes de masculino e feminino, mas como uma linguagem, uma forma de comunicação e ordenação do mundo, que orienta a conduta das pessoas em suas relações específicas e que é, muitas vezes, base para preconceitos, discriminação e exclusão social.

 A busca por ferramentas políticas

 No plano da ação política, porém, não são apenas as definições acadêmicas que operam os diferentes significados atribuídos ao conceito de gênero. Diferentes trajetórias e inserções institucionais condicionam a forma como se pode traduzir o conceito de gênero.

Em linhas gerais, podemos dizer que o conceito de gênero entrou no vocabulário da cooperação internacional nos anos 80, provocando uma mudança na forma como se estruturavam projetos de desenvolvimento que afetavam mulheres. Nos anos 70 e 80, orientada pela idéia de que homens e mulheres viviam condições de acesso ao desenvolvimento muito diferentes, predominava na cooperação internacional a concepção de que a solução para as desigualdades entre os sexos estava em integrar as mulheres em um processo de desenvolvimento. De fato,  muitos indicadores sociais e econômicos apontavam para a dificuldade predominantemente maior entre as mulheres pobres em ter acesso à educação, à qualificação profissional e ao crédito, por exemplo.  Visibilizados ainda mais a partir do Ano Internacional da Mulher (1975), esses indicadores evidenciavam situações de alijamento e exclusão das mulheres de certos patamares de desenvolvimento social e econômico, se comparadas aos homens. Isso deu origem às políticas chamadas de WID “ Women in Development / Mulheres no Desenvolvimento (a respeito desta trajetória e seus desdobramentos ver Rodríguez, 1993)”

O conceito de gênero trouxe críticas a essa visão, normalmente percebida como muito economicista. Focadas sobre indicadores de acesso das mulheres a fatores de desenvolvimento, essas políticas acabavam desconsiderando que as relações entre homens e mulheres são pautadas por um imaginário de gênero eivado de desigualdades que não se refletem apenas nos indicadores de acesso. E não bastaria integrar as mulheres em processos de desenvolvimento econômico para operar mudanças naquele imaginário. Nesse sentido, junto com uma definição mais abrangente de desenvolvimento, começou-se a utilizar a expressão GAD “ Gender and Development / Gênero e Desenvolvimento, para indicar uma preocupação com a transformação das posições objetivas das mulheres na sociedade e com a qualidade das relações marcadas por gênero que estavam por trás dessas posições

Ao contrário do que se passou na academia, em que gênero surgiu como forma de desmanchar categorias e permitir novas chaves de leitura da realidade, no campo da ação política esse conceito é constantemente utilizado na busca de instrumentos úteis para a transformação social. Assim surgiram, no diálogo entre cooperação internacional e ONGs, termos como democratização das relações de gênero, perspectiva de gênero, igualdade de gênero, indicadores de gênero, etc. Termos que não fazem muito sentido para o tipo de preocupação que envolve gênero na universidade, mas refletem as inquietações próprias do mundo da intervenção social. Ainda hoje não são poucas as formas pelas quais gênero vem ganhando traduções instrumentais para o uso na ação social e política.

Esse não foi um processo simples de abandono das categorias homens e mulheres e adoção de um conceito novo. Até hoje se utiliza muito gênero ao lado de homens e mulheres, mas, nesse processo, muitos conceitos novos foram surgindo, como os de empowerment, eqüidade de gênero, igualdade de gênero e gender gap, que passaram a ser freqüentemente articulados nos discursos de agências de cooperação e ONGs. Um exemplo rico dessa instrumentalização são os modelos de Caroline Moser e Maxime Molineux, que, buscando superar as críticas das limitações das teorias de WID, mas preservando a categoria mulher, elaboraram uma compreensão baseada em necessidades práticas versus interesses estratégicos de gênero (Simião, 1999ª). O fato é que a eficácia desses e de tantos outros modelos instrumentais varia em função da utilidade que se dá a eles, do tipo de ação que se está desenvolvendo e da prática específica de cada ONG. 

