Perspectivas de gênero
Debates e questões para as ONGs

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Parte I
O gênero nos contextos de intervenção das ONGs

  Início

Hip-hop: o que há de novo (1)
Regina Novaes


Foi
inicialmente como consumidora que presenciei, nas palavras do grupo Pavilhão 9, “a tomada, por assalto, do cenário nacional pelo movimento hip-hop. Como consumidora estranhei o deslocamento das imagens e notícias sobre a periferia (desabamento na favela, filas para vagas no setor de saúde ou de educação, rebeliões na Febem ou em penitenciárias, chacinas, ruas sem esgoto, casas inacabadas...) dos telejornais para as revistas, canais de televisão e programas especiais que giram em torno do mundo pop. Foi estranho ver na MTV, entre dois clipes onde predominavam as coloridas roupas da moda fashion, os cabelos coloridos e os ambientes hiperreais, ao lado de cenas de alguma favela, negros engazupados, armas, 111 presos mortos e corredores do Carandiru. A década de 90 foi invadida pela presença da periferia para além do lugar em que até então ela estava. O rap, o grafite e o break invadiram o universo urbano, veiculando-se pelo universo pop (Marta Jardim).

muito que investigar para saber como e por que a periferia tornou-se um produto altamente vendável. O depoimento da antropóloga Marta Jardim (1999:3) é instigante. Ela fala de um contexto em que os jovens das periferias das grandes cidades também se tornam criadores de moda e estilo incorporados por muitos jovens de classe média. Não são estilos que buscam diluir a condição social periférica com uma roupa insuspeita do centro. Ao contrário, acentuam os traços socialmente associados à marginalidade, fazendo da roupa uma espécie de denúncia, de caricatura da imagem associada à periferia. Certamente a diferença, imagens e falas fora do lugar, tem valor comercial no mercado. É por isso que parece não haver intenção de enquadrar o rap

Os Racionais MCs exemplificam bem essa história. Em São Paulo, em 1988, jovens moradores da periferia, batizados musicalmente como Edy Rock e K.L. Jay, participaram de uma coletânea chamada Consciência Black, lançada pelo selo Zimbabwe. No mesmo disco, outros dois jovens, Mano Brown e Ice Blue, participaram gravando a música Pânico na Zona Sul. Descobriram afinidades e formaram os Racionais. Hoje, a Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e K.L. Jay (DJ) agregam-se mais nove pessoas de equipe de apoio. No palco, no total, chegam a treze. O narcotráfico, a corrupção e a violência policial são os temas de suas letras. A inspiração, dizem, vem de Capão Redondo, bairro violento do extremo sul de São Paulo, que-segundo tem sido divulgado pela mídia - contabiliza treze assassinatos por mês. Mano Brown, vocalista do grupo, continua morando , na periferia

Periferia e favela, aliás, são palavras-chave nessa complexa história. Mas, neste artigo, eu gostaria apenas de me deter em três aspectos. Em primeiro lugar, é importante destacar algumas das características que dão o contorno à cultura-movimento hip-hop e, ao mesmo tempo, alimentam as controvérsias que dinamizam seu interior. Em seguida, trago algumas informações sobre as diferenças e semelhanças entre jovens urbanos de diferentes classes sociais que gostam de rap, da música da periferia. Por último, colocaremos o foco nos jovens das periferias e favelas para indagar sobre os efeitos do rap nos projetos culturais e intervenções sociais nesses espaços que se caracterizam por vários tipos de carências e violências.

 Hip-hop: tensões constitutivas em seis pontos de Controvérsia

 As Raízes (sobre os mitos de origem) 

[ Foi no ] (....) final dos anos 60 quando um disc-jockey chamado Kool Herc trouxe da Jamaica para o Bronx a técnica dos famosos “sound-systems”. de Kingston, organizando festas nas praças. Herc não se limitava a tocar os discos, mas usava o aparelho de mixagem para criar novas músicas. Alguns jovens admiradores de Kool Herc aprofundaram a técnica do mestre. O mais talentoso deles foi Grandmaster Flash, que criou o “scratch”, ou seja, a utilização da agulha do toca-discos arranhando o vinil no sentido anti-horário. Além disso Flash entregava um microfone para que os dançarinos pudessem improvisar discursos acompanhando o ritmo da música, uma espécie de “repente eletrônico”, que ficou conhecido como RAP. Os “repentistas são chamados de rappers ou MCs, isto é, masters of cerimony. O rap e o scratch não são elementos isolados. Quando eles aparecem nas festas de rua do Bronx, também estão surgindo a dança break, o graffiti nos muros e trens do metrô nova-iorquino. Todas essas manifestações culturais passaram a ser chamadas por um único nome: hip-hop. O rap é a música hip-hop, o break é a dança hip-hop e assim por diante (Vianna, H., 1998).

Além do rap (com seus DJs e MCs) e do break, há também o grafite, compondo a trilogia sagrada de um fenômeno social que é chamado pelos próprios participantes de movimento ou cultura hip-hop. Sabe-se que nos EUA há grupos violentos, financiados pelos traficantes. Mas também os grupos de caráter pacífico que se propõem a substituir a violência das brigas entre grupos pela competição na música, na dança e no grafite. No Brasil os grupos que se tornaram conhecidos são contra as drogas e pregam a paz. Essa postura favorece conexões entre os grupos do movimento hip-hop com instâncias governamentais, organizações não-governamentais e igrejas.

Ainda assim, existem discussões sobre as raízes do hip-hop Um trecho de um artigo escrito pelo DJ TR, pesquisador, ativista do hip-hop e colunista do jornalAfro Reggae Notícias (2) exemplifica a controvérsia. Diz ele:

(....) o surgimento do hip-hop, no País, foi em São Paulo, entre os anos de 1982 e 1983, através de equipes de som que nos anos 70 importaram dos Estados Unidos o soul e o funk - a trilha sonora do movimento black power, que se tornou o primeiro momento de união da juventude negra do Brasil. Mas há relatos na Bahia de ganhadores de pau, escravos que trabalhavam nas ruas de Salvador e que desenvolveram o canto falado com letras de denúncia contra a escravidão. Histórias como essa tendem a reforçar o discurso nacionalista de alguns militantes extremistas do hip-hop, que tentam excluir a influência americana de nosso rap. Não conseguem. A própria história dos EUA registra a presença dos griots, escravos que trabalhavam nas lavouras de café, utilizando o canto para divertimento, para contar histórias dos antepassados e resistir à pressão do senhor.Todas essas coincidências nos permitem o rap como algo instintivo e de origem africana. Mas é a partir da migração jamaicana que o rap começa a ser formado, adquirindo sua forma definitiva nos EUA. Uma outra parte do movimento se baseia completamente no comportamento do rap americano atual, esquecendo-se totalmente dos próprios valores gerados pelo movimento no Brasil (....)

Esse trecho exemplifica bem o constante debate sobre as origens da cultura hip-hop. O autor apresenta duas posições polares (nacionalista e americanista), mas sabemos que ainda existem tantas posições intermediárias, como a dele próprio, que, reconhecendo a procedência americana, termina o artigo com uma afirmação e uma indagação:

não devemos confundir nossa gratidão pelo aprendizado com troca de nacionalidade. Nascemos e vivemos no Brasil, onde o dia-a-dia não se compara ao dos EUA. Se conseguimos facilmente copiar os atos negativos do rap de , então por que não nos esforçamos um pouco para imitar o que têm de positivo?

