|
Novas tecnologias reprodutivas e genéticas, ética e feminismo: A celebração do temor |
| Alejandra Ana Rotania de Pozzi |
|
Resumo
da Tese de Doutoramento em Ciências defendida em |
O estudo submete a apreciação o estado da
arte do desenvolvimento científico e tecnológico da biologia contemporânea,
especificamente das Novas Tecnologias Reprodutivas Conceptivas (NTRc) e das
Tecnologias Genéticas e Moleculares (TGM), tendo em vista avaliar as implicações
éticas do conhecimento e do agir e como estas, a partir das tentativas de
compreensão e resolução, se organizam em vertentes diferenciadas segundo a
base axiológica que as orienta.
Realiza uma articulação entre ciência e
tecnologia (bioengenharia), ética (filosofia) e feminismo à luz do pensamento
de Hans Jonas (1903-1993) e do Princípio Responsabilidade, da literatura específica
de análise de tecnociência e do debate bioético contemporâneo e da tradição
do pensamento e da ação feminista.
A partir de uma explicitada concepção
onto-antropológica, que basicamente decorre da adoção dos referenciais teóricos
jonasianos e da incorporação crítica da perspectiva feminista são
elaboradas, organizadas e sistematizadas tendências atualmente predominantes no
campo da Bioética em geral e do Feminismo face às NTRc e as TGM.
A tarefa analítica se orienta tendo em
vista três pressupostos iniciais que formulam a partir da articulação
proposta e do referencial teórico escolhido, a saber:
O estudo organiza-se em três partes. A
Parte I, intitulada A Ciência e a Tecnologia da Vida, contextualiza
historicamente o capítulo 1 a natureza do processo de produção do conceito de
geração, a emergência e consolidação do conceito de reprodução e as
perspectivas de inovações conceituais (replicação e mutação
tecnologicamente induzida) no contexto das condições de possibilidades atuais.
O estado da arte do desenvolvimento tecnocientífico e suas possíveis tendências
futuras são apresentados no capítulo 2 e 3 respectivamente.
A Parte II, intitulada A Ética da Vida
organiza-se em torno da análise das implicações éticas (Bioética) do estado
da arte. O capítulo 1 avalia a natureza, temática, problematizações,
perspectivas e fundamentos da Bioética comtemporânea, exlplicitando a pertinência
analítica da abordagem jonasiana. Os capítulos 2 e 3 resumem e apresentam o
pensamento de Hans Jonas a partir de suas obras mais representativas e do
enfoque onto-antropológico que o particulariza para logo a seguir, no capítulo
4, associar, confrontar e determinar tendências atuais da Bioética.
Na parte III do estudo, intitulada
Feminismo, o capítulo 1 contextualiza o processo de construção do pensamento
feminista e suas premissas fundacionais em torno da relação natureza/cultura a
partir da qual se busca configurar e avaliar diferentes posturas valorativas em
face das NTRc e das TMG (capítulo 2). Estabelecendo-se associações com o
contexto mais geral valorativo do debate bioético e da análise da tecno-ciência
biológica, embora acentuando-se especificidades em termos de crítica epistemológica,
escolhas e contribuições teóricas e eticidade singular, o feminismo
organiza-se em três vertentes denominadas a vertente utópica liberal, a consciência
dos limites e a consciência das finalidades. No capítulo 3 desta última parte
esta última tendência considerada emergente é submetida a apreciação para a
qual contribui a ontologia da responsabilidade jonasiana e o debate bioético e
feminista mais geral.
O estudo, na suas conclusões, constata que o
estado da arte provoca um olhar atônito sobre a novidade radical da modernidade
(tecnociência biológica) que compromete severamente a imagem humana de homens
e mulheres do presente e do futuro. A engenharia, um conjunto tradicional de
saberes e procedimentos, permitiu à espécie fabricar algo novo, maquinas
engenhos e acrescenta-los à natureza para uso do Homem em todas as instâncias
das suas necessidades. A engenharia biológica outorga factibilidade à replicação
e à mutação tecnologicamente induzida dando conta de forma dramática da
novidade radical que a modernidade traz para a civilização humana. A procriação
(geração, lançar rebentos, renovar, dar origem, nascimento, germinar)
tornou-se re-produção (tornar a produzir, copiar, replicar, tornar a fazer,
repetir) e aninhou nas bio-fábricas contemporâneas para não só replicar como
também innovar, criar novos seres vivos através da mutação, imitando o
trabalho da Natureza. A tecnociência biológica (bioengenharia humana),
significante do processo de privação de valor do objeto e de descompromisso do
sujeito configura um universo ontológico e praxeológico que nega todo o vínculo
de pertinência entre Homem e Natureza, legítima um moído de explicação
científica que se confunde com toda a verdade da vida e fundamenta normas para
uma liberdade humana ilimitada.