A nova linguagem criada pela mudança do enfoque dirigido a “mulher e desenvolvimento para outro de “gênero e desenvolvimento” trouxe mudanças importantes para a posição dos atores institucionais desse campo. Não houve apenas uma mudança de termos utilizados, mas criaram-se novos espaços de interlocução, colocando em contato instituições com diferentes trajetórias e práticas, que passam então a compor grupos de trabalho de gênero e a compartilhar uma abordagem comum para seus diferentes públicos beneficiários.

Assim, diferentes práticas institucionais - vindas de tradições variadas (movimento feminista, ONGs mistas, educação popular, movimento sindical, etc.) - passaram a negociar com o termo gênero, buscando aproximá-lo de sua prática específica. Para ONGs feministas, por exemplo, passa a ser importante não abrir mão de um sujeito político fundamental “ a mulher” Nesse sentido, a formulação que fazem essas ONGs para o enfoque do mundo do trabalho, por exemplo, costuma passar por uma preocupação sobre a posição e a situação das mulheres no mercado de trabalho. entre as instituições mistas, de diferentes trajetórias, é mais interessante investir na transversalidade do conceito de gênero, evidenciando o potencial que atividades focadas em diferentes grupos beneficiários pode ter para a democratização das relações entre homens e mulheres.

 Assim, dependendo do tipo de prática em que se enraíza a ação da instituição, o conceito de gênero ganha uma definição conceitual e marcos teóricos próprios, podendo variar bastante na sua operacionalização (Simião, 1999b). Esse uso que se faz do conceito de gênero no campo das ONGs depende em muito do tipo de prática que se desenvolva, e dificilmente podemos dizer qual é o mais certo ou o mais adequado. Ele será ou não adequado a uma prática específica à qual estiver remetido. 

Com essa compreensão sobre gênero e suas utilizações, podemos observar algumas das práticas de geração de emprego e renda com grupos mistos e com mulheres, buscando entender como alguns conceitos de gênero podem ser adequados para explicar o potencial dessas experiências para a democratização das relações sociais e para os avanços significativos nesse campo.

Gênero e geração de renda:
uma
ação sobre esferas públicas e
privadas

 As experiências de geração de emprego e renda costumam se deparar com um problema comum muito marcante: a dificuldade que grupos populares têm de assumir uma postura gerencial empreendedora em seus negócios. Mesmo após treinamentos específicos para capacitação técnica, são comuns os casos em que relações pessoais e de amizade impedem o funcionamento profissional do grupo. É a vizinha que insiste em comprar fiado, e não como negar, afinal de contas se trata de uma amiga antiga; ou é o sobrinho que retira dinheiro do caixa para comprar remédio para a tia que está doente, e não avisa a ninguém, afinal o dinheiro que está ali é para essas coisas mesmo, etc.

A mudança nesse tipo de atitude costuma depender menos de treinamento e conhecimento técnico do que de uma transformação na forma como a experiência é apreendida pelo grupo, muitas vezes vista mais como hobby ou atividade de caráter complementar do que como opção de trabalho. Quando nos grupos um predomínio de mulheres - o que comumente acontece -, esta percepção é ainda maior. A idéia de um grupo empreendedor é facilmente substituída pela imagem das mulheres que se juntam para jogar conversa fora e, como forma de passar o tempo, desenvolvem uma atividade lúdica que por acaso resulta em algo comercial. A dificuldade em reconhecer na atividade desenvolvida por essas mulheres um caráter empresarial costuma ser muito forte entre os homens da família, mas está muitas vezes presente também nas próprias mulheres. Está relacionada a modelos de gênero que associam a uma função masculina tarefas de sustento familiar, comércio, negociações públicas, cálculos matemáticos, etc. 