O hip-hop não é, portanto, um movimento orgânico que produz grupos homogêneos. Ao contrário, existem várias correntes, linhas e ênfases que os diferenciam em países, cidades, bairros e estilos, que a circulação de bens culturais não se faz nunca em uma direção unilateral. Assim sendo, a discussão sobre as origens nunca vai acabar. Essa é uma controvérsia constitutiva do hip-hop. Na verdade, ao reafirmar ou negar raízes do passado, os grupos estão se posicionando sobre questões do presente, estão fazendo escolhas e construindo alianças e identidades.

 O Mercado (Quem vende? Quem se vende?)

 Cronistas da periferia, os rappers se declaram “contra o sistema”, mas se movem dentro dele. Criticam a mídia, atribuem a ela a responsabilidade por boa parte das agruras do mundo atual, mas estão nela, principalmente nas páginas culturais quando lançam os CDs, mas dizem escolher quando e com quem falar.

Nas entrelinhas das reportagens, muitas vezes pode-se ler indagações críticas: “estão na periferia, mas não são da periferia”.  Não admitem, massão produtos da indústria cultural”. Com efeito, clipes dos Racionais e de MV Bill foram premiados na MTV. Em 1998, um dos vocalistas dos Racionais recebeu da MTV o prêmio Revelação do Troféu e, ainda, o prêmio Escolha do Público; seu clipe de 8 minutos da música Diário de um Detento concorreu a um prêmio internacional na Alemanha. O clipe Soldados do Morro, de MV Bill, antes de ser premiado na MTV, ganhou um processo, pois foi acusado de “incitamento ao tráfico”. 

argumentos recorrentes para não aceitar convites da Rede Globo e de programas de auditório em geral. Em primeiro lugar, é que é melhornão aparecer nestes programas que tiram sarro dos grupos. Não iríamos vender nosso som para estes caras. Não somos produto, somos artistas” (Edy Rock, Racionais, Jornal da Tarde, 4/8/98). Ou, em uma versão mais light, podemos ouvir algo como: “tem programa de auditório em que o apresentador não deixa a gente se expressar. Convidam para ridicularizar. Mas os programas que dão uma liberdade, mesmo que não seja total, dá para ir”.  (MV Bill, Democracia Viva, nov. 2000/fev. de 2001). Em segundo lugar, nesses programas eles não controlam os cortes de suas falas e de seus clipes. Nesse contexto justificam a ida à MTV, porque “é uma emissora musical”, não cortam os clipes onde é fundamental que imagens fortes se juntem às suas letras. Um dos integrantes do grupo, K.L. Jay, tem um programa na MTV que objetiva descobrir novos grupos.

Descobrir novos grupos é aumentar a lista dos que sonham sobreviver através da música, que sonham entrar nesse mercado.  Nesta seqüência, uma pergunta é constante entre jovens que fazem esse tipo de música: fazer carreira é entregar o rap para a indústria fonográfica? Vender onde e para quem? É possível vender sem se vender? A resposta nunca é consensual.

Uma corrente expressa o sonho de fazer distribuição estritamente para a periferia, circulando os produtos e o dinheiro do movimento somenteentre os manos”, que “compreendem a mensagem e se enxergam nas imagens” (ver Jardim, 1999). Mas a maioria que se manifesta sobre o assunto considera que se restringir aos “manos da periferia” seria “permanecer no gueto” e a “mensagem” ficaria para quem sabe. O mercado seria então imprescindível para fazer o hip-hop cumprir sua pregação de “crítica ao sistema”.

O debate prossegue: depois de um contrato, as letras estão ou não mais palatáveis ao sistema? A questão é saber qual é a fronteira entreganhar dinheiro com ética oufazer uns baratos escrotos para ganhar dinheiro”(3 )

 Na prática são várias as situações. Há grupos que produzem e vendem um número limitado de cópias nos chamados circuitos alternativos, tais como: festivais, ONGs e pouquíssimas lojas especializadas. Há grupos que conseguem contratos com gravadoras comerciais; estes se dividem entre os que se “entregaram para o sistema, a mídia” e os que conseguem resistir com maior ou menor sucesso de vendagem. Há outros grupos que gravam em gravadoras independentes, mas dependem de outras gravadoras para distribuir e comercializar. E, finalmente, há alguns grupos que alcançam a situação ideal: garantem a mensagem e chegam aos números de vendas do grande mercado através de gravadoras e distribuidoras independentes.

Os Racionais MCs estão nessa última situação. São sempre citados nessas discussões. Tornaram-se um paradigma. Gravaram em produtoras independentes e mais recentemente possuem seu próprio selo. Recusaram vários contratos de grandes gravadoras.  Entre os participantes do movimento hip-hop, tornou-se mítico um diálogo que teria havido entre Mano Brown e um importante diretor da Sony. Conta-se que, depois de oferecer um contrato milionário e receber uma recusa, o diretor teria dito: “Mas você sabe quanto dinheiro isto representa?” Brown teria dito: “Sei muito bem, mas não quero”. A história pode ser contada de maneira diferente, ser mais ou menos detalhada, mas o núcleo é sempre o mesmo: duvida-se de queum negro da periferia saiba quanto é este dinheiro, ele sabe, sabe e não quer”. Contado em situações diversas, este diálogo reafirma o lugar de liderança d’Os Racionais MCs entre outros grupos musicais e entre seus fãs. Resta saber como se recontará a história se Os Racionais assinarem contrato com uma grande gravadora.

Enfim, a questão de vender ou não vender (para a indústria fonográfica e para os meios de comunicação) é uma constante que sintetiza uma tensão fundamental e constitutiva do movimento hip-hop. Uma tensão que não pode ser abolida. Se abolida levaria consigo a alma do movimento que - para manter sua marca identitária - não pode nem ficar isolado sem levar a mensagem, nem se submeter à lógica estritamente comercial que predomina no mercado e na mídia, pois - de novo - isso colocaria em risco a própria mensagem e anularia a missão.

 As Mulheres (Cultura de Rua e Relações de Gênero)

 Os poucos grupos de rap de mulheres são exceções sempre citadas (4 )Nos eventos promovidos no Rio de Janeiro, no início dos anos 90, o grupo As Damas do Rap chamava a atenção por ser o único grupo feminino. Há notícias de novos grupos de meninas como, por exemplo, entre meninas internas na Febem em Porto Alegre. Há poucas mulheres no movimento hip-hop.

Assim sendo, o lado masculino/machista não passa despercebido nas entrevistas e nos debates públicos. A resposta mais freqüente remete às contingências da cultura de rua. Nesse contexto, a rua é associada à violência, à criminalidade, às brigas de turma, à discriminação policial. Em certos bairros não se pode sair à noite. Muitos jovens, sobretudo as meninas, que trabalham de dia, deixam de freqüentar a escola, pois a circulação à noite é extremamente arriscada. E, na contabilidade final, são os jovens do sexo masculino os que mais matam e os que mais morrem. A rua é associada ao perigo e está fortemente associada ao mundo masculino. Portanto, a chamada cultura da rua estaria mais associada aos meninos do que às meninas.

É interessante notar que as mulheres da comunidade  - mães, esposas, irmãs e filhas que vivem na periferia - estão quase sempre ausentes das letras. De certo ponto de vista, os rappers poupariam essas mulheres próximas. Em uma entrevista à revista Raça (1977), Mano Brown deu uma explicação que parece ir nesse mesmo sentido: “Para falar a verdade, a gente não tem mais mensagem para mandar pras mulheres. O mundo que a gente vive é outro Mulher é a parte boa da vida”.