O estudo demonstra que o referencial teórico
de Hans Jonas, baseado na proposta de uma ética secular, não utópica e não
antropocêntrica, inserindo um
universo onto-antropológico que permite fundamentar o valor objetivo da
responsabilidade, é pertinente e relevante. Os aspectos do pensamento jonasiano
que podem ser considerados problemáticos sob a ótica da discussão filosófica
contemporânea relativos, por exemplo, ao embassamento filosófico da metafísica
do Ser e do Dever Ser não invalidam o processo de recuperação e reinterpretação
permanente da tradição filosófica nem a sua contribuição para fundamentações
com intuito superador das vertentes idealistas e reducionistas e nem a tentativa
de formulação de teorias científicas integracionista, antes bem, reforçam a
necessidade de se colocar novamente em questão os significados da singularidade
humana e suas relações com a natureza.
O 1º pressuposto inicial (vide pág. 1)
possibilitou construir vertentes diferenciadas da Bioética contemporânea tendo
em vista as perspectivas ontológicas que as sustemtam, segundo foi
sistematizado no quadro apresentado acima. A Bioética Situacionista e a Bioética
Moderantista compartilham da aceitação
do estatuto epistêmico vigente e da idéia de continuidade indiferenciada do
fazer técnico a partir da qual a reflexão que recai no campo da Bioética
realiza-se sobre a premissa de que o que se deve fazer não estabelece relações
de necessidade com o que se deve ser e o agir ético define-se, seja pela resolução
de conflitos, seja pela necessidade de limitação dos usos e abusos que
decorrem da factibilidade tecnocientífica.
A Bioética Situacionista adere
visceralmente aos dados tecnocientíficos e a capacidade de autonomia deste
campo encontra-se, assim gravemente comprometida, apresentando condições
propiciais para a resolução a posteriori de conflitos entre partes.
Se os pressupostos onto-antropológicos do
conhecimento e do agir não se explicitarem ( o que ocorre na Bioética
Situacionista e de certo modo, na Bioética Moderantista
apesar desta visualizar a necessidade de controle social) e as concepções
vigentes sobre a natureza e o humano moldam-se na privação de valor do ser, na
lógica do antropocentrismo utilitarista ou na lógica do controle dos abusos e
dos riscos de um processo neutro auto-finalizante e auto-organizativo e
comprometido na rede das suas conexões de sobrevivência enquanto tal, visto
que ele próprio na sua integralidade sofrerá dos efeitos funestos do
intervencionismo e colocará em risco o próprio futuro material e simbólico da
espécie. Trata-se de um desmesurado poder de saber e de agir que mascara a
natureza do Bem que persegue e que arrisca, em nome do Bem, a própria
capacidade humana futura que permite ser responsável na definição e escolha
do Bem.
Na realidade, uma vez explicitados os
valores básicos onto-antropológicos do conhecimento e do agir observa-se
que uma aparente “suficiência”da proposta Situacionista e
Moderantista, baseada na convicção da indiferenciação e inexorabilidade do
progresso técnico no contexto de uma ética antropocêntrica (“metafísica da
subjetividade”), é contrariada pelo grau de complexidade na operacionalização
do poder, ainda que este só se compreenda como relativo à esfera das resoluções
de conflitos entre nações são incomensuráveis. A suposta suficiência para
dar conta das implicações éticas das mudanças inéditas, fato que é condição
sine qua non da sua formulação, porém esta mesma novidade teima em se
manifestar, se bem não através do reconhecimento das rupturas, pelo menos no
acréscimo desmesurado de complexidade resolutiva.
O primeiro pressuposto inicial favoreceu a
descoberta de perspectivas críticas da Bioética Situacionista e do
tecnocientificismo, isto é, definiu a possibilidade de configurar vertentes
valorativas que preocupadas, seja com os limites, poderão fundamenta-los nas
finalidades provindas de outras cosmovisões e da avaliação rigorosa do
estatuto do conhecimento (Bioética Moderantista), seja com a explicitação das
finalidades do Ser, poderão criar condições de implementação dos limites
(Bioética Oposicionista).
