Perspectivas de gênero
Debates e questões para as ONGs

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Parte I
O gênero nos contextos de intervenção das ONGs

  Início

Relações de gênero no contexto urbano: um olhar sobre as mulheres
Márcia S Macedo

 

Uma reflexão sobre relações sociais no contexto urbano nos leva, antes de mais nada, a pensar o entrelace de questões que se articulam contemporaneamente no cenário das cidadescertamente que muitas dessas questões repercutem fortemente também no campo -, formando uma grande teia de contrastes sociais nos quais se interconectam os personagens sociais que constroem cotidianamente o seu direito de “habitar”.

A orquestração de mudanças no contexto da globalização mundial, articuladas pelo grande capital, vem lançando mão de novos processos de produção que fazem dos seres humanos meros apêndices de uma tecnologia que é utilizada cada vez menos em proveito do bem comum. O movimento de expansão do capital atinge todos aqueles que vivem do trabalho e inverte a lógica social fazendo com que passemos a falar em "massas sobrantes" quando deveríamos falar em "riquezas expropriadas", sob a conivência de um Estado "encolhido", cada vez mais cúmplice de um amplo processo gerador da exclusão social - que traz no seu bojo a fome, o desemprego, a violência institucionalizada e a crescente ausência de exercício de direitos sociais, como moradia, saúde, alimentação, segurança, educação, lazer e cultura.

Esse processo de exclusão social vem ganhando contornos alarmantes na atualidade e   define o retrato de um País predominantemente urbano e desigual - 80% da população brasileira vive em cidades, perfazendo algo em torno de 130 milhões de pessoas -, onde crescem os problemas "herdados" do passado associados às "novas questões" agudizadas pelo modelo econômico do presente. Baseadas numa lógica segregadora e discriminadora, as cidades vêm tendo como seu principal traço definidor a precariedade de acesso da maioria de seus habitantes a aspectos fundamentais da vida urbana, que vão desde a moradia e oferta de emprego até serviços coletivos, como saneamento básico, limpeza urbana, pavimentação de ruas, iluminação, transporte público e manutenção de áreas comuns, como praças e jardins, segurança pública.

Assim, a cidade como espaço de contrastes articula uma pluralidade de lógicas que atinge de forma diferenciada seus diversos grupos sociais, variando segundo o recorte de classe, étnico/racial, idade/geração, gênero, origem urbano/rural, orientação sexual, religião, entre outros fatores. Essa diversidade também favorece a articulação de diferentes formas de luta por direitos, fazendo da cidade também um espaço social de construção de cidadania ou, como define Dias (2001: 12):

 o cenário essencial onde se multiplicam, com grande diversidade, dinamicidade e velocidade, movimentos institucionalizados ou não, lutas particularizadas ou não, que buscam compreender o urbano e reelaborá-lo no sentido de conquistas que vão desde a posse da terra até a afirmação dos direitos das maiorias sociais.

 Nesse contexto, pensar as múltiplas formas de opressão que aproximam e separam os sujeitos sociais permite o entendimento da existência de um conjunto de semelhanças e diferenças que se articulam gerando uma combinação de arranjos que não vão necessariamente na mesma direção. Assim, homens e mulheres, ainda que possam partilhar uma mesma situação de classe - como, por exemplo, por não terem acesso à moradia podem estar unidos na luta pela ocupação de uma determinada área do espaço urbano  -, vivenciam diferencialmente fatos do seu cotidiano devido à força da dimensão que constitui aquilo que podemos chamar de experiência de gênero.

A categoria gênero, como um dos principais elementos articuladores das relações sociais no contexto urbano, nos permite entender como os sujeitos sociais estão sendo constituídos cotidianamente por um conjunto de significados impregnados de símbolos culturais, conceitos normativos, institucionalidades e subjetividades sexuadas (Scott, 1990) que atribuem a homens e mulheres um lugar diferenciado no mundo, sendo essa diferença atravessada por relações de poder que conferem ao homem, historicamente, uma posição dominante.

Logicamente discutir relações de gênero requer um cuidado para que não se caia na armadilha das fórmulas simplificadoras que convertem o masculino e o feminino em campos estanques e homogêneos, como se homens e mulheres não apresentassem convergências nas suas experiências e representações ou como se entre homens e homens e mulheres e mulheres não existissem também divergências (Sorj, 1993), afinal não podemos esquecer das chamadas identidades sobrenomeadas ("mulher negra", "mulher trabalhadora rural", etc.). Assim, pensar gênero implica entender que ele se constitui dentro do que Saffioti (1994) chama de universo conceitual relacional, isto é, não apenas gênero não é sinônimo de mulher, como é preciso entender que ele regula para além da relação homem-mulher, também a relação mulher-mulher e homem-homem.

Portanto, refletir sobre relações de gênero implica realizar uma releitura de todo o nosso entorno, o que significa, por exemplo, repensar a cultura, a linguagem, os meios de comunicação social, as instituições como a família ou a religião, os processos políticos como os movimentos sociais ou partidos políticos. A tarefa a que nos propomos neste texto é a de buscar entender como gênero, ao construir uma teia de relações sociais, nos permite lançar um olhar interessado e comprometido sobre os processos sociais construídos e constituintes dos sujeitos sociais no contexto urbano, onde se dão as práticas políticas de diversas organizações comprometidas com a construção de uma nova sociedade.