Quando uma ação pedagogicamente orientada é capaz de transformar o que antes era visto pelos próprios integrantes como um hobby em um empreendimento viável, ela mexe, sem dúvida, com a forma como essas pessoas negociam suas identidades entre si. E a identidade de gênero é uma primeira a ser renegociada.  Para entender melhor como isso acontece, vale a pena observar alguns casos concretos.

Em uma experiência que pude acompanhar, há alguns anos, um grupo de mulheres vizinhas se mobilizou para formar uma padaria comunitária. Os maridos não acreditavam que aquilo que lhes parecia um passatempo das esposas pudesse vir a ser um empreendimento bem-sucedido. Estava claro para eles que o espaço da negociação comercial não era um espaço feminino, e, portanto, suas mulheres não tinham como ter sucesso operando suas regras.  À medida que a padaria começou a funcionar, aqueles homens e aquelas mulheres começaram a viver situações novas que os obrigavam a por à prova suas expectativas quanto ao comportamento de todos e ao sucesso do empreendimento.

Alguns conflitos logo surgiram, típicos da inserção feminina no mercado de trabalho. Uma das mulheres acabou saindo do grupo por pressão do marido, que não aceitava que ela não estivesse em casa quando ele voltava do serviço. A situação foi motivo para reflexão   trabalho com o restante do grupo, que não admitiu essa postura dos maridos. Por outro lado, a participação dos maridos em atividades pedagógicas variadas criou ocasião para  que eles compreendessem a atividade daquelas mulheres em primeiro lugar como um direito delas como cidadãs, e, em seguida, como uma atividade econômica rentável tal  como qualquer outra. Ao mesmo tempo, o grupo vinha conseguindo resultados economicamente favoráveis, o que os obrigava a rever suas expectativas iniciais. Até mesmo o ciúme dos maridos com relação aos fornecedores de farinha e ovos - alguns muito jovens e bonitos, diziam as mulheres - era motivo para que aquelas pessoas negociassem os modelos que ordenavam sua relação em termos de gênero

Mas essas negociações não acontecem apenas nos espaços privados e familiares. Acabam sendo fundamentais na relação das mulheres do grupo com comerciantes da comunidade, fornecedores e clientes. Alguns exemplos são bastante curiosos, como a reação de um vendedor de farinha que, na primeira visita ao grupo, perguntou pelo dono da padaria, uma vez que ali havia mulheres.  Na segunda visita ele não estranhava negociar preço e condições de pagamento com um grupo de mulheres. No início elas se queixaram muito das cantadas que recebiam dos comerciantes locais quando iam deixar seus produtos em consignação. As mulheres mais novas do grupo tinham receio de distribuir os pães com um motorista vizinho por conta do “que o povo pode dizer por ”. Aos poucos, à medida que iam se afirmando como comerciantes, as relações entre as pessoas do grupo e outros atores na comunidade mudavam, e, com elas, muitas das formas como se entendiam as atribuições masculinas e femininas (Simião, 2000).

Em linhas gerais se percebe que esses programas têm um grande potencial para evidenciar a forma como as pessoas em uma comunidade (homens e mulheres, maridos, esposas, vizinhos, fornecedores, clientes, etc.) operam como modelos de gênero. Em um primeiro momento, essas práticas dão matéria-prima para que sejam exercitados inúmeros preconceitos. O descrédito dos maridos, as piadas dos vizinhos e até mesmo as brigas e conflitos mais sérios dentro das famílias. Esse primeiro momento é quando se põe em jogo as formas como as pessoas negociam representações e categorias de gênero discriminatórias, sendo ocasião para que surjam conflitos que podem se mostrar importantes espaços de ação pedagógica.

Uma vez que as práticas do grupo vão se consolidando, elas têm o papel de questionar os modelos que deram origem aos comentários preconceituosos e podem servir, se bem trabalhadas, como ocasião para que as pessoas envolvidas reelaborem os modelos que ordenam suas relações, renegociando os seus termos de forma cidadã. Nesse sentido, os programas de geração de renda podem ter o grande mérito de criar uma situação de desequilíbrio que evidencia as regras existentes e abre a possibilidade para sua  reformulação em novas bases.

