|
Perspectivas de gênero Debates e questões para as ONGs |
||
|
Parte I |
||
|
|
||
|
Inicio por demarcar a contribuição do feminismo à elaboração do problema. Essa escolha deve-se à valorização que empresto aos movimentos sociais como sujeitos políticos instituintes de novas questões políticas e práticas culturais. Aponto os dilemas do movimento, os contornos que o problema foi adquirindo ao longo de sua elaboração, ainda e sempre inconclusa, e duas principais vertentes da proposição da igualdade. A questão das desigualdades entre os homens e as mulheres veio ao cenário público há duzentos anos, em meio às revoluções burguesas do século XVIII, entre elas a Revolução Francesa. Nasce, portanto, no campo da luta social pela igualdade, num contexto histórico-cultural muito significativo para o projeto democrático burguês ocidental, que ali se iniciava. O que destoava do conjunto é que o tema foi trazido à arena política pela ação de mulheres, Desenvolvimento e Democracia 165 sujeito coletivo até então ausente e que ali tornara-se instituinte do feminismo e de uma nova agenda de combate às desigualdades. Nos termos apontados por Maria Betânia Ávila, "a ação desses sujeitos redefine os espaços de conflito, as estruturas e os sentidos das desigualdades a serem combatidas" (Ávila, 2001:17). Nesse momento inicial, a perspectiva da igualdade de gênero toma a forma da construção, defesa e efetivação de direitos das mulheres frente aos direitos dos homens. São as lutas sufragistas pelo direito de voto, as lutas pelo direito à instrução, ao trabalho e à renda própria e à propriedade. Mas também o direito à igualdade de participação nos diferentes espaços políticos da democracia, que se constituíam. Essa agenda do séc. XVIII e XIX, ainda valendo para quase todos os países, não era exclusiva do feminismo, mas foi elaborada também por esse movimento. O momento seguinte é marcado pela produção teórica feminista em torno do problema da desigualdade de gênero ali denunciada. Desenvolvem-se as teorias do patriarcado, da subordinação, da dominação dos homens sobre as mulheres. Debate- se a exploração e a opressão das mulheres em diferentes sociedades, classes e grupos sociais e produz-se o que a literatura e o movimento passou a chamar de feminismo da igualdade, ancorado nos ideais de justiça social e transformação aportados pelo feminismo europeu. A idéia de igualdade, no Ocidente, guarda estreita relação com a idéia de justiça e refere-se às regras e práticas de distribuição de bens e benefícios numa dada sociedade (Bobbio, 1999). O feminismo, num primeiro momento, demandou tratamento igualitário para mulheres e homens frente aos direitos, à lei, para, logo a seguir, avançar no debate quanto ao caráter igualitário ou injusto das próprias regras institucionalizadas e das práticas sociais. Mas o que seria igualdade, tratamento igualitário ou justo? Ao longo dos séculos XIX e XX, pelo menos duas repostas foram construídas pelos sujeitos políticos, entre eles as feministas. A primeira, de feição liberal, foca e privilegia a igualdade de condições para a livre competição dos indivíduos. Dito de outro modo, trata-se do que conhecemos por igualdade de oportunidades. Uma segunda resposta orienta-se pela busca da justiça na satisfação das necessidades e dos direitos de cada um, não importando quão desiguais sejam no início de um processo, mas, sim, que, no horizonte utópico, seja reduzida ou eliminada toda a desigualdade entre todos e todas. Herdeiras dessa tradição são as idéias de justiça social, e, mais recentes, as idéias de justiça de gênero, justiça econômica e justiça ambiental, trazidas ao debate por diferentes correntes de pensamento dos movimentos sociais. Os anos 70 do século XX incluíram no debate novos temas e construção e luta por novos direitos. São exemplos o debate sobre o direito ao próprio corpo e a defesa de uma sexualidade livre e autônoma para as mulheres. Até o final do século XX esses temas foram elaborados politicamente na forma dos direitos reprodutivos e dos direitos sexuais. Esses foram os primeiros direitos forjados a partir do movimento de mulheres feminista que estão propostos para usufruto de mulheres e homens, e não apenas das mulheres. Seus conteúdos tornaram-se objeto de políticas e serviços públicos e foram elaborados e disputados com vistas à garantia das condições de efetivação desses direitos. São conceitos-chave para a tipificação de novos crimes, antes percebidos apenas como práticas costumeiras, no máximo consideradas moralmente condenáveis, como o estupro, e para o debate quanto à despenalização de práticas como as do aborto. Apesar das mudanças assistidas nas práticas sociais cotidianas de mulheres e homens ao longo do século XX, a igualdade de