O segundo pressuposto (vide pág.1) apontou
para a dimensão da singularidade do pensamento feminista face às NTRc e as TGM
e permitiu a construção de perspectivas valorativas diferenciadas de compreensão
e de formulação de respostas aos desafios configurados. A análise da problemática
central do feminismo como pensamento e ação e as diversas interpretações do
significado da tecnociência da reprodução para a lógica da exclusão e suas
instâncias superadoras articulam-se em torno da tensão hermenêutica; da
natureza e da cultura, e a partir basicamente da convicção de que toda
aproximação associativa entre mulher e natureza (cristalizada historicamente
nas teorias do determinismo biológico) representa um obstáculo de valor para a
constituição do sujeito moral. Conseqüentemente, o feminismo em geral tem
fincado pé na instância axiológica que maximiza as oportunidades de
transformação da própria essencialidade humana, apresentando receios
justificados perante doutrinas de valorização da instância natural que possam
representar perdas dos espaços conquistados. Todavia, a tecnociência da
reprodução revitaliza questões que aparentemente estavam de algum modo
arrumadas e alavancadas pela tradição, provocando uma pertubação nas
premissas valorativas do agir.
O feminismo em geral empreende a crítica
da cultura – e, no caso específico da avaliação dos significados das NTRc e
das TGM – sem ir além dos fundamentos essenciais da cosmovisão dominante,
renovando os dualismos às avessas ou buscando adaptar a reivindicação histórica
de superação da exclusão nos meandros de uma teia civilizacional que, por últimas,
o seduz e o devora. Nem a própria utopia liberal consegue, sejam vistos por
exemplo, os reclamos de participação no processo tecnocientífico, tanto na própria
gestão do poder quanto na dimensão do acesso aos usufruto dos benefícios que
dele decorrem nas suas diversas instâncias de expressão.
Na vertente liberal, a vontade de superação
social e política da exclusão vem acompanhada da perspectiva da transformação
natural da espécie e esta proposição de mudança prevalece sobre a idéia de
que o corpo feminino é veículo de controle e domínio da
“animalidade/inferiorização/imanência/exclusão” e enquanto tal, não
oferece obstáculos do próprio projeto de liberdade.
Este projeto basicamente legitima a
engenharia reprodutiva e genérica perante a qual só se formulam reclamos de
direitos de administração na gestão do desenvolvimento e autonomia e segurança
no acesso aos benefícios. Compartilha-se, implícita ou manifestamente, da
vontade de poder (constitutiva, não transitória) de remodelação simbólica e
material das gerações futuras de homens e mulheres, sela compromissos com a
Bioética Situacionista. Contudo, apesar desta correspondência axiológica, a
vertente utópica não dá conta das novas questões porque se ressente dos obstáculos
advindos da própria resistência social e política em facilitar a administração
do saber e do poder.
A vertente da consciência dos limites
busca demarcar os riscos e benefícios da intervenção tecnocientífica no âmbito
da saúde física e moral das mulheres e das ambigüidades de poder no âmbito
civil, porém permanece a quem dos desafios ao não questionar os pressupostos
epistemológicos e ético-filosóficos que fundamentam e definem a própria
natureza dos riscos e dos benefícios.
Por último, a consciência da finalidade
tem condições de emergência a partir da tentativa de dar conta destes
desafios através do reconhecimento das rupturas provocadas pela engenharia biológica
(tecnociência) e da busca de re(visão) das bases valorativas tradicionais do
feminismo. Cabe ressaltar, no entanto, que a consciência da finalidade é uma
tendência, no sentido mesmo literal de vocação, de propensão, da força que
faz um corpo mover-se criativamente para potencializar o diálogo com saberes
afins em torno de radicais objeções ontológicas e, enquanto tal, é uma
perspectiva aberta de formação com todas as vantagens e desvantagens que este
caráter lhe confere, sobre cuja avaliação terá de dar conta da sua consistência
teórica e da sua viabilização política.
O terceiro pressuposto inicial (vide pág.
2) aponta para uma instância de reflexão integradora onde se sinalizam pontos
de contato entre a análise NTRc e as TGM, a Bioética e o Feminismo tendo em
vista o referencial jonasiano.