 (Des)construindo as relações de gênero a partir do cotidiano

 A seguir, discutiremos alguns pontos que possibilitam uma leitura de como a adoção de um recorte transversal em torno das relações de gênero funciona como uma lente que possibilita a visibilização de uma série de aspectos que a sociedade vem naturalizando e que vem assegurando a perpetuação de relações assimétricas entre homens e mulheres. O que se percebe é que as mulheres não dispõem das mesmas condições que os homens para enfrentar os problemas da vida urbana, especialmente aquelas pertencentes ao contingente das classes trabalhadoras. Isso porque ainda há uma grande concentração do poder e de recursos produtivos nas mãos dos homens (meios de produção, como terra e capital, por exemplo), bem como também em termos do acesso diferenciado que estes têm ao conhecimento (domínio da tecnologia). 

Nesse sentido, partimos do referencial básico de que, por conta dessas assimetrias, mulheres e homens vivem e pensam o mundo a partir de diferentes "lugares", tendo, dessa forma, necessidades diferenciadas. O desafio a que nos propomos, portanto, como diria Souza-Lobo (1991), é a busca da compreensão dos vários espaços e relações em que o gênero se constrói, como o mercado de trabalho, a família, as instituições, as políticas públicas, os meios de comunicação, etc., que influenciam diretamente a construção das subjetividades de mulheres e homens.

 O mercado de trabalho

 A princípio, precisamos entender que até um elemento aparentementeneutro”, como o mercado de trabalho, comporta uma lógica que está atravessada por assimetrias em torno de aspectos como sexo/gênero, idade/geração, raça/etnia ou mesmo diferenciação urbano/rural. No tocante à dimensão de gênero, que nos interessa mais imediatamente, podemos perceber que há uma racionalidade que utiliza a força de trabalho das mulheres em benefício do processo de acumulação capitalista, sob diversos aspectos, desde o não reconhecimento do trabalho doméstico como criador de valor (da própria força de trabalho), seja ele remunerado ou não, tornando-o uma responsabilidade da mulher (esposa, mãe, filha, empregada doméstica, etc.); ou quando remunera diferencialmente homens e mulheres, considerando o rendimento gerado pelo trabalho feminino como suplementar ao orçamento doméstico ou ainda quando se utiliza de certas "habilidades especiais" das mulheres (que logicamente não são naturais, mas geradas pelo processo de socialização e educação diferenciadas) para serviços rotineiros ou que exigem minuciosidade ou paciência (como por exemplo a montagem de placas para equipamentos eletrônicos ou a realização de atividades repetitivas em linhas de produção), produzindo os chamados guetos ocupacionais

Assim, quando comparadas aos homens, as mulheres não apenas estão nas profissões de menor prestígio e mais baixa remuneração como ainda apresentam taxas de desemprego mais altas; também estão mais presentes, proporcionalmente, no mercado informal, além de terem menor acesso a uma mobilidade vertical positiva (promoções, cargos de chefia, etc.) quando empregadas, estando menos incluídas que os homens nas chamadas garantias trabalhistas como carteira assinada, previdência social, etc. 

Quando comparadas à força de trabalho masculina, as mulheres tornam-se vítimas de uma perversa lógica que torna as articulações de algumas de suas possíveis características sociodemográficas - como a idade, o estado civil e a condição de maternidade - fatores ainda mais limitantes para sua inserção no mercado de trabalho, o que vai significar uma situação de maior vulnerabilidade para aquelas mulheres jovens que tenham filhos pequenos e que ainda estejam em fase reprodutiva. A presença de filhos (imaturos) entre as mulheres de baixa renda é o elemento que mais interfere na participação da mulher no mercado de trabalho urbano, principalmente em função da insuficiência de equipamentos coletivos urbanos, como creches e escolas em período integral. Essa dificuldade vem levando um grande contingente de mulheres com filhos a buscar a articulação de uma série de atividades informais, com menor remuneração e sem garantias trabalhistas, mas que permitem a conciliação das atividades que desenvolve com aquelas em torno dos cuidados cotidianos com o seu grupo doméstico.

 A mulher, a família e as mulheres chefes de família

 No tocante à família, gênero é um poderoso instrumento que nos ajuda a entender esta realidade. Em primeiro lugar, mostra que temos uma visão fortemente influenciada pelas ideologias familistas que terminam por produzir uma  “naturalização” desse  agrupamento humano que chamamos de família. Isso significa dizer que tendemos a ter uma representação social comum do que é uma família e desta como condição indispensável para a produção/ reprodução dos seres humanos, o que implica a idealização de um ambiente harmônico, repleto de condições necessárias ao desenvolvimento de indivíduossaudáveis”, equilibrados e produtivos -. Em suma, implica pensar numa organização social baseada na divisão social e sexual de papéis, complementares e hierárquicos, expressos na sociedade moderna na figura do “pai/ chefe de família” e seu par, a “mãe de família/dona de casa”, logicamente que acompanhados de seu complemento, a prole

Nesse ponto, é impossível não reconhecer que chegamos finalmente ao modelo clássico da família nuclear conjugal, profundamente imbricado às ideologias de gênero, que tende a considerar o "diferente" como "não-família" ou pelo menos família "incompleta" ou "desorganizada". Essa crítica à família nuclear nos permite perceber que a dinâmica existente no contexto familiar não pode ser comportada em um único modelo de família. Ao contrário, a depender do momento do chamado ciclo vital de um grupo familiar, podemos ter uma diversidade de posições, lugares e papéis complementares que demarcam, de uma vez, relações de parentesco, gênero e geração.