Contudo, há letras que falam de outras mulheres. Os Racionais compuseram  Mulheres Vulgares. Esta fala sobre mulheres consumistas e prostituídas. Indagado sobre o sentido da letra, Blue, dos Racionais, respondeu: “No nosso caso, do mesmo jeito que a gente aponta o negro limitado, aponta o traficante “.. se formos falar das minas tem que apontar a falha também. (revista Raça, 1997).

Nos debates a que assisti, não havia moças respondendo pelo movimento hip-hop, e as respostas dos rapazes ao questionamento sobre relações de gênero podem ser assim resumidas: tem que mudar o machismo dos homens, mas também as moças quenão se sentem no direito de estar, por isso recuam e não se empenham”. 

Em resumo: ora justifica-se que as mulheres não estão pre sentes nas letras através das características da cultura de rua, porqueseu mundo é outro”; ora são objetos de crítica: aquelas que estão no caminho errado, tal qual os policiais e traficantes; ora a questão está na dominação masculina interiorizada nas próprias meninas quenão se sentem no direito de estar”.

Hoje aparecem mais grupos de rap compostos por mulheres Em um artigo intitulado Hip-hop Nacional Feminino, MV Bill, rapper, 27 anos, morador da Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio, nome de batismo Alex, apelido de infância Rato Bill, MV -  que quer dizer Mensageiro da Verdade - no lugar de MC, afirma que, no ano passado, por ocasião do prêmio Hutus 2000, “as mulheres estiveram presentes com um grau de respeito que poucas vezes vi no movimento”. Nesse mesmo artigo ele anuncia a chegada de um CD “de uma mulher, que normalmente tem espaço limitado no meio” (Portal Viva Favela, 15/6/2001). Ou seja, há avanços, mas a cultura hip-hop está longe de ser politicamente correta no que diz respeito a se aproximar de um equilíbrio de gênero. A controvérsia prossegue.

 Raça Negra (com quais critérios e fronteiras?)

 A dupla Thaíde & Dj Hum propõe uma espécie de aliança entre negros e quem está com eles. No hip-hop eles são considerados pioneiros: eles “foram os caras que deram o pontapé inicial de verdade no rap no Brasil”, diz K.L. Jay do Racionais. Segundo   reportagem do jornalista Pedro Biondi “eles são os “irmãos mais velhos” da efervescente geração de jovens que está dando o novo rosto das periferias”. Na mesma entrevista para a revista Caros Amigos (Especial, setembro de 98) eles dizem que preferem circular entre os diversos grupos e tendências do movimento negro sem se filiar a nenhum. São considerados moderados, pois evitam discriminar brancos. A dupla invoca a importância de “ser negro por inteiro”, maspor favor respeitando o irmão claro que está a seu lado torcendo por você”.

Os Racionais, por sua vez, são vistos como menos moderados.  Suas letras de rap combinam denúncia de racismo, críticas nacionalistas e deixam evidentes as  desigualdades raciais. Vejamos um exemplo:

60%dos jovens de periferia, sem antecedentes criminais, sofreram violência policial.
A
cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras.
Nas
universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros.
A
cada 4 horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo.
Aqui
quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente.
(
Capítulo 4, Versículo 3)

Sobre esse assunto, Oliveira (1999) observa que

(....) a idéia de mano está fortemente ligada à noção de negritude, orgulho e identidade racial. A primeira frase de seu último CD é “Ogun Yê!” “saudação ao Orixá Ogun, em iorubá” As camisas da grife do grupo trazem a inscriçãoPreto tipo A”, mostrando um tipo de orgulho racial que é sempre visto como racista no Brasil. E esta é a surpresa.  A música dos Racionais está trazendo algo que o movimento negro nunca conseguiu: comunicação de massa com a massa. Suas músicas e suas roupas são cantadas e usadas por jovens negros pobres da periferia, jovens negros de classe média, jovens mestiços de todas as classes e jovens brancos dos Jardins.

De fato, enfatizar o orgulho racial e ampliar o circuito de consumidores é a novidade. Através da via artística - com todas as especificidades que hoje conformam o mercado de bens culturais - torna-se possível esta conjugação: afirmar a negritude Preto Tipo A e sair do gueto, “conseguindo coisas que o movimento negro nunca conseguiu”. Conjugação que, diga-se de passagem, tocando na questão de mercado, não é um ponto pacífico no interior da cultura hip-hop e tampouco entre correntes e concepções de luta contra o racismo no Brasil.

Como vimos, a afirmação da negritude se faz pela via das crenças religiosas. Nesses casos, as letras buscam conexões entre Jesus Cristo e Oxalá, isto é, entre as tradições cristãs e as afro-brasileiras. Pedro Biondi, em reportagem citada anteriormente, afirma que a dupla Thaíde e DJ Hum valoriza “o lado espiritual”.  Os irmãos mais velhos do hip-hop brasileiro na faixa Brava Gente, cantam: “Nossas origens viraram macumba/ malvistas e jogadas nas encruzilhadas”. Na faixa Sabe Quem Eu Sou?, fala-se da religiosidade brasileira:  Evoco espíritos no atabaque/ mas também preciso da bênção do padre”. Thaíde justifica sua com exemplos da vida real: “Como explicar a vez em que eu estava andando num trilho de trem, no meio de um puta tiroteio, sem nenhuma bala me acertar?”  A pergunta sugere que o cotidiano da periferia produz situações-limite, que banalizam a morte e que estimulam a entre os sobreviventes, o que se reflete na produção cultural desta geração, produzindo uma nova combinação entre temas de violência simbólica (presente sobretudo no racismo), cenas de violência urbana explícita e perguntas cujas respostas são encontradas no solo da religiosidade. No Rio de Janeiro, há uma letra do grupo Rappa que é exemplar dessa modalidade. Chama-se Cristo e Oxalá. Vale a pena transcrever um trecho:

Oxalá se mostrou assim tão grande
Como
um espelho colorido a mostrar
Pro
próprio Cristo como ele era mulato
que Deus é uma espécie de mulato
Salve
em nome de qualquer Deus, salve
Se
eu me salvei, foi pela
Minha
é minha cultura
Minha
, minha
É
meu jogo de cintura, minha

Porém, é sempre difícil descrever os movimentos exatos desse jogo de cintura. Um trecho de entrevista de MV Bill, publicada pela revista Democracia Viva (Ibase, nov. 2000/fev. 2001) pode dar uma idéia da complexidade da questão. Falando sobre a criação de um partido que representasse a maioria negra ele respondeu:

uma pessoa branca não tem sensibilidade suficiente para entender nossas necessidades e exigências. você sendo preto 24 horas por dia para saber o que é necessário fazer Em todo lugar que o branco chega - ele foi criado assim, é tradição - não gosta de ser coadjuvante. o preto gosta desta situação, assume o segundo lugar. O branco tem o instinto de tomar a frente.

Ou seja, assumir a negritude e denunciar o preconceito racial são atitudes que se esperam de todos os grupos de rap. No entanto, a controvérsia é contínua, pois as fronteiras são fluidas, se modificam de grupo para grupo de acordo com as oposições e alianças em jogo.

 A política (com ou sem Partido?)

 Em várias declarações dos participantes do movimento hip-hop, quando se fala em política, cita-se ninguém menos do queKarl Marx.

O movimento hip-hop, depois do Movimento Sem-terra, é o mais importante do Brasil. Racionais vendeu um milhão de discos. Não está mais no gueto. Hoje não para falar de socialismo da forma que Karl Marx falava (LF, do grupo de rap DMN).