oportunidades e o tratamento justo e igualitário ainda não estão dados para todas as mulheres e homens. A luta pela igualdade e justiça de gênero continua, portanto, sendo desafiadora às práticas dos movimentos sociais e do próprio movimento de mulheres. Pensadoras feministas de diferentes correntes políticas e, em especial, o pensamento das feministas negras, aportaram à teoria feminista a crítica à visão uniforme das mulheres e dos homens e desvelaram as diversas expressões da desigualdade entre aquelas e estes. De um lado há o problema das diferenças e desigualdades entre as mulheres e, de outro, as diferenças e desigualdades entre estas, em sua multiplicidade de condições de vida, e os homens. A prática do movimento feminista manteve-se num caminho contraditório e de permanente tensão: a luta pela igualdade com os homens, o direito à diferença das mulheres, e a luta pela igualdade entre as mulheres, por conta das muitas estruturas de desigualdades sociais em que estão situadas. Filio-me ao pensamento das que consideram indesejável dissociar gênero de classe e raça na análise, por exemplo, da desigualdade construída no Brasil e na análise da situação das mulheres brasileiras. Considerando a segregação social brasileira e o altíssimo grau de violência, esse, me parece, é o único modo de análise para construir uma agenda da igualdade mais efetiva e justa para todas as mulheres. Elizabeth Jelin sublinha que a eqüidade de gênero não pode por isso ser identificada com um único valor, seja o da igualdade ou o da diferença, mas com uma pluralidade de princípios normativos que contemplam aspectos associados tanto ao direito à igualdade como à diferença (Jelin, 1999). Mas quais as diferenças? Se nem toda diferença é injusta, não podemos mascarar em simples diferença aquilo que se constitui como desigualdade. Temos que considerar as diferenças entre mulheres urbanas e rurais, por exemplo, além da heterogeneidade regional, é verdade, mas é preciso fundamentalmente considerar as enormes desigualdades de renda entre mulheres e as divisões sociais produzidas pelo racismo que impregnam as práticas cotidianas na nossa cultura. A cultura e a economia podem atuar articuladamente na produção de injustiças. Gênero e pobreza no discurso do desenvolvimento A construção do problema de gênero efetivou-se à medida que se construíam, em duzentos anos, a agenda de lutas do movimento feminista e de mulheres, o próprio movimento e sua teoria crítica. O conceito de gênero, entretanto, emerge no pensamento político feminista somente no final dos anos 70 e no início dos anos 80. O problema de gênero, e sua constituição como tal nos debates do desenvolvimento e da democracia, está colocado desde então como implicando escolhas políticas, em contraponto com certa tendência a tratar de modo neutro a adoção da "perspectiva de gênero", como se esta tivesse uma perspectiva própria, dissociada de filiações teórico-políticas. Isso é especialmente relevante ao pensarmos o discurso do desenvolvimento. O desenvolvimento pode ser tomado como um processo cultural que envolve mudanças políticas, sociais, econômicas. Pode também, e esta será minha escolha, ser analisado como discurso. Neste caso precisamos compreendê-lo como um campo semântico de disputa, no qual os significados são produzidos e mudados. Em geral, e até há pouco tempo, essa disputa referia-se ao chamado Terceiro Mundo, já que os países de "outros mundos" estariam já em estado pleno, desenvolvidos. Esse espaço semântico do desenvolvimento é estruturado pelas relações de poder que articulam instituições, processos socioeconômicos, fatores tecnológicos, etc. e definem as condições sobre as quais objetos, conceitos, teorias e estratégias são incorporadas ao discurso. Tal sistema de relações estabelece a prática discursiva que dita as regras do jogo - quem pode falar, sobre que ponto de vista, com que autoridade e de acordo com que critério de especialidade - e dita as regras a partir das quais um problema, uma teoria ou um objeto emerge, é nominado, analisado e eventualmente transformado numa política ou plano de desenvolvimento (Grillo, 1997). Ainda que funcione hegemonicamente, reconhece-se que o discurso do desenvolvimento é criado e reelaborado por uma enorme e crescente multiplicidade de sujeitos, com visões e conhecimentos muito diferenciados. Identificam-se, pelo menos, três discursos "autorizados" e atualmente em disputa: o discurso do consenso pós-guerra, neo-evolucionista, etnocêntrico, articulado pela direção das elites dos países centrais; o do consenso de Washington, baseado na crença do mercado livre, discurso associado aos organismos de desenvolvimento multilaterais, suas burocracias, seu pensamento, setores acadêmicos neoliberais e amplos