Um segundo aspecto, que a crítica ao entrelace das ideologias familistas às de gênero nos permite ver, é a noção de "chefe de família" predominantemente associada à figura masculina, a quem se atribui o papel de provedor e responsável legal pelo grupo familiar, sobre o qual este exerce uma indiscutível autoridade. Essa análise nos leva obrigatoriamente à desconstrução desse modelo tradicional de família, possibilitando o entendimento da ocorrência de um conjunto de transformações nas estruturas familiares; entre elas, a identificação de outros modelos de convivência e solidariedade entre pessoas, o que traz, particularmente, a percepção do crescimento das chamadas famílias chefiadas por mulheres

Na América Latina, há estimativas de que mais de 30% das famílias são chefiadas atualmente por mulheres e, no Brasil, sabe-se que nas áreas metropolitanas esse número é bastante superior. Na verdade, não se trata de um fenômeno novo, pois registros da sua ocorrência em grupos populares desde o século XIX, mas, nas últimas décadas, nota-se sua ampliação entre as camadas médias e populares. Há uma multiplicidade de fatores contribuindo para a ampliação desse fenômeno e de sua visibilidade social, entre os quais se articulam fatores de ordem ideológica e socioeconômica, fazendo com que, de um lado, o modelo ideológico da família nuclear entre em choque com a "nova onda" de mulheres sós com seus filhos, em grande parte decorrente da entrada maciça de mulheres no mercado de trabalho nas últimas três décadas, o que vem lhes permitindo, particularmente àquelas de camadas médias, melhores condições de manutenção de sua família, independentemente da figura masculina; de outro lado, temos fatores de ordem mais propriamente econômica, ocasionados pelo crescimento do fenômeno entre as mulheres pertencentes às camadas mais pauperizadas da população urbana  -particularmente entre aquela situada abaixo da chamada linha de pobreza - em um contexto de crescente isolamento dos núcleos domésticos das redes de parentesco e solidariedade, aumentando assim o número de pessoas “livres” de vínculos de proteção social, em situação de pauperismo extremo, evidenciando a ausência do Estado no atendimento às necessidades dessa população e pressionando o delineamento de novas políticas públicas. 

 A esse respeito vale ainda considerar que as ideologias de gênero vêm definindo um modelo de maternagem e paternagem assentado numa hipertrofia do primeiro ("o filho é da mãe") e numa atrofia do segundo ("quem pariu Mateus que o balance"), o que faz com que as mulheres se sintam excessivamente responsáveis pelos cuidados com os filhos, transferindo a quase exclusividade da maternidade biológica para a dimensão da maternidade social.  Nesse contexto, as mulheres, independentemente de sua classe social, raça/etnia, idade ou geração, se tornam chefes de família por serem, antes de mais nada, “mulheres”.

A dimensão de gênero é, dessa forma, definidora de um modelo de maternidade/maternagem em que há uma grande centralidade dos filhos no projeto existencial dessas mulheres, levando-as a não pouparem esforços para garantir a reprodução do seu grupo doméstico, independentemente da presença masculina. Observa-se que a identidade da mulher está muito relacionada à identidade de mãe, ocorrendo uma representação da maternidade como algo sagrado, o que termina por provocar um deslocamento de um papel cultural como se fosse algo próprio da natureza da mulher (processo de “culturalização da natureza”). 

Essa mesma ideologia de gênero contribui ainda para legitimar esse papel da mulher, fazendo com que estas se sintam muitas vezes responsáveis exclusivas pelos "seus" filhos, o que termina por fazê-las indivíduos ainda mais dóceis à marginalização, aceitando mais facilmente que os homens situações de penúria, subocupações e trabalhos mais penosos em nome do sustento dos filhos. São as mulheres, dentro do grupo doméstico, aquelas mais dispostas a sacrifícios, muitas vezes não medindo esforços, para que os filhos possam permanecer na escola e venham a conquistar níveis mais altos de escolarização.

Retomando a questão das mulheres chefes de família, a realidade empírica vem mostrando que há uma articulação de fatores como classe, raça e gênero que vem definindo um perfil predominante de mulheres-chefes em condição de extrema pobreza, composta em grande proporção por mulheres negras e com características desfavoráveis à sua entrada e permanência no mercado de trabalho -como baixos níveis de escolaridade e prole em idade escolar. Assim, para que ocorra uma inserção dessas mulheres no mercado de trabalho, é muito comum a transferência do papel de mãe e dona de casa para outros membros da família, geralmente para a filha mais velha, que na maioria dos casos ainda é uma criança. Alguns estudos vêm mostrando como a transformação das meninas em "mães substitutas" termina por perpetuar as desigualdades de gênero, pois penalizam as crianças do sexo feminino ao acelerarem um amadurecimento precoce destas em relação às de outras classes sociais, além de dificultar seu processo de escolarização, transmitindo em última instância o mesmo padrão desigual de divisão do trabalho entre os sexos - o que termina por poupar os indivíduos do sexo masculino em detrimento da exploração da força de trabalho das meninas e mulheres.

 Nas famílias chefiadas por mulheres, há uma tendência a se analisar a saída do homem do grupo doméstico em termos negativos, pois significa a supressão de um componente que tem uma cotação mais elevada no mercado de trabalho, o que levaria a uma situação de maior vulnerabilidade desses domicílios. Mas o que o contato com mulheres chefes de família vem revelando é que a saída do homem pode não significar necessariamente prejuízo para os que ficaram, pois, muitas vezes, a presença do homem pode estar se constituindo em um problema para a família, que em muitas circunstâncias ela pode estar acarretando situações de conflito, violência doméstica ou ainda desvio de recursos para fora do domicílio (bebida, jogos, outras mulheres, etc.). 