Nós acreditamos em revolução através do grito da música, mas depois vão ter que vir armas, né? É aquilo que Karl Marx disse e Mano Brown reprisou, nós somos o efeito colateral do sistema (Marcelinho, do grupo Profetas da Revolução).5

Outro exemplo: no vídeo Rap: O Grito da Periferia, realizado pela TV Educativa, aparece um grupo da cidade de Tiradentes que exibe e aconselha o livroOque é Revolução? de Florestan Fernandes.  São exemplos. Haveria outros, que nas posses e Associações Culturais existem bibliotecas e o objetivo de oferecer informação.

Na prática, os grupos possuem graus variados de ligação ou recusa de ligação com partidos políticos e de tomadas de posição na política partidária. Na última eleição, na cidade de Diadema, o MH20 (Movimento Hip-hop Organizado) oficializou em público seu apoio à candidatura de Lula. a dupla Thaíde & DJ Hum faz questão de dizer que o apoio ao PT não é incondicional: “Às vezes a gente apóia um candidato ou partido, mas se ele pilantrar a gente retira o apoio”. Dizem que não querem ser obrigados a “dar satisfação”, a “prestar contas de suas idéias”. Com ironia se definem “como do PPP: Partido do Povo da Periferia” (Caros Amigos, Especial, número 3, 1998).

Os Racionais MCs, no geral, dão apoio a candidatos do PT.  Na última eleição presidencial, a imprensa explorou um comentário infeliz do candidato Fernando Henrique Cardoso, que teria se referido a “jovens com ares de marginais que estavam ao lado do Lula em um comício, sem saber que artistas eram aqueles que estavam entre os mais vendidos no País naquele momento (Isto É, 21 de outubro de 98). No entanto, trata-se de apoio circunstancial e não engajamento orgânico no PT. Após as últimas eleições, as declarações políticas dos Racionais têm sido sempre de desencanto com a política e, sobretudo, com os políticos.

Contudo, se até pouco tempo atrás, os rappers pareciam zelar por sua liberdade sem se submeter às regras e decisões das organizações do Movimento Negro ou de um partido político, se era em tom de brincadeira que diziam pertencer ao PPP, Partido do Povo da Periferia, hoje há uma novidade no ar. Este ano os jornais publicaram várias notícias sobre a efetiva fundação do Partido Popular Poder para a Maioria - o PPPomar. Esse Partido não é exclusivo de rappers, mas nele seus nomes são sempre destacados

Em artigo recente, Celso Athayde (Portal Viva Favela 17/9/ 2001) indagou ao rapper GOG de Brasília sua opinião sobre o PPPomar. A resposta foi longa. Lembrando toda uma trajetória de sofrimento e lutas dos negros no Brasil, considerando o Rio de Janeiro como “estado-berço que embala os sonhos do novo, mas calejado PPPomar”; GOG conclui:

Sou PPPomar porque, na longa e antiga luta libertária do povo negro, seus filhos legítimos fugiram à luta. Sou PPPomar porque a questão racial está em um novo estágio (....). E qual é a hora? A hora é de arregaçar as mangas, trabalhar, denunciar, politizar os movimentos de massa. Não com o discurso do “ódio ao inimigo dos olhos azuis”. Mas cobrando que seja contada a verdadeira história e o valor de nossa contribuição nestes quinhentos anos de Brasil Pátria-madastra.

Suely Carneiro, coordenadora da ONG Galedés, ativista do Movimento Negro e pesquisadora do CNPq, resume bem os desafios e os pontos positivos da empreitada, em entrevista para a revista Democracia Viva (Ibase jul. 2001/out. 2001) que lhe indagou: “O que você acha do PPPomar?” A essa pergunta, Suely respondeu que considera que a radicalidade dessa idéia é proporcional à exclusão política que os negros vivem dentro dos partidos de direita e de esquerda. Disse que considera positivo o fato dos jovens negros exercitarem o fazer político, assumindo a ousadia que a idéia de criar um Partido negro contém. E comentou: “vindo de rappers, tal como conheço em São Paulo, é uma saída light, considerando a violência do discurso que em geral têm” Temos que receber de uma maneira muito positiva esse desejo de participação política”. Mas Suely também não desconhece os obstáculos: “Torço para dar certo. Provavelmente, sofrerá retaliações de toda ordem. Uma tentativa de queimá-lo na origem por suposta aproximação com o tráfico de drogas ou a questão do divisionismo”.

Karl Marx e/ou Florestan Fernandes e/ou Mano Brown? PT e/ ou PPPomar? O PPPomar será um partido apenas de negros? Ou do tráfico? Esses flashes dão uma idéia do debate que ainda está por vir.

 O Tráfico

 Os grupos de rap se vêem com uma missão. Há um mal a combater. Para os Racionais o mal é localizado nas “garotas rebolando no Gugu”, no “alcoolismo”, no fato de “o ser humano ser descartável no Brasil como Modess usado ou Bombril”. Mas, para todos, no geral, o mal está sobretudo nas drogas. “Deixa o crack de lado, escuta meu recado”. Esta é a pregação d’Os Racionais. Consideram o tráfico o maior mal dos subúrbios pobres do País.  Afirmam que “existe um plano para acabar com os manos”. Desejam salvar os manos - jovens da periferia - da morte prematura, através de “ideologia”, “autovalorização” e “dignidade”. Mas como se colocam em relação aos traficantes? 

A cultura hip-hop não se desenvolve num espaço vazio de conflitos e relações sociais. Os traficantes existeme é preciso saber lidar com eles. Existem críticas sobre a maneira ambígua como traficantes e bandidos aparecem nas letras das músicas e nos clipes.  Referindo-se aos Racionais, afirmou o jornalista Mário Marques: “Eles são politicamente corretos, são contra as drogas, mas não chegam a condenar explicitamente o crime por saberem que o meio em que vivem não é exatamente favorável a uma rotina alheia à marginalidade” (O Globo, 4/4/98).

Os rappers colocam-se como observadores:

Falamos aquilo que vivemos. Vejo corpo estendido a duas quadras da minha casa. Somos uma espécie de repórteres da periferia. Falamos aquilo que 50 mil manos querem dizer, mas não têm oportunidade. Na periferia somos respeitados por todos: de trabalhadores a traficantes (Edy Rock, Jornal da Tarde, 2/12/97).

E isto produz o efeito de certa neutralidade. No entanto, essa postura é mais do que uma estratégia para evitar o confronto com os traficantes.

Como diz Mano Brown, em entrevista ao jornalista Pedro Paulo Soares (Caros Amigos Especial 3): “Não é fácil você apontar culpados e inocentes, há muita coisa envolvida nisto”.  Essas dúvidas espelham as vivências e sentimentos contraditórios ali socialmente produzidos. Fazem um trabalho de prevenção com os manos que ainda não entraram ou que são chamados a sair do mundo do crime. Mas também expressam compreensão com os manos que foram condenados por participação no tráfico de drogas ou em outros crimes. Daí a presença dos Racionais nos presídios e nas Febems.

É verdade que Os Racionais tiveram problemas com traficantes em São Paulo. Quando foram visitar escolas nas regiões citadas em suas músicas como as mais violentas, a diretora da Escola recebeu alertas do povo do tráfico. Mas, via de regra, não conflitos diretos com os traficantes.