De volta ao shopping:
desconstruindo
modelos e reconstruindo
práticas

 Penso que agora podemos voltar ao caso, citado no início do texto, da presença dos sem-teto em um shopping center. Como disse no início, ao quebrar a regra normal, aquela experiência a tornou evidente. Deixou claro quais eram os modelos socialmente aceitáveis e utilizados pelas pessoas nas suas relações de consumo.  Guardadas as proporções, podemos dizer que algo muito semelhante pode ocorrer com as práticas de geração de emprego e renda sob uma perspectiva de gênero. Um grupo de mulheres tocando um negócio, administrando suas contas, gerindo estoques, negociando preços e prazos com fornecedores, clientes e distribuidoras é uma situação que desorganiza modelos tradicionalmente normais segundo os quais se dão relações de gênero. Essa situação e os conflitos daí decorrentes - os choques - podem evidenciar, aos olhos do grupo, as regras que estão sendo subvertidas e obrigar os sujeitos envolvidos a renegociar categorias que antes lhes pareciam bastante naturais. Da mesma forma que a presença de excluídos em um centro de consumo, a atuação das mulheres na produção e comercialização, a partir de uma postura empreendedora, tem um grande potencial desnaturalizador. 

A geração de conflitos - privados e públicos - é uma forma de evidenciar como modelos de gênero vêm sendo operacionalizados e identidades negociadas na região em que se atua O trabalho assim não se dá apenas sobre o grupo de mulheres, mas atinge, direta ou indiretamente, familiares e agentes da comunidade (comerciantes, fornecedores, clientes, vizinhos, instituições) que se envolvem com esses casos. Nesse sentido, programas de geração de renda, quando bem trabalhados em uma perspectiva de gênero, são capazes de pôr em jogo mudanças em toda uma região e implicam uma atuação ampla, não necessariamente focada apenas nos sujeitos mais evidentes desse processo (as mulheres).

Mas se as situações geradas por essas experiências, ao desequilibrar um sistema anterior que ordenava as relações entre essas pessoas, permitem um trabalho sobre gênero no sentido da reconstrução das relações em questão, o tipo de atuação que se fará e os sentidos dados a ela podem variar bastante, dependendo do perfil e da trajetória da ONG que acompanhe o processo.  Dependerá, como vimos acima, da forma como se utilize gênero na prática institucional.

Por exemplo, na situação descrita em que maridos se enciúmam da relação das esposas com comerciantes e fornecedores, temos ocasião para trabalhar diversas questões explicitadas pelo conflito originado. Pode-se, por um lado, desenvolver um trabalho de fortalecimento da auto-estima dessas mulheres no sentido de que elas se percebam donas de seu próprio corpo e se sintam seguras para lidar melhor com os ciúmes na relação com os maridos. Por outro, pode-se envolver os maridos em atividades de estudos e reflexão que os levem a perceber a relação das esposas com os comerciantes no plano profissional e a compreender suas próprias reações como resultado de alguns modelos de gênero que devem ser mudados. A primeira atividade é, sem dúvida, muito mais próxima de um discurso e de uma prática feministas sobre o conceito de gênero, enquanto a segunda se aproxima de um uso característico das ONGs mistas.

Tenho usado aqui as diferenças de práticas e discursos de ONGs mistas e feministas com casos ilustrativos da influência de diferentes trajetórias institucionais no campo sobre a forma como se utiliza o conceito de gênero. Isso não significa, de modo algum, que essas práticas não tenham importantes pontos em comum e não possam ser agregadas muito proveitosamente em espaços de atuação conjunta. Da mesma maneira, existem outras diferenciações institucionais entre as ONGs, que também refletem na forma como se pensa e se age sobre gênero, tal como o perfil do público beneficiário, origem institucional, tamanho, etc. De todo modo, devemos atentar para o potencial e o limite de cada atividade, buscando interações que se complementem da melhor forma possível. O trabalho focado exclusivamente sobre as mulheres parece ser, assim, tão limitado quanto aquele que não ajusta foco algum para essa especificidade.