Associado a esses aspectos, outro fator que vem se evidenciando é que há uma significativa diferença nas prioridades de alocação de recursos entre homens e mulheres, sendo a chefia feminina, nesse sentido, muitas vezes mais democrática que a masculina. Outra questão que não podemos deixar de considerar é que em algumas circunstâncias a saída do homem do grupo doméstico pode significar, na verdade, a sua "expulsão", pois num contexto em que as ideologias de gênero definem um modelo de homem "provedor", sua permanência no grupo passa a ser problemática quando essa condição deixa de existir - é muito difícil a continuidade, na família, do homem em situação de desemprego, quando este se , muitas vezes, sem a autoridade moral sobre o grupo e/ou sobre a mulher, confrontando-se com as expectativas de vivência da masculinidade hegemônica em termos do não envolvimento na realização de atividades domésticas e sim de uma participação ativa no mundo público através do trabalho, lazer e outras formas de sociabilidade.

 A mulher e o contexto urbano 

A centralidade da mulher na família é um fator inquestionável, conforme nos mostram as análises de gênero, pois vêm definindo o protagonismo da mulher na administração da escassez nos grupos domésticos de baixa renda, orientando sua ação no sentido de planejamento e execução de um conjunto de estratégias em torno de condições de subsistência mais favoráveis para sua família. No desempenho desse papel, as mulheres articulam redes de parentesco e apoio mais amplos, que significam não apenas a mobilização de recursos materiais, mas, inclusive, a integração dos membros da família a novas oportunidades de trabalho

Assim, as relações de gênero têm perpetuado uma desigual distribuição dos esforços cotidianos em torno da reprodução das condições de subsistência das famílias, especialmente daquelas relativas ao chamado mundo privado, o que faz com que as mulheres sejam, senão as únicas, as principais responsáveis pelo trabalho doméstico. Portanto, estas se tornam as maiores prejudicadas diante da precariedade dos serviços públicos voltados para a satisfação de necessidades como saúde, educação, infra-estrutura urbana (escola, luz, água, esgoto, coleta de lixo, etc.).

O que pode ser questionado, nesse momento, são as razões da nossa ênfase no tocante à carência desses serviços relacionando-os às mulheres, visto que eles atingem diretamente todas as comunidades de baixa renda, o que, conseqüentemente, inclui a parcela da população pertencente ao sexo masculino. Em primeiro lugar devemos considerar, pelo motivo apontado, que a divisão desigual do trabalho entre os sexos vem responsabilizando mais diretamente as mulheres pela satisfação das necessidades sociais mais ligadas ao campo da reprodução e, conseqüentemente, "liberando" os homens desse papel. Em segundo lugar, em decorrência desse primeiro motivo, é impossível ignorar que a existência de uma infra-estrutura mínima teria efeitos positivos sobre o volume de trabalho realizado pelas mulheres, permitindo uma redução dos esforços mobilizados por estas para o suprimento das necessidades de suas famílias - por exemplo: o fornecimento regular de água encanada pode evitar grandes deslocamentos das mulheres, geralmente transportando vasilhames pesados, para suprir de água sua residência, ou ainda permitir-lhes um maior número de horas de sono, pois eliminaria as constantes "vigílias"  no aguardo da chegada de água para encher reservatórios e vasilhames da casa.

Essa análise não pretende negar que é preciso reverter as assimetrias existentes nas relações de gênero no contexto da esfera privada, significando uma inclusão dos homens -meninos, jovens, adultos e idosos - no mundo da reprodução cotidiana da vida das famílias. Por outro lado, mesmo que a multiplicação de equipamentos coletivos e a montagem de uma infra-estrutura básica não tragam como resultado uma reversão desse quadro de separação das esferas públicas e privadas, por conta do processo histórico e pelo fato de que essa transformação envolve uma pluralidade de fatores, acreditamos que essas mudanças permitem às mulheres das gerações do presente uma condição mais favorável de viabilização de um cotidiano que, quer queiramos reconhecer ou não, ainda pesa excessivamente, e quase que exclusivamente, sobre os seus ombros.

Outro aspecto que mobiliza profundamente as mulheres, chefes de família ou não, é a conquista da moradia. Vários estudos vêm apontando a centralidade do projeto de aquisição da casasegundo alguns, "um projeto que nunca se acaba" - entre a população de baixa renda. A casa, para essa população excluída de uma série de direitos sociais, é o lugar privilegiado para a realização do cotidiano da família (expresso na clássica frase: "Quem casa quer ter casa"); como lembra Bilac (1995), a casa significa uma forma de proteção social, num contexto de adversidades ("é o meu canto, de onde ninguém me tira"), representando a materialização dos esforços de melhoria de vida, "uma garantia mínima numa vida cheia de incertezas".

A construção da casa, nesse contexto, é um processo longo e penoso, que começa, muitas vezes, com a ocupação dos terrenos em áreas mais periféricas dos grandes centros urbanos, constituindo as chamadas invasões. Nesse processo, as mulheres desempenham um papel estratégico, pois junto com as crianças compõem a "linha de frente" que garante a ocupação ininterrupta do espaço, evitando a destruição dos "barracos" e também enfrentando a violência policial, fazendo elas próprias, a serviço do seu grupo doméstico, um uso das ideologias que apresentam a idéia de fragilidade e desproteção de mulheres e crianças. Assim, a participação das mulheres na realização do projeto da casa é vital para a família, pois esta se amplia na geração de renda para o processo de autoconstrução das casas, fazendo-se ela própria, às vezes, de "pedreira", a despeito das ideologias de gênero que “sexualizam” determinadas atividades considerando-as como "femininas" ou "masculinas", como é o caso da construção civil (2)