Na mesma direção vai a reflexão de MV Bill (Democracia Viva, número 9, nov./fev. 2001). Indagado sobre a relação entre tráfico e favelas, ele respondeu:

O tráfico não traz nada de bom para a comunidade. Não posso ser contra o cara que está vendendo porque ele cresceu comigo, mas sou contra o tráfico de drogas. Não existe aliança a ser feita, a única coisa que pode existir é uma relação de respeito. Eles trabalham para fazer o negócio deles (....). Faço shows em qualquer favela. Mas quem me leva sabe do que eu falo. Conhece meu discurso e sabe que ele não muda quando chego no palco. Às vezes fico entre a cruz e a espada. Não sou a favor da polícia, nem a favor do tráfico e na favela tem os dois. que o pessoal do tráfico entende minha posição.

Três ingredientes criam cumplicidade entre os que estão na periferia: a crítica social que os faz todos - traficantes e trabalhadores; efeito colateral do sistema”; a crítica à violência e à corrupção policial que produz uma mesma reação transversal entre todos, bandidos e moradores e, finalmente, um discurso moral - pontuado por conhecidas imagens e símbolos religiosos - que evoca valores comunitários, compartilhadas dúvidas existenciais sobre o sentido da vida e sobre a banalização da morte

Portanto, o hip-hop está sempre entre a cruz e a espada, entre a polícia e o tráfico. E esta é uma tensão constitutiva desse movimento nas grandes cidades do Brasil.

 O hip-hop e os jovens de toda cidade

 A despeito das tensões acima descritas, hoje não para descrever o cenário cultural das grandes cidades brasileiras sem citar os rappers com suas conexões internacionais e parcerias locais.  O hip-hop é fortemente local e, ao mesmo tempo, faz parte de uma densa rede internacional. Alguns grupos chegam a um certo circuito do mercado internacional. fizeram shows na Europa, mais precisamente na Alemanha e nos Estados Unidos.

No caso d’Os Racionais, o volume de vendas do grupo chama a atenção desde o primeiro trabalho. Holocausto Urbano, selo  Zimbabwe, vendeu 50 mil cópias, número significativo para uma banda iniciante. Em 1993, o grupo vendeu 250 mil cópias do disco Raio X do Brasil; produzido por uma gravadora independente e sem tocar nas principais rádios (6 ) O último CD, Sobrevivendo no Inferno, vendeu 200 mil cópias em duas semanas e chegou a vender um milhão de cópias. Em 15 dias passou a ocupar lugar de destaque nas lojas de todos os shoppings do País. Como noticiou uma grande revista de circulação nacional, “os mauricinhos e as patricinhas, que Os Racionais parecem odiar, não tiram o disco de seus CD players”. 

Isso sem contar o que foi vendido em edições piratas. Indagados sobre este mercado negro os Racionais lamentam as perdas financeiras, mas se mostram tolerantes, pois

esse problema é delicado. Sei que nossos discos são pirateados e acredito que mais de 150 mil discos foram vendidos. Estamos conversando com nossa distribuidora Zimbabwe para saber que atitude vamos adotar. Talvez nós mesmos iremos recolher estes CDs piratas. Mas também precisamos ver o problema social. O nosso público é formado por pessoas que estão desempregadas ou que ganham salário baixo. Se na loja o CD custa 20 reais, a solução é comprar um falso por 5 reais Quem vende também não é culpado. Culpado é quem fabrica (K.L. Jay, Jornal da Tarde, 4/8/98).

Podem vender para todas as classes, mas para eles seu verdadeiro público está na periferia. Ao mesmo tempo, dizem que seus shows são divulgados apenas através de cartazes colados nos postes das cidades. Dizem: “Nossa mídia são os bailes, o boca a boca”. Os Racionais fazem shows em grandes casas noturnas nas principais cidades do País. O ingresso desses shows custa vinte e cinco reais. Porém, nessas ocasiões fazem outros shows muito mais baratos ou mesmo de graça nas periferias. No Rio de Janeiro, após se apresentar em uma casa noturna “ o Imperator “ foram tocar nas favelas de Santa Marta e Vigário Geral. Diz K.L. Jay: “Na periferia a gente toca com prazer porque estamos do lado do nosso povo.  Eles entendem o que os Racionais falam nas letras (....). (Jornal da Tarde, 4/8/98).

Em 1999, quando os Racionais MCs se encaminhavam para chegar ao recorde de 1 milhão de cópias do seu Sobrevivendo no Inferno, uma pergunta foi reiteradamente feita pela mídia: por que jovens brancos e ricos gostam dos Racionais MCs? Segundo Oliveira (1999), a MTV, canal mundial especializado em música, chegou a realizar um programa de debates buscando entender quem são e onde estão os mais de milhares de manos que consomem os seus discos. Várias opiniões foram dadas. Mas não há uma pesquisa feita que nos apresente informações quantitativas que permitam estabelecer o perfil desse consumidor.

Oque se sabe é que se trata deumpúblico composto por jovens certamente diferentes entre si pela religião, cor, escolaridade, local de moradia, renda familiar. Mas se essas variáveis são importantes para caracterizar e diferenciar esse público, elas não são suficientes para explicar diferentes tipos de consumo do produto oferecido pelos Racionais. Para além da dicotomia periferia/centro, tão enfatizada nas letras das músicas, subgrupos de jovens de diferentes estratos sociais se aproximam em termos de marcas geracionais comuns Além do que, internamente, nos mesmos estratos, surgem também diferenças a partir de estilos, gostos e sonhos.

Na ocasião do estouro de vendas dos Racionais MCs, fiz uma pesquisa qualitativa sobre o assunto. Ouvi conversas espontâneas, provoquei outras e, assim, recolhi várias explicações para o sucesso dos Racionais entre os jovens do Rio de Janeiro. Com esse material, foi possível identificar três diferentes perfis entre os jovens que ouvem os Racionais. Os perfis formam quatro círculos concêntricos, um central e mais consistente, outro maior e mais híbrido, um terceiro bem mais fluido e um quarto do qual se fala, mas ninguém se identifica.

 O pessoal do hip-hop

 No núcleo central estão jovens que se identificam com o movimento hip-hop. Moram muito mais nas periferias do que nos bairros de classe média. Estes fazem questão de se distinguir de outros que moram nos seus mesmos locais (periferias e/ou bairro de classe

média) e gostam de rap como item de consumo, puro e simples. Dizem que valorizam as letras, ou seja, “a mensagem”. Incorporam maneiras de se vestir, de pensar, falam contra as drogas e contra o sistema. Não bebem nos espaços de encontro do movimento. São consumidores fiéis, mas é grande a parcela que se comoprodutores culturais”.  de fato ou em potencial de rap, break ou grafite.

 Os alternativos ou cabeças feitas

  para o segundo círculo, o gostar dos Racionais está conectado com afinidades entre as bandeiras dos Racionais e a dos “movimentos pela cidadania”, ecológicos, de grupos jovens organizados via ONGs, igrejas, partidos políticos ou movimentos estudantis, dos quais participam. Como sabemos, os grupos musicais têm se apresentado como um canal de participação dos jovens na década de 90. Tornaram-se um meio de participação política e de expressão de suas dificuldades num momento de crise econômica, de valores e de perspectivas de futuro. O gosto musical sinaliza a adesão a um certo conjunto de referências culturais. As gírias, as formas de se vestir e de se comportar e as letras das músicas que cantam demarcam identidades. Certas escolhas fazem com que se juntem em turmas, galeras, grupos, nos quais os jovens trocam idéias, elaboram projetos, se sentem companheiros...  Atualmente nos encontros que reúnem jovens, além dos grupos de discussão e das plenárias, cada vez mais se incluem oficinas culturais e shows de gruposque têm mensagens”. 