A tradição feminista problematiza este
referencial e neste sentido sugere conflitos, fundamentalmente a partir de uma
indagação vital e inelutável que lhe define sua natureza, isto é: como rever
a questão da liberdade e da autodeterminação das mulheres no contexto de uma
concepção onto-antropológica de auto-afirmação do Ser, de preservação da
vida e da identidade humana como ser já e de incorporação do novo objeto de
responsabilidade – obrigação, dever para com as gerações futuras e a
natureza como um todo – sem que esta re(visão) se traduza de algum modo em
novas estratégias culturais e políticas de instrumentização e opressão? A
unidade da proposta feminista está dada pelo fato de defender teórica e
politicamente e inegociabilidade de qualquer tentativa de buscar respostas
arquitetadas sobre o desconhecimento da problemática da exclusão.
A superação do paradigma da exclusão
deve, perante os desafios provocados pela tecnociência da reprodução,
contextualizar-se numa instância axiológica de reconhecimento da integralidade
e finalidade do Ser (Homem e Natureza) de onde advém uma força ética
normativa imanente que instaura, pela via do temor e do respeito, a autorestrição
do poder da subjetividade humana a fim de evitar escolhas e decisões que
alterem a capacidade ética das gerações futuras.
Esta proposta, no entanto, molda uma dimensão
de reconhecida problematicidade e por isto mesmo, extremamente frutífera para a
continuidade dos aprofundamentos dialógicos sobre o tema da adequação entre
necessidade e liberdade, diferença e eqüidade, deveres e direitos de homens e
mulheres na era da engenharia da reprodução.
A proposta ético-filosófica secular da
ontologia da responsabilidade de base jonasiana vem acrescentar-se ao campo da
consciência da finalidade no qual confluem o ecofeminismo não liberal, o
ecofeminismo holístico de base religiosa ou secular e as perspectivas críticas
epistemológicas e filosóficas que emergem do próprio feminismo, de outros
setores sociais e políticos e de outras instâncias dos saber, sobretudo da
filosofia da ciência e das teorias biológicas emergentes em contextos
integracionistas e holísticos.
A vertente feminsta da consciência da
finalidade e a Bioética Oposicionista, ambas configuradas segundo a explicitação
ontológica da necessidade de limites à tecnociência biológica a partir do
reconhecimento de finalidades do Ser, apresentam radicais objeções a toda e
qualquer ação de negação e fuga, vista ser a responsabilidade de natureza
total e permanente. Homens e mulheres, seres responsáveis por definição,
poderão fazer a releitura dos significados das suas próprias identidades e
relações de modo que a partir de uma perspectiva não utópica possam mudar
aquilo que os desagrada sem mudar aquilo que os dignifica.
O estudo encerra com uma persistente indicação
de heresias necessárias e a forte convicção de que os temas tratados
tornam-se uma questão política de primeira grandeza. A reflexão sobre a
ontologia do princípio responsabilidade, as correntes críticas da
tecnociência biológica e da Bioética e a consciência da finalidade
poderá ser continuada e enriquecida pelos espíritos contemporâneos comovidos
e aproximados pela celebração do temor e finalmente provocará o desafio de
responder ao quê fazer no âmbito da ação. Esta tarefa só pode ser realizada
e tem sentido de ser realizada através da disseminação da reflexão bioética
em todas as instâncias da comunidade social, econômica, política e cultural
de modo a configurar um amplo processo de percepção crítica, sensibilização
e responsabilização perante os desafios da era tecnológica. Propõe uma ampla
articulação política de movimentos, entidades e segmentos à par de uma
exaustiva revisão interna das linhas de pensamento e estratégias de ação de
modo a transformar os imperceptíveis mecanismos quotidianos de domesticação
do pensamento e da ação na nova dimensão planetária da globalização.
Entende que qualquer nostalgia pelo paraíso perdido (atitude comumente
entendida como indicativa do obscurantismo anticiência que caracteriza as
vertentes críticas radicais) deve assumir um verdadeiro sentido pedagógico que
pode vir a acrescentar-se às modificações íntimas do sentimento necessárias
para um pensar e um agir éticos responsáveis. Não poderia ser de outra forma.
Tão sem sentido é pensar que homens e mulheres não são ainda e como tais
podem ser remodelados a fim de ancorar no futuro a possibilidade de realização
plena do humano (utopia), como o é cogitar em transferir para o passado as
respostas para os desafios do presente (utopia).