Ainda refletindo acerca da participação das mulheres no contexto urbano,um dos aspectos que merecem destaque, refere-se à força das ideologias que apresentam os idosos, especialmente aqueles pertencentes às classes populares, como indivíduos dependentes e que terminam por contribuir para a ampliação do leque de atividades a cargo das mulheres, exigindo destas uma série de cuidados especiaisEstudos recentes realizados junto a "pessoas de mais idade" (Brito da Motta, 1999) vêm questionando essa imagem estigmatizada do idoso doente e improdutivo e vêm mostrando que tem sido verificado justamente o oposto: os idosos e, mais especificamente, as mulheres idosas, no contexto de empobrecimento das camadas médias e de baixa renda, tornam-se cada vez mais importantes para a reprodução cotidiana das famílias, pois, livre de vínculos com o mercado de trabalho, assumem crescentemente, na ausência dos adultos, grande parte do trabalho doméstico, o que inclui o cuidado com as crianças e a "supervisão" dos adolescentes em idade escolar. Um outro aspecto importante é o fato de tornarem-se,em  alguns casos,uma fonte regular de rendimentos para a constituição do orçamento doméstico, em decorrência do recebimento de aposentadorias - em algumas famílias mais empobrecidas, inclusive, a aposentadoria do idoso, apesar de exígua, pode ser o único provento fixo e regular entre os membros do grupo doméstico.

 A violência de gênero e as mulheres

 A violência de gênero, mais precisamente a violência contra a mulher, é uma das formas de violência mais aceitas como "normais" e de maior presença no cotidiano de nossa sociedadePara melhor exemplificar, podemos citar alguns ditados populares que terminam por expressar a naturalidade com que esse tipo de violência ainda é encarado:

 Mulher gosta de apanhar.
Mulher
é que nem bife, pois quanto mais apanha melhor fica.
Ele
não sabe porque bate, mas ela sabe porque apanha.
(Anônimo)

 Os dados das pesquisas sobre a violência de gênero no Brasil mostram a gravidade da situação: a) entre todos os casos de violência ocorridos no final da década de 80, mais da metade tinha mulheres como vítimas; b) enquanto o homem é vítima de violência na rua, a maioria das mulheres agredidas sofre violência dentro da própria casa; c) grande parte dessa violência sofrida pela mulher é provocada por parentes e cônjuge

No Brasil, calculava-se, ainda no início da década de 90, que a cada quatro minutos é registrada na polícia uma queixa de agressão física contra uma mulher. Estudiosos do tema (Saffioti 1994) comentam que esse número é alarmante, mas ainda não espelha a realidade, que muitas mulheres vítimas de violência não prestam queixa na polícia por várias razões . como medo, dependência financeira ou emocional, existência de filhos pequenos, vergonha, desejo de que o marido mude de atitude, etc. ., o que leva à conclusão de que o número de mulheres agredidas é bem maior do que o apresentado. Um outro dado é que muitas dessas mulheres que chegam a registrar queixa, pelos motivos apontados, e até sob a ameaça do marido, voltam à polícia para retirar sua queixa

É muito importante a busca de informações que ajudem a desfazer alguns mitos ligados a essa problemática. O primeiro deles é a idéia de que a violência doméstica é um fenômeno ligado à pobreza; na verdade, ela ocorre em todas as classes sociais, mas acontece que entre as classes médias e alta, muitas vezes, ela não chega a público por razões como o medo de um escândalo que venha a "manchar o nome da família", daí buscam-se alternativas como terapeutas, advogados, etc. Outro equívoco é a associação direta da violência com a crise econômica, o desemprego e o alcoolismoesses fatores podem ser o estopim de uma briga, pelo fato de aumentarem o estresse e diminuírem o autocontrole, mas não podem ser considerados como causas da violência

Um outro aspecto que dá o que pensar é o fato de que muitos homens que agridem suas esposas são descritos por estas como "pessoa amigável", "homem trabalhador", "bom pai", etc., apesar de cometerem esse tipo de violência. O que nos leva a perguntar: por que um homem considerado bom pai, trabalhador e pessoa amigável é o mesmo que espanca e até mesmo mata a sua esposa? O que faz um homem - aparentemente incapaz de cometer violências - ferir, mutilar e até tirar a vida de sua companheira, muitas vezes por um motivo fútil como a queima da comida ou um atraso de dez minutos na volta do supermercado

Temos que buscar compreender esse fenômeno no campo das discussões das relações de gênero, tentando articulá-las às reflexões realizadas até aqui. Assim, a violência contra as mulheres está diretamente relacionada às desigualdades existentes entre homens e mulheres e às ideologias de gênero . expressas nos pensamentos e nas práticas machistas, na educação diferenciada, na construção de uma noção assimétrica em relação ao valor e aos direitos de homens e mulheres, na noção equivocada da mulher enquanto objeto ou propriedade de seu parceiro. Nesse último ponto, as estatísticas apontam que 70% dos homicídios de mulheres no Brasil são cometidos por ex-maridos e ex-namorados, na maioria das vezes, por estes não aceitarem o desejo das mulheres de ruptura do relacionamento amoroso (Saffioti, 1994). 

Logicamente que precisamos entender toda essa discussão de forma bastante ampla para não se criar uma noção equivocada dos homens como apenas agressores e as mulheres como "pobres vítimas". A violência de gênero é uma realidade bastante complexa e envolve uma série de questões que têm suas raízes na sociedade, na omissão do Estado, sem falar em aspectos ligados às relações interpessoais e trocas afetivas entre os seres humanos

Dessa forma, por ocorrer, principalmente, na vida privada (particularmente na família), a violência de gênero esteve, por muito tempo, encoberta por uma certa invisibilidade social. A sociedade, o Estado e seus representantes tardaram por intervir nesse tipo de violência e até hoje ainda resistem. Mesmo na atualidade, mantém-se com bastante força o famoso ditado: "Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher", o que remete à permanência de uma idéia de privacidade que deve ser respeitada e preservada em qualquer circunstância. Essa noção precisa ser superada e a própria Constituição Brasileira é bastante clara a esse respeito quando, no capítulo VII, referente à família, diz que a violência no interior da família deve ser coibida e que é obrigação do Estado sua proteção (artigo 226, parágrafo 8º).