Esses jovensalternativos”, “conscientes”, “cabeça feita”  também estão na periferia/favela e/ou nos Jardins/asfalto. No asfalto muitos passaram por algum grupo jovem de igreja e/ou grêmio estudantil. Nas áreas mais pobres, além dos grupos de jovens religiosamente motivados, destacam-se os que participaram de projetos implementados por ONGs em parceria com organismos de igrejas ou de governo. Estatisticamente falando, são minorias no asfalto e na favela, na periferia ou nos Jardins que . com as devidas diferenças - se reconhecem através do interesse (e da tomada de posição) em determinados temas, tais como: desemprego, miséria, poluição, dificuldades da vida na cidade, discriminação racial e por local de moradia, violência policial, Aids, desejo de espaços e canais de diversão mais interessantes e acessíveis. Identificam-se com as lutas pela paz, são contra a pena de morte, bebem “socialmente”; se consomem drogas, no geral param na maconha.

 Os consumidores da mensagem

 Em seguida, há um círculo um pouco mais amplo e mais fluido Nos grupos de discussão que realizamos no Rio de Janeiro, os jovens moradores de áreas pobres e violentas que se enquadram nesse perfil são aqueles que estão conseguindo prosseguir os estudos e se inserir - ainda que precariamente - no mercado de trabalho. os de classe média, que foram ouvidos, são estudantes de colégios particulares. Estes também não são potencialmente produtores culturais ou da turma cabeça. São apenas consumidores. Diferentemente dos grupos anteriores não vestem a camisa ou são seduzidos pela interpretação geral da realidade que pode ser encontrada nas letras Via de regra não têm o objetivo de conectar o gostar dos Racionais com outras formas de participação social. Seus hábitos são diversificados.  Entre eles há os que não ingerem bebidas alcóolicas ou drogas, alegando “preservação da saúde”, os outros que dizem que bebem nas horas de lazer e há quem fume “um baseado aqui ou ali”. Para o pesquisador poucos dizem que experimentaram cocaína. Não têm opinião fechada contra ou a favor da pena de morte. Mas, ao ouvir os Racionais, dizem que “entendem a mensagem”. Reconhecem nas “reportagens” dos Racionais “verdadeiras descrições da realidade”.  Como disse um jovem de classe média: “Os Racionais mandam bem quando criticam a polícia em quem a gente não pode confiar. Eles falam o que a gente queria falar”.

 Os desligados da mensagem

 Segundo diferentes jovens que participaram dos grupos, haveria um outro círculo mais periférico ainda. Ali estariam os que “gostam porque é moda”, “gostam porque gírias e palavrões nas letras” e “nem refletem sobre as letras, é o ritmo que empolga”. Geralmente quem está falando imputa aos outros essas limitadas motivações.

 Uma marca geracional comum

 Não ouvi ninguém dizer - na primeira pessoa - que a mensagem não importa. Quando falam de si, a crítica à polícia é um denominador comum aos diferentes jovens que “gostam de ouvir os Racionais”. Para além de todas as diferenças, há uma percepção negativa da polícia, que os aproxima. 

O medo da polícia é uma marca, na experiência dessa geração, que aproxima jovens de condição social, projetos de vida e gostos diferentes. Para além das diferenças de local de moradia, o medo de “se encontrar com a polícia pode explicar a afinidade dos jovens com o conteúdo das letras. No cenário atual, sobretudo nas grandes cidades, o fato de ser jovem e estar transitando à noite nas ruas produz suspeitas e vulnerabilidade. Certamente, o medo e as experiências dos jovens com a polícia não são iguais. Os negros, moradores das favelas e conjuntos habitacionais que o digam. Eles são alvos preferenciais. Mas os brancos e mais abastados também não se sentem seguros, nunca podem prever, ter certeza de como a polícia vai agir com eles. Todos sempre têmumcaso pessoal ou muito próximo de violência policial para contar. Enfim, entre jovens - da periferia ou dos Jardins, do asfalto ou da favela -, a experiência negativa com a polícia pode ser vista como uma marca geracional comum que favorece o reconhecimento da verdade nas letras dos rappers.

 O hip-hop e os jovens da “comunidade” (parcerias e “projetos sociais”) 

O hip-hop não é a perfeição, como alguns credos religiosos.  Essa cultura é a cópia fidedigna da sociedade na qual ela se encontra inserida e isso tem aspectos positivos e negativos.  A cultura hip-hop, repito, é uma alternativa para se chegar à mudança, seja ela qual for, mas depende da consciência de cada um (Portal Viva Favela Hip-hop brasileiro em revista, Def Yuri 21/05/2001).

Ohip-hop no Brasil atingiu sua maioridade, tem vida própria e identidade. Há muito tempo, uma parte significativa de adeptos da cultura hip-hop deixou de fazer parte do grupo dos colonizados, apresentando evolução e autenticidade. Em minhas andanças, pude confirmar uma certeza: cada local do Brasil tem sua história.(....) E o hip-hop apareceu sofrendo deturpações (coincidências com os dias de hoje?). Mas, graças a Oxalá, uma parcela significativa conseguiu se salvar e disseminar a cultura hip-hop na sua essência (Portal Viva Favela hip-hop brasileiroemrevista, DefYuri 21/05/2001).

Nesse trecho da crônica de Def Yuri - que, em sua coluna no Portal Viva Favela, se apresenta como ativista da cultura hip-hop desde 1983, repeador, compositor e produtor -, para além da reafirmação da existência de correntes que “deturpam” ou “salvam a essência” do hip-hop, há outra afirmação importante: “cada local do Brasil tem sua história”. É verdade que a propagação veloz de certos símbolos e valores, pelos mais diversos países, permite que jovens - de diferentes condições sociais e de diferentes locais do mundo - de alguma forma partilhem um mesmo universo de referência. Mas isso anula apropriações diversas e uma multiplicidade de vivências baseadas nas culturas regionais, nas diferenças de renda, de gênero, de raça, etnia, local de moradia, personalidade. Ou seja, cultivado em solo americano, hoje espalhado pelo chamado mundo globalizado, o movimento vai ganhando expressões próprias, incluindo as marcas culturais das periferias de cada país, de cada cidade, de cada lugar. Sem a munição do local, não poesia para este ritmo seco, marcado, de certa forma previsível. 

Quem viu o filme O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, co-dirigido por Paulo Caldas e Marcelo Luna, pôde sentir o impacto do plano aéreo da periferia do Recife contra os grandes edifícios daquela mesma cidade, ao som da música d’Os Racionais, saudando as identidades entre as favelas do Brasil. Periferia é periferia em qualquer lugar, dizem. Mas o filme também mostra as diferenças regionais existentes no interior da cultura hip-hop. Comparado a outros grupos de hip-hop paulistas e cariocas bem conhecidos, o grupo Faces do Subúrbio tem histórias e influências musicais singulares.

Na história do hip-hop no Brasil, ninguém nega o peso específico dos paulistas. Um conjunto de elementos históricos e conjunturais alavancaram o hip-hop em São Paulo. E o ano de 1989 foi um marco importante. Os fundadores do movimento hip-hop organizaram um show comemorativo do aniversário da cidade de São Paulo (25/01), com o apoio da recém-eleita prefeita Luiza Erundina, do Partido dosTrabalhadores. Nessa mesma gestão, quando o educador Paulo Freire era secretário da Educação, desenvolveu-se um projeto que se chamava RAPensando a Escola. O objetivo era

absorver esta cultura rap para a reconstrução do saber. Fazer experiência com grupos de rap na sala de aula através de uma linguagem diferente daquela tradicionalmente utilizada. Ouvir a fala dos alunos para entender o processo de exclusão.  Eram três grupos que percorriam as escolas públicas do município. Foram escolhidos três grupos. Os Racionais era um deles. Racionais eram populares na periferia.