setores da mídia; e o discurso da esfera pública, da democracia substantiva, da justiça global, associado a alguns segmentos acadêmicos, movimentos e ONGs internacionais. Desde os anos 80, setores do feminismo vêm defender o envolvimento político no campo do desenvolvimento com a construção de alternativa ao discurso hegemônico. O feminismo é hoje um sujeito legitimado para este debate, e gênero, uma categoria aceita, ainda que com reservas. Nos anos 70, o tema das relações de gênero foi trazido à cena pelo trabalho de Ester Boserup, entitulado Women 's Role in Economic Development. Nele a autora analisa projetos de desenvolvimento na Ásia, na África e na América Latina e demonstra como os homens foram apropriando-se da técnica e dos resultados da modernização tecnológica introduzida na área agrícola, ao mesmo tempo que as mulheres foram sendo excluídas e fixadas nas atividades de tecnologia tradicional, de menor rendimento e de menores ganhos financeiros. O estudo afirmou assim que, ao contrário do que muitos esperavam, a modernização na esfera produtiva, se não acompanhada da democratização das relações sociais, dificilmente promoverá o equacionamento das desigualdades sociais; entre elas, as de gênero.Beneria e Sen, revisando o estudo de Boserup, sublinham o que consideram que de mais relevante a autora aportou para uma perspectiva de gênero no discurso do desenvolvimento. Boserup enfatiza gênero e geração como fatores da divisão do trabalho, tanto nas sociedades primitivas como nas chamadas sociedades desenvolvidas; enfatiza a crítica à explicação natural dessa divisão, percebida como óbvia e originalmente imposta pela divisão sexual per si. Por fim, enfatiza a universalidade da concentração das mulheres nos trabalhos domésticos. Uma lacuna importante entretanto é apontada pelas autoras nesse estudo, qual seja a desconsideração dos problemas da modernização propugnada pela orientação política liberal dos projetos analisados, problema decorrente da filiação teórico-política da própria Ester Boserup. Mesmo assim o estudo é considerado um marco na institucionalização da perspectiva de gênero nos processos de planejamento e implementação de projetos de desenvolvimento (Beneria e Sen, 1998). A partir de 1975, cresce, na esfera internacional, a presença das questões de gênero. São marcos desse processo a Década da Mulher, 1975-1985, instituída pela ONU, e o Ciclo Social de conferências das Nações Unidas, levados a cabo durante os anos 90, culminando com a IV Conferencia sobre Mulher, Desenvolvimento e Paz, em Beijing, 1995. A esses espaços confluíam e neles conflitavam-se diferentes atores e discursos. Considero que nas disputas ao longo do Ciclo Social foi crescentemente mais forte o discurso da justiça de gênero. As questões de gênero no discurso hegemônico foram, entretanto, crescentemente sendo absorvidas e articuladas apenas ao tema da pobreza e da participação política, mantendo-se os outros temas/problemas, como a violência e os direitos reprodutivos, ainda em um espaço de disputa acirrada, em especial questionada por setores fudamentalistas. No âmbito das organizações financeiras multilaterais, manteve-se a hegemonia do pensamento liberal, mesmo após Beijing, quando foi reforçada a ofensiva feminista contra as políticas de Ajuste Estrutural que vinham sendo efetivadas desde os anos 80.Atualmente são muitas e contraditórias as possibilidades de se relacionar gênero com desenvolvimento. Cada uma dessas possibilidades pode colocar mais ou menos ênfase nos processos de democratização. Parece-me importante demarcar que, se existem muitas diferenças de perspectivas de gênero no contexto da cooperação internacional para o desenvolvimento, estas não são exclusivas desse campo de relações e práticas, mas perpassam também opções e práticas de governos locais e nacionais, assim como práticas de ONGs e movimentos. Em geral são práticas que distanciam-se, em muito, da forma e do sentido do problema de gênero tal qual construído pelo feminismo. O mais comum é o gênero aparecer associado apenas ao tema da pobreza das mulheres, abstraído de qualquer perspectiva histórica. O combate à pobreza é uma das formas que o tema da pobreza tomou, nos anos recentes, no contexto do desenvolvimento. É uma espécie de lema que uniria todas as forças, transformadas em forças do bem, contra um mal externo a elas. O discurso que decorre desse enunciado presta-se a quase tudo, em nome do combate à pobreza e da defesa das mulheres pobres, e afirma-se em estratégias de agências multilaterais e não-governamentais com as mais diversas intenções. O efeito geral, entretanto, é o mesmo, a idéia de combate à pobreza retira de cena os sujeitos políticos, transforma a injustiça e carência social numa "coisa objetiva, natural, exterminável por um olhar externo" (Ribeiro, 1999:16). Esse discurso coloca as mulheres pobres no alvo dos beneficiários desse combate. O problema com a idéia de combate à pobreza, ao qual aparece associado o tema gênero, no discurso da burocracia do desenvolvimento, é que essa idéia abstrai causas e responsáveis pela produção da riqueza, da pobreza e da desigualdade. Essa é uma idéia esvaziada de densidade política:
É sob esse discurso de combate à pobreza que consolidam-se as políticas MED (Mulher e Desenvolvimento), ainda prevalecentes entre os organismos de cooperação, em especial a cooperação multilateral e governamental. Foi com o foco nas mulheres, individualmente pensadas, e não nas relações de gênero, estruturadoras de desigualdades, que as primeiras "políticas" MED foram desenhadas, buscando a proteção da maternidade e das crianças pequenas, a melhoria das condições de vida das mulheres pobres - leia-se mães pobres - e, mais recentemente, sua participação comunitária. Embora beneficie individualmente a muitas mulheres essa ótica de entendimento de gênero é reducionista e despolitizante. Uma segunda abordagem do problema conforma-se na chamada política GED (Gênero e Desenvolvimento), que desloca o foco das mulheres para as relações sociais. Através das políticas GED, quando se tenta compreender a situação das mulheres, não se focam unicamente os aspectos da maternidade e da reprodução, mas a totalidade da vida socioeconômica do contexto examinado e as mulheres nas relações de poder. Valoriza-se o fortalecimento das organizações de mulheres, assim como o empoderamento individual de cada mulher, trazido em maior autonomia sobre as decisões relativas a sua própria vida. Setores feministas que atuam no campo do desenvolvimento apontam limites às duas abordagens. Mesmo em GED, o foco de atenção segue centrado nas mulheres, valorizando a mudança de posição delas nos processos e estruturas já dadas. Considera-se muito tímida, quando não totalmente ausente, a atenção emprestada à transformação das estruturas que produzem as desigualdades e injustiças. Ao longo dos anos 90, muitos foram os ensaios feministas em que se elaboraram as críticas às noções de necessidades e interesses das mulheres, próprias da abordagem GED. Estas críticas recolocaram a perspectiva de justiça de gênero no centro do que deveria ser o desenvolvimento (Anderson, 1992; Jaquette, 1990; O'Neill, 1994). Entre outras, destaco algumas indicações de Lourdes Beneria e Gita Sen que nos forçam a manter a atenção sobre o impacto, planejado e não planejado, do desenvolvimento no interior de qualquer sociedade: quem beneficia, quem esquece, qual o balanço final entre direitos e obrigações, poder e privilégio, e apontam para a decorrência de sempre nos questionarmos sobre qual o grau de transformação das estruturas produzidas pelos processos de indução ao desenvolvimento e sobre a direção destas mudanças (Beneria e Sen, 1998). Essa entretanto não tem sido a perspectiva de gênero nas práticas de cooperação para o desenvolvimento. No primeiro momento, as mulheres foram percebidas como em situação de desvantagem em relação aos homens, privilegiando-se, em decorrência disso, medidas de correção do acesso aos recursos e benefícios do desenvolvimento - as chamadas políticas afirmativas. As mulheres foram também reconhecidas, não sem pressão do movimento internacional, como principais vítimas dos programas de Ajuste e a elas foram destinadas muitas das políticas compensatórias. Mais recentemente, as mulheres foram avaliadas como potencialmente úteis ao desenvolvimento: não desperdiçam os recursos nelas investidos, porque, mais do que os homens, sentem-se comprometidas com a economia familiar, o sustento e o bem-estar dos filhos. Essa preocupação das mulheres - com o cuidado e o bem-estar do grupo doméstico, com a vida das pessoas, preocupação para a qual foram "treinadas" e disciplinadas ao longo da história da humanidade - tem sido instrumentalizada em muitos programas governamentais. Portanto, elas passam a ser um recurso importante para programas de desenvolvimento. Essa mesma visão, no mais das vezes, tem pouca preocupação com o fortalecimento das organizações de mulheres. Entretanto, é aí que se forja e emerge a ação política, onde reside o conteúdo mais transgressor e transformador da prática das mulheres e das relações de gênero. A participação das mulheres no desenvolvimento tem sido entretanto, no mais das vezes, ilustrativa, ou simplesmente associada à execução de tarefas comunitárias de base, em geral referidas ao gerenciamento local de programas de alívio à pobreza. Gênero e a construção de uma prática democrática Considero que no campo da luta democrática, na esfera pública, a