A sociedade como um todo e, em especial, as instâncias mais diretamente envolvidas na prevenção e punição da violência precisam lançar um novo olhar para essa forma particular de violação dos direitos humanos. Os caminhos para a desnaturalização da violência contra a mulher passam pela retirada dessa problemática da privacidade do lar e pela criação de espaços e formas de enfrentamento que vão desde a prontidão da ação policial de socorro à vitima de violência e aprisionamento do agressor, ao atendimento digno à mulher que se dirige à Delegacia Especial para registrar uma queixa, passando por maior eficiência da Justiça na punição dos agressores, até a criação de espaços de apoio às mulheres agredidas e sob ameaça de morte.

 Mulheres e políticas públicas

 De uma forma geral, no campo das políticas públicas, uma das questões que mais dificultam uma perspectiva que contribua para a eqüidade de gênero é o fato de que as mulheres são quase que invisíveis para os gestores dessas políticas e, quando são vistas, o são apenas sob o ângulo de sua participação na esfera da reprodução e, ainda assim, de uma forma bastante restrita, pois não há uma compreensão de quenecessidades específicas das mulheres, que precisam ser reconhecidas e encaminhadas. Há, muitas vezes, um conjunto de iniciativas voltadas para as mulheres que, inclusive, reforçam esse papel tradicional da mulher, restrito à reprodução. Como exemplo, temos os clássicos cursos/grupos de costura, artesanato, etc., que não podem ser descartados como recurso de mobilização para reflexão e ação, se forem utilizados como uma atividade meio dentro de um processo que tem uma direção estratégica de construção de alternativas de ampliação da participação da mulher na sociedade.

Um outro exemplo dessa invisibilidade está localizado na questão da dificuldade de acesso das mulheres à posse e regularização da documentação de propriedade das moradias no contexto urbano. O caso das mulheres chefes de família é bastante elucidativo dessa omissão do Estado e de seus gestores sobre a situação e as necessidades das mulheres: estas sequer chegam a ser reconhecidas como mantenedoras de seus domicílios, particularmente quando não são oficialmente viúvas ou divorciadas e estão na condição de solteiras, separadas ou com múltiplas parcerias temporárias, tornando-se quase que inelegíveis para os programas de financiamento de habitação populares, de autoconstrução ou mesmo reforma e ampliação de moradias, o que é agravado por fatores restritivos como a precariedade de vínculos com o mercado de trabalho e as baixas remunerações que auferem nessas condições.

As mulheres precisam tornar-se beneficiárias "oficiais" das políticas públicas voltadas para o combate à pobreza, visto serem estas, juntamente com as crianças, grande parte das chamadas populações vulneráveis distribuídas pelas áreas mais pauperizadas do globo terrestre. Os homens e as mulheres gestores de políticas precisam adotar mecanismos que permitam traçar um desenho da composição destas populações, que permitam uma análise de gênero e o delineamento de políticas a partir da participação das próprias beneficiárias na definição de prioridades

Assim, é fundamental que as mulheres possam ser instrumentalizadas para entrar na “cena públicacomo protagonistas e não meros objetos das políticas públicas. Para isso, é preciso que se evidencie a percepção de que sua participação, que muitas vezes se inicia no que podemos chamar de âmbito comunitário, precisa se ampliar para outros níveis da ação política, o que implica pensar além do bairro e da circunvizinhança, indo na direção das lutas da cidade e de outras instâncias de gestão da coisa pública.

 As mulheres e as conseqüências do seu engajamento político

 É claro que a "saída" da mulher do espaço privado para a vida pública não é uma tarefa simples. As últimas décadas têm testemunhado um aumento significativo da participação das mulheres das classes populares nos movimentos sociais urbanos, mais especificamente naqueles movimentos em torno da melhoria das condições de vida dos bairros populares (água, luz, saneamento, transporte, segurança, etc.), tendo como principal interlocutor e, muitas vezes, opositor, o Estado. Para as mulheres, o crescimento de seu protagonismo social tem possibilitado a construção de uma identidade que tem como referência "outros lugares sociais", como mulher, militante, cidadã, etc., ampliando suas metas para além do universo privado onde se estruturam suas identidades tradicionais de mãe e esposa.

Essa participação feminina nas lutas urbanas e nos movimentos diversos, ao permitirem o contato com o mundo "fora da casa", embora tenha sua atuação referendada no privado, significa também para muitas mulheres o enfrentamento de reações contrárias no interior do núcleo familiar, principalmente por parte dos companheiros. Essa reação pode ser vista como expressão do receio masculino de que a saída da mulher do mundo doméstico venha a "subverter" algumas regras estabelecidas, que esses novos espaços de participação pressupõem novos saberes, novas informações que, por sua vez, redefinem as relações de poder no nível do privado (Pinto, 1992).

Particularmente, no caso da relação conjugal, percebe-se que o homem, de certa forma, considera ameaçado o controle que possui sobre a esposa. Assim, o crescimento da participação feminina e sua atitude de contestação, velada ou explícita, ao autoritarismo masculino, à violência doméstica, às ameaças de separação parecem estar indicando que, de fato, começam a ocorrer algumas alterações nas relações de poder na dimensão da vida privada. Uma das conseqüências mais significativas dessa mudança é o início de uma redefinição da posição da mulher não apenas em relação ao companheiro e ao seu grupo doméstico. O que se percebe, no contato com as mulheres nas lutas dos bairros, das associações, etc., é que estas começam a ter uma posição qualitativamente diferenciada nas suas relações cotidianas, o que, por sua vez, redefine sua própria relação no nível público (Pinto, 1992) e, conseqüentemente, reflete na construção de sua identidade de gênero.