Luiz Fernando, o LF, do grupoDMN, que também participou do projeto RAPensando a Escola, relatou sua experiência:

A gente chegava na escola e trocava idéia. Entrava às 19:00 e saía meia-noite. A diretora tinha que mandar parar. Conversamos com os jovens que pichavam a escola: mano, será que você não pensa que é a mãe de um outro mano que vai ter que limpar esta parede? O grafite é um movimento revolucionário, eu gostaria que a minha mãe pudesse ler. Grafite é um trabalho... Vamos negociar com a diretora o lugar para grafitar.

Em São Paulo o trabalho foi interrompido no final da gestão Luiza Erundina (7). Mas vieram outros apoios e articulações. Quase dez anos depois estava acontecendo o 5º RAP em Festa, que contou com a participação de 57 grupos. Um dos organizadores era o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Mônica Paião Trevisan . Cedeca, que fica no Parque Santa Madalena e tem o nome de uma adolescente de quinze anos, assassinada após denunciar traficantes do bairro. A entidade foi fundada em 1989 pelo padre italiano Salvério Paulillo, conhecido como Padre Xavier, e pela advogada Valdênia Aparecida Paulino.  O Cedeca tem sido um dos maiores incentivadores do movimento hip-hop  Em depoimento à revista Caros Amigos Especial (número 3), Padre Xavier, afirmando que confluência de valores entre o hip-hop e os ideais cristãos, diz:

Estes meninos são sempre vistos pelas suas carências: eles não têm família, ou não têm escola, ou não têm emprego, ou não têm oportunidade. Nós aqui - no Festival -  estamos vendo suas riquezas: eles têm música, têm poesia, têm dança, têm desenho e muito mais para mostrar.

No Festival o álcool é proibido, e como observou o jornalista Spency Pimentel, há um contraste entre a violência das letras (vamos à revolução, diga não ao sistema) com o clima familiar da platéia que reúne pessoas de todas as idades. As parcerias não se

fazem apenas nas campanhas contra o uso de drogas, mas também em projetos de intervenção social que visam a ampliação da cidadania. O Cedeca, por exemplo, recebe doações da Congregação Camboniana da Itália e realiza convênios com entidades governamentaiscomo a Febem e o Ministério do Trabalho “  para acompanhar e capacitar jovens. Têm projetos ligados ao lazer, tentando usar o que é agradável aos jovens para desenvolver lições de cidadania.  Em São Paulo, também a ONG Ação Educativa desenvolve um interessante projeto com rap nas escolas. Na cidade de Diadema hoje funciona a Casa do Hip-hop com 850 alunos inscritos. , a cada último sábado do mês, acontece o hip-hop em Ação, evento que reúne shows, exposições e palestras sobrecidadania, preconceito e saúde”.

No Rio de Janeiro, para falar de hip-hop é preciso lembrar da ação pioneira do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas - Ceap, da Associação Hip-hop Atitude Consciente - Atcon, das promoções de Fernando Xhackal, do Festival da Voz Ativa na Maré, da coletânea Tiro Inicial e da produção do CD Tiro Inicial. Mas também no Rio de Janeiro, no início dos anos 90, foram os grupos funk que mereceram maior atenção de organismos governamentais e não-governamentais voltados para a “pacificação e integração da cidade”.

Na retomada, segundo Def Yuri, é importante lembrar também a produtora Dyak, que surgiu para facilitar a propagação do hip-hop surgido no Rio de Janeiro e lançou uma coletânea independente (que atingiu uma vendagem expressiva), com os principais grupos do Rio, tendo o nome de hip-hop pelo Rio. A coletânea foi lançada como show de hip-hop, realizado nos Arcos da Lapa, em 24 de julho de 1999, com um público estimado em quinze mil pessoas, em parceria com a Afro Reggae Produções Artísticas - Arpa, e a prefeitura. Contou com a participação de alguns dos maiores nomes daquele gênero musical, como GOG, Thaíde eDJ Hum, Câmbio Negro, entre outros. No documentário A palavra que me leva além - estórias do hip-hop carioca se pode ver entrevistas com Def Yuri e outros ativistas do hip-hop que tem sido feito no Rio.

Hoje no Rio de Janeiro, entre as ONGs que apóiam a disseminação da cultura hip-hop, destaca-se a ONG Campo Centro de Apoio aos Movimentos Populares da Zona Oeste), com o programa CJhip-hop, composto por cerca de 300 jovens da Zona Oeste. Também a Fase - uma das primeiras ONGs do Brasil -  tem se destacado pelo apoio a iniciativas e vários grupos, como, por exemplo, oAfro Reggae de Vigário Geral. Hoje a Fase também desenvolve um trabalho de cooperação e parceria com o grupo Rappa. Por sua vez, a ONG Viva Rio convidou o produtor Celso Athayde, o rapperMVBill e o repeador Def Yuri para participarem como colunistas do Revista da Comunidade, secção do Portal Viva Favela citado neste artigo.

Se quiséssemos, poderíamos continuar a enumerar as iniciativas existentes. Contudo, aqui não se trata de citar todas. O mais importante é fazer notar que a existência, deummovimento ou cultura hip-hop amplia o campo de possibilidades dos jovens moradores das favelas e periferias, assim como abre novas possibilidades para a solidariedade e a comunicação social. Vejamos alguns exemplos

O rap sentido para vidas 

Da minha adolescência, carrego marcas que, se não fosse o rap, talvez não tivessem se cicatrizado e eu não estaria aqui falando com vocês. Muitas coisas eu devo a Deus, a minha mãe e ao rap. A partir do momento em que o rap me deu a oportunidade de reabilitação - ser uma pessoa normal, trabalhar, fazer algo pela comunidade -, passei a pregar o rap como se prega o evangelho (....). Não posso dizer qual foi o benefício que o rap trouxe para a população, posso dizer o que trouxe para mim. Ele me mudou, me deu uma perspectiva que eu não tinha. Acredito que, sendo passado com seriedade, como foi passado para mim, outras pessoas também podem mudar (MV Bill, revista Democracia Viva, nov. 2000/fev. 2001).

 Os rappers fazem

 Revista Raça: Vocês tinham um trabalho de prevenção às drogas?

Edy: Tinha, mas entrou o governo Maluf e acabou tudo

Raça: Vocês pensam em fazer uma coisa de vocês, sem ser com a prefeitura?

Edy: A gente faz. O Blue com oficinas com garotos, o Brown faz palestras em escolas da periferia. Tem a escolinha de futebol.

 O rap agrega

 No Rio de Janeiro e em S. Paulo, a extensa rede de rádios comunitárias também ajuda a divulgar shows de grupos de rap. Em todas as grandes cidades, os grupos contam também com a publicidade dos manos ligados no movimento hip-hop.  Muitas vezes essa ação no local gera espaços de agregação social chamados de posses. Há quem diga que o movimento hip-hop pretende produzir. Como disse uma assessora: .(....) um coletivo autodidata e solidário. Às vezes a escola não é o principal.  Se a informação está no jornal, nas garagens, na praça. É um processo de leitura, de informação. Processo a nível local.. São muitos os núcleos nas regiões periféricas de São Paulo.  A grande maioria dos participantes se informa, se agrega, experimenta, cria laços que duram o tempo desta idade da vida; nos grupos grande circulação e constantes entradas e saídas como acontece com outras organizações de jovens.