Para concluir, a importância de um trabalho amplo e diversificado, no que se refere ao potencial das experiências de geração de renda, é enfatizado ainda quando procuramos entender essas experiências para além de uma forma de ação sobre o mercado de trabalho e as vemos como elemento que articula dimensões bem maiores das vidas dos sujeitos envolvidos. 

Os conceitos de gênero, mesmo em seus diferentes usos, nos pedem que não fiquemos apenas na constatação das posições diferentes que homens e mulheres ocupam no mercado de trabalho Eles nos indicam que essa situação não deve ser entendida apenas no mundo do trabalho, que é um dos lugares em que se visibilizam desigualdades instituídas por fatores enraizados em outras dimensões da vida de homens e mulheres. Da mesma forma, avanços e conquistas nesse panorama não podem ser medidos apenas pela posição em que as mulheres se encontram na estrutura ocupacional desse mercado. A realidade, vista com um olhar de gênero, conduz-nos a indagação não apenas da posição que um sujeito específico ocupa em uma dada situação. Mas vai além, no sentido de entender quais as relações que se estabelecem entre mulheres e homens, mulheres entre si e homens entre si, de tal forma que, por serem marcadas por preconceitos de gênero, acabam afetando negativamente o desempenho profissional e a vida de homens e mulheres de forma diferenciada. 

Mas isso coloca a questão de como medir - ou encontrar mecanismos adequados para aferir objetivamente um conjunto de transformações relacionais e situacionais, dificilmente quantificável. Eis um desafio que extrapola enormemente os limites deste texto e ficará, certamente, como muitas das questões postas aqui, para serem desenvolvidas no debate e na discussão que esses subsídios vierem a despertar.

 NOTAS

 1. Texto elaborado para a Oficina: gênero e geração de renda, do GTGênero da Plataforma de Contrapartes Novib no Brasil, realizada em Curitiba, entre os dias 4 e 6 de dezembro de 2000, sob a coordenação do ADITEPP e CAATINGA.

  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 BUTLER, Judith. (1990), Gender trouble: feminism and the subversion of identity. New York & London, Routledge.

COSTA, Cláudia Lima.(1994), "O leito de Procusto: gênero, linguagem e as teorias feministas". Cadernos Pagu, n.2.

HEILBORN, Maria Luísa. (1992), "Fazendo gênero? A antropologia da mulher no Brasil", in A.Costa & C. Bruschini (orgs.), Uma questão de gênero. São Paulo, Ed. Rosa dos Tempos.

LAMAS, Marta. (2000), "Gênero: os conflitos e desafios do novo paradigma". Proposta. Rio de Janeiro, FASE, 84/85. 

LOBO, Elisabeth de Souza. (1987), Os usos do gênero. São Paulo: mimeo.  Exposição feita no seminário Relações de Sexo/Relações de Gênero, USP, 1987.

MOORE, H. L. (1994), A Passion for difference: essays in antropology and gender. Indiana University Press.

RODRÍGUEZ, Lilia. (1993), Genero y desarrollo. Quito, Cepam.

SIMIÃO, Daniel Schroeter.(1999ª), Gênero no mundo do trabalho: referências iniciais para um debate. Brasília, mimeo. Texto elaborado para o Fundo para Igualdade de Gênero . Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional (Cida/ACDI).

_________. (1999b), Um conceito itinerante: os usos do gênero no universo das organizações não-governamentais. Dissertação de mestrado Campinas, IFCH, Unicamp.

_________. (2000), O pulo do sapo: gênero e a conquista da cidadania em grupos populares. Curitiba, Expoente.

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