Entendemos que, ao vivenciar essas novas práticas sociais, as mulheres passam a redimensionar sua própria experiência cotidiana, estabelecendo processos de negociação, transformando-se, num certo sentido, em sujeitos de sua própria vida. Isso significa a construção de novas representações sociais sobre si e sobre o mundo que as cerca, o que leva à ampliação da consciência de que, como pessoa, "tem direito a ter direitos". Nesse sentido, buscam resgatar uma dimensão de sua existência que lhes vêm sendo negada, pela rigidez das hierarquias de gênero e classe .  entenda-se, com isso, ser mulher e pobre, numa sociedade marcada por desigualdades sociais como a brasileira.

Assim, acreditamos que, ao participarem dos movimentos populares, as mulheres estão buscando muito mais que uma resposta para necessidades "objetivas" e imediatas (como transporte, saneamento, educação, etc.), estão se remetendo ao universo das "mediações simbólicas" e, por que não dizer, a um mundo onde é possível ter sonhos e novas aspirações. A busca e a motivação propulsoras dessa participação é o desejo de romper com os "asfixiantes" limites da vida privada, em que essencialmente se vive o tempo de (e para) "outros". Dessa forma, percebemos que a motivação para participação em diversas práticas sociais não se encontra assentada numa relação direta entre um conjunto de necessidades e respectivas alternativas de enfrentamento. Mas é, a nosso ver, o resultado da articulação de um conjunto de fatores que tem como locus, sem sombra de dúvida, a esfera da vida privada, onde são "tecidas" suas identidades em formação

Há uma grande importância política na ampliação dessa participação da mulher, ela vem significando a constituição de um espaço que é, ao mesmo tempo, público e privado, o que "(....) não significa [dizer] que se fundiram as esferas do público e do privado ou que seus limites tornaram-se indefinidos, mas que se adquire a capacidade de transitar mais livremente entre elas.  (Britto da Motta, 1993: 418). É justamente o exercício desse trânsito entre essas esferas que vai favorecer às mulheres a construção de novas sociabilidades e identidades. Estas se descobrem como pessoas, sujeitos, agentes e formulam um discurso no qual acentuam as rupturas e mudanças de comportamentos.

A constituição de mulheres como sujeitos sociais, portanto, requer que no processo da ação coletiva sejam reelaboradas pelas agentes suas experiências como mulher e trabalhadora, mulher e integrante de determinado movimento, como mulher e moradora de periferia, etc. (Lavinas, 1989: 5-6), pois assim as mulheres poderão construirnovas representações sociais sobre si mesmas” - representações estas que devem ser coerentes com a sua realidade e com suas práticas sociais, tal como enunciava Souza-Lobo (1989: 9):

 Os caminhos de construção dessa nova identidade podem ser dolorosos, mas (....) as mulheres não são mais as mesmas.  (....)Oimportante é que muitas se descobriram como pessoas, como sujeito de suas vidas e, por isso mesmo, estão dispostas a deixar o conforto ambíguo da esfera privada para enfrentar o mundo fora e para inventar novos sonhos.

 Refletindo algumas propostas de ação

 Uma das principais questões na reflexão sobre as relações de gênero no contexto urbano, possibilidades e desafios no sentido de uma transformação da sociedade nessa direção, é que ela não pode estar dissociada de uma dimensão mais utópica em torno de transformações societárias mais amplas, o que passa pela construção de uma sociedade sem contradições em torno de questões além de gênero, como raça/etnia, idade/geração, desigualdades de classe ou ainda opção sexual ou religiosa. Falamos da possibilidade de uma sociedade em que seja possível uma convivência mais humana entre os diferentes, baseada no princípio de uma possível e desejável coexistência de processos de homogeneização e diferenciação social.

Nessa direção, as pistas de ação, para todos aqueles que buscam a construção de uma nova estrutura societária que reconhece a existência de diferenças sem abrir mão da luta política pela igualdade, passam inequivocamente pela mobilização em torno das questões que envolvem as relações de gênero. A transversalidade de gênero nas relações sociais facilita esse processo, pois é uma dimensão que “atravessa” os vários campos do fazer humano e, em especial, aqueles voltados para a construção de novas práticas e representações sociais. Portanto, a incorporação da perspectiva de gênero implica trabalhar com homens e mulheres, mas implica uma necessária ênfase em políticas voltadas para a transformação da realidade das mulheres, pois a construção da eqüidade de gênero passa pela implementação de ações que permitam a constituição e o fortalecimento do protagonismo social das mulheres, tornando-as não apenas sujeitos sociais, mas principalmente sujeitos políticos. Dessa forma, as ações voltadas para a construção da eqüidade de gênero devem, entre outros fatores, atentar para que:

  •  Sejam incentivadas atividades coletivas (encontros, bate-papos, debates, exibição de filmes, etc.) que envolvam homens e mulheres, em todas as faixas de idade, para que sejam discutidas questões cotidianas ligadas às experiências e representações de gênero, visando a desconstrução de referenciais tradicionais em torno de temas como: trabalho doméstico, educação diferenciada, modelos de paternidade/ paternagem e maternidade/maternagem, corpo e sexualidade, mundo do trabalho, imagem da mulher nos meios de comunicação, modelos de masculinidade, entre outros

  • As atividades geradoras de renda que envolvem mulheres tenham capacidade competitiva no mercado de trabalho, aliadas a uma formação para o trabalho (não apenas técnica, mas uma formação que caminhe na linha da "conscientização" e envolva temas como auto-estima, organização, corpo, sexualidade, participação política, educação diferenciada, etc.). 