 A cultura hip-hop questiona a violência e as desigualdades sociais

 Na verdade, os grupos de hip-hop têm participado de todas as parcerias consideradas up to date na chamada agenda cidadã.  Projeto, parceria e campanha são palavras constantes no vocabulário desses grupos. Na trajetória d’Os Racionais MCs, do Afro Reggae, de MV Bill, do Rappa e de tantos outros, há lugar para parcerias com órgãos públicos, shows filantrópicos em ajuda aos doentes de Aids, campanhas do agasalho, campanha contra a fome, shows e visitas à Febem, aos presídios,8 campanhas pelo desarmamento, conexões culturais pela paz, etc...

Existem grupos de hip-hop que fazem parte de ONGs Comunitárias (ou “ONGs de dentro”) e outros que deram origem a ONGs de Cultura. E, a partir desse patamar institucional, propõem parcerias e formulam projetos de intervenção social. Esse é o caso do Grupo Cultural Afro Reggae (9) que, ancorado no sucesso da banda (reconhecida por eles mesmos como uma “vitrine da instituição e um exemplo de projeto dentro da favela”), realiza o projeto Conexões Urbanas. Esse mesmo projeto, em setembro de 2001, enfrentou tiroteio da polícia quando. numa parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro . foi e levou MV Bill, Caetano Veloso e Adriana Calcanhoto para um grande evento na  Vila Cruzeiro. Os desafios continuam. Haja adrenalina!

NOTA FINAL

Combinar a contundência da mensagem crítica ao sistema, mercado e simpatia de uma parte da mídia é uma tarefa difícil. Mas, para levá-la adiante o pessoal do hip-hop tem um forte aliado: a experiência e a percepção negativa que os jovens - e boa parte da população das grandes cidades - têm da polícia. É esse o caminho para se reconhecer a verdade nas letras de rap

Mas, se é verdade que quando se fala em hip-hop cruzam-se redes, parcerias, fontes de recursos materiais e simbólicos que se fazem presentes na história das lutas dos índios, negros, mulheres, homossexuais, etc..., nesse movimento musical - também diferentemente de outras expressões de arte engajada - há singularidades. Ele se conecta com o mercado; ultrapassa tanto o território sociogeográfico da periferia, quanto o circuito da sociedade organizada, envolvida em lutas pela cidadania; chega aos jovens do asfalto; e - ainda - produz um tipo específico de benfeitor ou mediador de dentro. Em seu interior busca-se colocar as idéias na prática no aqui e agora, local onde se mora, nas periferias e favelas.

Em outras palavras, a partir desse fenômeno, não se modificam apenas as conexões entre jovens nos Estados Unidos e no Brasil, no centro sul e outras regiões do Brasil, de classes sociais diferentes e com graus de consciência social diferenciados. Não se renovaram apenas as maneiras de pensar e agir no que diz respeito às relações com o mercado e com a mídia, às relações de gênero, à negritude e aos Partidos Políticos. Tudo isso é muito importante, mas não é tudo   Sua existência também modifica o panorama das intervenções sociais no interior das favelas e dos conjuntos habitacionais. Ligados à periferia, convocando a favela, esses grupos dão visibilidade a redes sociais preexistentes e constroem outras. São atores de um momento histórico em que se inventa um novo tipo de profissional militante e/ou militante profissional.

Essa última característica pode ser pensada em várias dimensões. Modifica trajetórias pessoais produzindo um sentido para a vida; cria grupos, pois tem um caráter associativo que pode ser visto como locus de aprendizado para a participação social; motiva entre jovens interconexões urbanas baseadas em valores que combatem a desigualdade e o preconceito social; resulta na invenção social novos tipos de produtores culturais, profissionais ligados às comunidades, que andam pelas cidades do mundo

A dobradinha produtos culturais da periferia com qualidade + compromisso com combate às desigualdades sociais está sendo feita.  Trata-se sem dúvida de um grande capital simbólico acumulado.  Reproduzi-lo e expandi-lo é o desafio. Se o mercado e a mídia não podem ser vistos apenas como representantes de um único diabo comprador de almas, é preciso não esquecer que ambos têm suas artimanhas para seduzir, instituir a lógica da competição e dividir.  Se organismos de Estado podem ser parceiros, hoje não é o bastante se contentar com os projetos pontuais e descontínuos. É preciso encontrar formas de alavancar eficazes políticas públicas de emprego, educação, cultura e lazer para a juventude. Afinal nem todos os jovens vão enfrentar o desemprego e o subemprego virando artistas.  E, certamente, ao Estado, além de implementar políticas dirigidas para a juventude, cabe também criar segurança pública

O Estado e a sociedade civil não devem encontrar meios para atuar sobre os mecanismos de exclusão da juventude, como têm o dever de prover recursos materiais e simbólicos para modificar a polícia que está . Quando isso começar a acontecer, a chamada cultura hip-hop terá maior possibilidade de demarcar fortemente as fronteiras entre a comunidade e o tráfico.. 

Por fim, nos resta torcer para que floresça o debate sobre as origens, as relações de gênero, a negritude e participação política Mas floresça sem (re)produzir entropias. Afinal, o mais novo de tudo é que o grito da periferia tem ecoado no centro, no asfalto, nos ouvidos de jovens inquietos, desnaturalizando a violência, reconstruindo esperanças.

 NOTAS

 1. Este artigo está publicado em Proposta- Revista Trimestral de Debate da FASE, Ano 30, 90 : 66-83.

2. Afro Reggae Notícias, jornal lançado em janeiro de 1993. A ONG Grupo Cultural Afro Reggae (GCAR) foi criada em junho do mesmo ano. Em agosto do mesmo ano foram assassinadas pela polícia 21 pessoas em Vigário Geral. O GCAR entrou em Vigário Geral um mês após o massacre. Em 1994, oGCAR obteve da Fase seu primeiro financiamento.  Em julho de 1995, realizou o batizado da Banda AfroReggae, hoje conhecida em todo o Brasil.

3. As expressões entre aspas são de Mano Brown, dos Racionais, em uma entrevista publicada pela imprensa.

4. Sobre relações de gênero no hip-hop do Rio de Janeiro, ver Gonçalvez, 1997:87/89.

5. Cf.Maisde50.000,reportagemdeMarinaAmaral.CarosAmigosEspecial,3.

6. Jardim (1999:2) lembra que este número (250 mil) é o mesmo alcançado por Gabriel,OPensador com o disco Lôraburra que no mesmo ano recebeu da Sony todos os investimentos prioritários para um record.

7. Outro projeto bem conhecido, na mesma linha, se desenvolveu em Santo            André,ondehouveumaparceriaentrediretoria,professoreseSecretariadeEducação.

8. Foi em uma visita ao Carandiru que nasceu o rap e o clipe Diário de um Detento. A base da letra é de um presidiário.

9. Ver nota 2.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 DJ TR. (2001), .O som dos manos, a dança das mina., in Democracia Viva, 9,Ibase.

GONÇALVES, Tânia V. (1997), O grito e a poesia do gueto.(Rappers e movimento hip-hop no Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. IFCS/ UFRJ.

MOTTA, Athaíde e OLIVEIRA, Eduardo. (1998), .HP O reggae e o hip-hop à moda brasileira: radicalizando a diferença.. Revista Democracia Viva, 4, Ibase/Ed. Moderna.

OLIVEIRA, Eduardo. (1999), .HP de Quem teme o Brasil dos Manos?., artigo inédito.

VIANNA, Hermano. (1988), O Mundo Funk Carioca. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.

JARDIM,Marta.(1999), .O que dizer do hip-hop na Febem-RS?.,artigo inédito.

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