questão da participação não pode estar ausente de uma perspectiva de igualdade de gênero.Temos um sistema onde a maioria das posições é ocupada por homens: isso não é nada menos do que patriarcado. Nos movimentos populares, a maioria dos postos de direção está ocupada por homens. O mesmo acontece com os parlamentos, as associações de bairros e as centrais sindicais. Isso mantém limites e práticas que explicam a pouca participação das mulheres e que se configura numa dupla dificuldade. As mulheres vão para a esfera pública, que ainda não está transformada a ponto de resolver a vida doméstica, com a famosa chamada dupla jornada, e chegam-se ao lugar público com o sentimento vago de que estão fazendo alguma coisa inadequada, que estão num lugar que não é o seu lugar.A política de formação das mulheres entre as mulheres, para refletir sua própria identidade e poder reconstruí-la, segue sendo também importante e claramente desconsiderada em muitos projetos de desenvolvimento. Em que pese a avaliação de algumas pessoas de que o tempo do feminismo, do mulherismo e da luta das mulheres está superado, considero fundamental a manutenção do sujeito coletivo que vai focar essa transformação. Sem o esforço e sem o fortalecimento desse sujeito político, não há como mudar. É preciso manter e estimular espaços de encontro e formação das mulheres entre mulheres. Por fim, destaco que a democracia e o desenvolvimento envolvem um nível de fortalecimento das pessoas enquanto pessoas, enquanto indivíduos e, ao mesmo tempo, exigem a transformação de instituições em que essas pessoas se inscrevem no cotidiano. A família, uma dessas instituições, é um campo de problema. Em algumas abordagens, a questão de eqüidade de gênero é colocada como uma ameaça aos grupos domésticos, produtora de desarmonias e desestruturação. Entretanto, no raciocínio de quem pensa a democracia como um campo de conflito e de reconstrução permanente, isso pode ser entendido como transformação das estruturas que historicamente foram construtoras e reprodutoras da desigualdade de sexo. Por isso afirma-se que não é possível entender democratização das relações sociais sem considerar a possibilidade de restruturação de algumas instituições importantes. Não é possível se pensar desenvolvimento sem considerar a transformação das estruturas e instituições. Esse é o processo permanente de democratização das instituições, públicas e privadas, e das relações domésticas e políticas, com o qual todas as ONGs estão desafiadas a comprometer-se, sem o que nossa utopia democrática estará inviabilizada. NOTAS 1. Uma primeira versão deste artigo foi apresentada, em nome do GTGênero, para o debate na Reunião da Plataforma de Contrapartes Novib no Brasil, realizada no ano 2000, em Atibainha, São Paulo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON, Jeanine. (1992), Intereses o justicia. Donde va la discussion sobre la mujer y el desarrollo?. Lima, Ediciones Entre Mujeres. ÁVILA, Maria Betânia. (2001), "Feminismo, cidadania e transformação social" in Textos e imagens do feminismo: mulheres construindo a igualdade. Maria Betânia Ávila (org.). Recife, SOS Corpo Gênero e Cidadania. BENERIA, Lourdes&SEN, Gita. (1998), "Accumulation, reproduccion and women's role in economic development: Boserup revisited", in N. Visvanathan (coord.) et all., The Women, gender and development reader, London and New Jersey, Zed Books Ltda BOBBIO, Norberto; MATTEUCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. (1999), Dicionário de política. Trad. Carmen C. Varriale et all.; Brasília, Editora UnB. CAMURÇA, Silvia Maria Sampaio. (2000), A relação direta entre democracia e desenvolvimento na perspectiva do GTGênero. Trabalho apresentado na Reunião da Plataforma de Contrapartes Novib no Brasil, Atibainha, São Paulo. ESCOBAR, Arturo. (1997), "The making and unmaking of the Third World through development", inM. Rahnema withV. Bawtree (eds.), The Post-development reader, London, Zed Books. GRILLO, Ralfh D. (1997), "Discourse of development: the view from anthropology", in R.D. Grillo & R.L.Stirrat (eds.), Discourses of Development, Oxford/New York, Berg. JACQUETTE, Jane. (1990), "Gender and justice in economic development" in Tinker, Irene (org.) Persistent inequalities: women and world development. Oxford University Press. JELIN, Elizabeth & VALDÉS, Teresa. (1999), "Necessidades de investigación en los países del cono sur". Trabalho apresentado no Taller "Género y Desarrollo", Montevideo, Uruguay. O.NEILL, Onora. (1994), Justicia, genero, fronteras internacionales. Propuestas. Lima, Ediciones Entre Mujeres. RIBEIRO, Ana Clara Torres. (1999), "Combate à Pobreza", palestra proferida na Reunião da Plataforma de Contrapartes Novib no Brasil, Rio Bonito. |
||