  • A participação de mulheres em atividades comunitárias em torno de questões ligadas ao consumo coletivo não signifique apenas uma ampliação da sua jornada de trabalho, mantendo sua dimensão estratégica quanto à transformação efetiva no contexto social dessas mulheres.

  • Haja incentivo para a criação de organizações autônomas de mulheres, favorecendo seu intercâmbio, estimulando ações conjuntas em torno de questões ligadas aos direitos de cidadania, atentando para a articulação com as lutas específicas em torno das desigualdades de gênero.

  • Sejam encaminhadas iniciativas de apoio à ampliação da educação formal e informal das mulheres, o que passa pelo apoio aos processos de elevação dos níveis de escolarização (alfabetização, supletivo, cursos pré-vestibulares) e ainda pela contribuição à realização de atividades de formação continuada, como encontros, seminários, cursos de curta duração, entre outros.

  • As organizações de mulheres sejam incentivadas à participação no delineamento, no planejamento e na execução de políticas públicas, tendo clareza para a necessidade dos porquês e do como na inserção do recorte de gênero, e possam estar envolvidas na implementação de medidas de construção da eqüidade

  • Seja incentivada a capacitação de representantes da sociedade civil (conselheiros municipais, ativistas de ONGs, membros de organizações populares, etc.) e de indivíduos que ocupem posição estratégica na formação de opinião (professoras/ es de diferentes níveis, assistentes sociais, lideranças, etc.), especialmente das mulheres, para a construção de referenciais críticos em torno dos eixos articuladores das assimetrias de gênero em campos como: educação (por exemplo, a implementação da proposta de reformulação dos conteúdos curriculares da educação formal, através dos temas transversais como gênero, realização de formações específicas sobre gênero e sexualidade voltados para educadoras/es etc.); saúde e direitos reprodutivos (prevenção de câncer de mama e cérvico-uterino, (in)formação sobre sexualidade e a possibilidade de decidir quanto ao número de filhos, etc.); medidas preventivas e de intervenção na questão da violência contra a mulher (instalação de delegacias especializadas e capacitação de pessoal, casas-abrigo, campanhas informativas, etc.); alternativas de produção de emprego e renda que gerem autonomia econômica e redução do desemprego (por exemplo, qualificação profissional, alternativas competitivas de produção para o mercado, etc.); infra-estrutura urbana voltada para as necessidades de homens e mulheres (instalação e conservação de banheiros públicos, lavanderias comunitárias, creches, etc.); segurança pública (como iluminação e urbanização de locais "ermos", postos de policiamento comunitário com a presença de homens e mulheres, demolição de ruínas e estruturação de áreas de circulação de pessoas com atividades de esporte e lazer, etc.); participação política (incentivo e capacitação de mulheres para a participação na política formal, apoio à candidatura de mulheres a cargos eletivos, construção de plataformas políticas com o recorte de gênero, etc.).

 No caso das mulheres chefes de família, as políticas públicas devem levar em consideração a dupla lógica que traz desvantagens sociais para esses sujeitos, tanto como mulheres quanto como chefes de suas famílias, e as conseqüências da vivência dessa experiência num contexto social fortemente marcado pelas desigualdades de gênero. Assim, uma proposta de ação voltada para alteração nas condições de vida desses sujeitos deve oferecer, entre outros pontos:

  •  Alternativas e programas de geração de renda e de formação para o trabalho, visando sua melhor inserção no mercado formal e informal.

  • Apoio à atividade remunerada da mulher que tem filhos em torno da geração de infra-estrutura urbana, como creches, escola em tempo integral; equipamentos coletivos, como restaurantes comunitários, etc.

  • Iniciativas que incentivem e auxiliem a busca de mecanismos legais de responsabilização dos pais pela manutenção dos filhos - independentemente da natureza do tipo de vínculo conjugal com as genitoras.

  • Programas habitacionais que levem em conta as especificidades desse grupocomo os baixos níveis de remuneração e as reduzidas taxas de vinculação formal ao mercado de trabalho -, facilitando o acesso ao financiamento de moradias subsidiadas ou com reduzidas taxas de juros, bem como também para ampliação e reforma de imóveis, além da viabilização da legalização das moradias em áreas ocupadas (regularização fundiária).

 Acreditar na eqüidade de gênero e envidar esforços para a transformação das relações entre homens e mulheres no contexto urbano é uma das importantes vias para a reafirmação de valores e princípios como dignidade humana, justiça, eqüidade, solidariedade, parceria/cooperação e participação efetiva.  Logicamente que "nem tudo é uma questão de gênero"; por outro lado, todas as mudanças nas relações sociais estão de alguma forma ligadas a essa dimensão, fazendo com que gênero não seja a mais importante, mas seja uma instância necessária para a construção da utopia da sociedade mais justa com a qual sonhamos e que acreditamos colocar em movimento com a nossa prática cotidiana.

 NOTAS

 1. Artigo produzido para reflexão na Oficina: gênero, moradia e suas relações no contexto urbano, promovida pelo GTGênero da Plataforma de Contrapartes Novib no Brasil, realizada nos dias 7 e 8 de junho de 2001, em Salvador, sob coordenação do CEAS e CDDH Bento Rubião. 

2. Ver a esse respeito o vídeo Que história é essa de mulheres pedreiras?, produzido por Terezinha Oliveira e distribuído pela Massangana Produções (Recife, 1998).

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